Maria das Graças desaparece
Um conto original, publicado no dia 17 de dezembro de 2018.
Desde o princípio soube que era tarde demais, de alguma maneira.
Começou ao meu nascimento e cessará quando de minha morte, breve, aguardo com muita dor por toda a minha existência.
O nome dado por minha mãe é Maria das Graças e, estou certa em afirmar, desapareci na véspera de Natal de 1901. Ainda vivo a pensar sobre a ocasião e, reflito se haveria algo a se fazer para evitar que tal monstruosidade pudesse vir a ocorrer com a minha pessoa. Se eu não tivesse ousado sair de minha residência ou, quem sabe, não devesse ter visitado Maria das Dores para pedir aquela agulhinha boa de fiar... De qualquer maneira, aqui me encontro em meus últimos suspiros, procurando pensar em tudo, menos no infortúnio que me aguarda.
Dentro dos bolsos de meu vestido, costurado por mim mesma, encontrei algumas fotografias de minha casa e de minha família. Guardo com todo o cuidado e as colocarei juntamente a esta humilde carta, rezando a Deus para que seja encontrada. Quero que haja paz para meus pobres pais, que Deus os tenha sempre em seu abraço de amor.
Nasci em 1879, no pequeno sítio de meus avós, no dia 25 de janeiro. Quando olho esta fotografia, lembro-me do quão delicioso era sentar-me na pequena colina atrás de minha casa, observando a pequena grande Curitiba crescer e se movimentar sob meus olhos sonhadores... Tempos bons que oportunamente aproveitei-me. Meu pai, Manuel Barbosa de Barros, tinha uma lojinha de roupas para homens e rapazes na Praça Tiradentes, muitíssimo movimentada e benquista pelos curitibanos distintos. Orgulhava-se de vender belos suéteres costurados à mão por minha mãe e camisas bordadas por mim. Desde os 12 anos, meu grande e adorado passatempo era fiar, bordar, fazer belos desenhos das aventuras que me criavam ganas de viver, fazendo pequenas cócegas na barriga. Minha mãe, Aparecida, além de exímia costureira era a melhor cozinheira da cidade. Na época do inverno, na feira, seus biscoitinhos e chocolate quente eram os mais procurados por todos, de tão deliciosos! Quase posso sentir-lhes o cheiro, o gosto...
Minha história foi como a de todas as mulheres curitibanas, indo ao colégio estudar costura, culinária e as boas maneiras. Não que precisasse: elogiavam-me minhas maneiras de mocinha delicada, uma princesinha, uma "fadinha travessa", dizia meu pai quando me punha a fazer seu doce preferido e fazia-lhe caretas e brincadeiras. Sonhava, como todas, que haveria um rapazote para me cortejar, presentear e provar ser decente ao meu pai, que me daria com lágrimas aos olhos no altar para meu futuro marido. Quantos dias foram passados na janela de casa, vendo passar aquela gente querida e conhecida... Olhando Benito, irmão de Maria das Dores, tão lindo, lindo! Formoso que ele só conseguia minhas mais preciosas juras de amor... Que saudade!
Lá pelas tantas, aos dezessete, papai pensou que não seria proveitoso que eu me casasse ainda. A loja ia bem, então para que perder a sua melhor costureira? Alguns maridos não aprovavam a mulher trabalhadeira, então eu ficaria em casa, fiando e costurando apenas para ele. Papai era ciumento e um pouco sovina. Mesmo assim, fazia vistas grossas para meus namoricos na janela, coisa que mamãe não perdoava, rezando três ave-marias a cada vez que me pegava na janela. Pobre mamãe e seu coração partido, que nunca me verá de branco, com seus netinhos nos braços... Ai de mim, que nunca segurarei meu filhinho, que nunca terei!
Penso todo o tempo nos meus queridos pais e no meu irmãozinho, Manolito, pequeno Manuel, agarrado às minhas saias pedindo doces todo o tempo! Garoto guloso e cheio de melindres! Não se podia reprendê-lo jamais, senão ficava choramingando pela casa o dia inteirinho! Mas que saudades sinto de meu irmãozinho. Ah! Monstro terrível este que me aprisiona. Não há mais pudor nas maldades que faz comigo e nem piedade.
Uma moça nunca estará segura na companhia de homens, mesmo se estes forem amicíssimos de nossos pais e tido como homem honrado, pai de família e trabalhador. Estava eu, na véspera de Natal, correndo até a casa de Maria das Dores: estava bordando uma toalhinha para o presépio e precisei de uma agulhinha delicada que só ela tinha.
"Boa tarde, senhorita Maria, como vai?", cumprimentou-me o monstro oculto.
"Belíssima tarde, Barão! Vou bem, e o senhor? Papai tem perguntado pelo senhor na loja, faz tempo que não aparece!"
"Bem, bem, minha cara, faz mesmo! Ando ocupado com os negócios da prefeitura, transmita-lhe isso, por obséquio." o rosto redondo do Barão me deu um sorriso que agora, ao lembrar, parecia-me maldoso, completamente malicioso. Ah papai, me perdoe por tamanha falta de decoro!
"Antes de nos despedirmos, senhorita das Graças" era como chamava-me em suas troças na loja "faz-me um favorzinho!".
O "favorzinho" requisitado pelo Barão era indecente. Imoral. Vergonhoso. Era uma desonra na qual gostaria de poupar minha família, que deverá repudiar-me se for salva! Quando tentei gritar, correr, segurou-me pelos cabelos, meu penteado desfez-se todo e meus grampos caíram na grama seca. Aquela mão que, nunca havia percebido, grande e poderosa pressionava meus lábios, machucando-os. Agora já não surpreende-me. Bateu-me com a cabeça em uma mureta e desmaiei. Ninguém o viu ou, se viu, nada falou, pois estou há muito tempo neste calabouço infernal, esquecida por Deus, aguardando no eterno o meu perdão.
Só resta-me esperar pelo divino perdão e pelo alívio que minha morte trará. Ele agora parece preocupado. Ouvi os saltinhos delicados da Baronesa pelo casarão, como que desassossegada. Algum tempo atrás, não sei dizer quando, alguém abriu a porta de meu calabouço, mas não desceu. Ficou ali, parado, respirando, exalando meu desespero e minha dor. A porta bateu com força e a escuridão voltou. Rezo, rezo muito para ser encontrada. Não quero mais sentir dor, nem desespero. Não quero ir para os braços de Jesus agora. Amo meu Deus, mas minha vida não pode ter fim, não agora... A porta se abriu... Valha-me bom Deus.
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No início do ano de 1903, o Barão Afonso Lourenço Corrêa Neto vendeu a propriedade e renunciou ao governo do Estado. Para onde foi e com tanta pressa, nunca se soube. Sumiu-se. A família de Barros ainda procurava sua linda filha, Maria das Graças, 23 anos, trajando vestido de festa para as festividades natalinas rosa e prata, mas nunca obtiveram sucesso em sua empreitada.
Dez anos depois, a casa abandonada foi vendida para uma rica família de São Paulo, que mandou abaixo a casa para construir outra, maior e mais moderna. Na reforma, um esqueleto mirrado, encolhido como um gato dormindo, trajando um belo vestido rosa e prateado, quase destruído, foi encontrado no jardim nos fundos do terreno.
Manolito, que ainda morava no sítio da infância, correu para encontrar-se com a polícia. Pelo anelzinho delicado no dedo do esqueleto, entre lágrimas o irmão reconheceu sua irmã desaparecida, Maria das Graças. Os pais não sobreviveram para ver os restos mortais de sua bela e amada filha, Maria, nem relembrar seus cachos castanhos brilhantes, seu sorriso doce e seus olhos castanhos alegres, cheios de vida.
"A vida passa num sopro. A morte... Esta é uma ventania que nunca cessa." Manolito pôs o chapéu e afastou-se, para sempre, do pequeno sitiozinho de Curitiba.