ganha-ganha
ᴀʟᴇ́ᴍ ᴅᴏ ᴏ́ᴅɪᴏ ᴀʟᴇ́ᴍ ᴅᴏ ᴏ́ʙᴠɪᴏ ᴀᴍᴀʀ ᴏ ᴏᴜᴛʀᴏ ᴀɴᴛᴇs ᴅᴇ ᴛᴜᴅᴏ ᴇ́ ᴘʀᴏғɪʟᴀxɪᴀ
© Hᴇʟʟᴇɴ Rɪʙᴇɪʀᴏ
3/2017
🩵 avery cochrane 🩵
Peter Solarz

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Aqua Utopia|海の底で記憶を紡ぐ
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I'd rather be in outer space 🛸
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ᴀʟᴇ́ᴍ ᴅᴏ ᴏ́ᴅɪᴏ ᴀʟᴇ́ᴍ ᴅᴏ ᴏ́ʙᴠɪᴏ ᴀᴍᴀʀ ᴏ ᴏᴜᴛʀᴏ ᴀɴᴛᴇs ᴅᴇ ᴛᴜᴅᴏ ᴇ́ ᴘʀᴏғɪʟᴀxɪᴀ
© Hᴇʟʟᴇɴ Rɪʙᴇɪʀᴏ
3/2017
ᴄʜᴏᴠᴇ ᴀ ᴄᴀ̂ɴᴛᴀʀᴏs ᴄʜᴏᴠᴇ ᴄᴏᴍ ᴠᴏɴᴛᴀᴅᴇ ᴄʜᴏᴠᴇ ᴅᴇ ᴇɴᴄʜᴀʀᴄᴀʀ ᴘᴇ́ ᴄʜᴏᴠᴇ ᴅᴇ ᴇsʙᴀʟᴅᴀʀ ᴄʀɪᴀɴᴄ̧ᴀ ʟɪᴠʀᴇ ᴄʜᴏᴠᴇ ᴅᴇ ʟᴀᴠᴀʀ ᴀ ᴀʟᴍᴀ ᴄʜᴏᴠᴇ ᴅᴇ ᴅᴇɪxᴀʀ ᴏ ᴠᴇʀᴅᴇ ᴠᴇʀᴅᴇᴊᴀɴᴛᴇ-ᴠɪᴠᴏ ᴄʜᴏᴠᴇ ᴅᴇ ɪʀʀɪᴛᴀʀ ᴏs sᴇᴄᴏs ᴄʜᴏᴠᴇ ᴅᴇ ᴀʟᴇɢʀᴀʀ ᴏs ᴀ́ʀɪᴅᴏs ᴄʜᴏᴠᴇ ᴅᴇ ᴀʙʀɪʀ ᴀ ᴘᴀʟᴍᴀ ᴅᴀs ᴍᴀ̃ᴏs, ɪɴᴄʟɪɴᴀʀ ᴀ ɴᴜᴄᴀ ᴘʀᴀ ᴛʀᴀ́s ᴇ ᴀʙʀɪʀ ᴜᴍ sᴏʀʀɪsᴏ ᴄᴏᴍ ᴅᴇɴᴛᴇs - ᴏᴜ sᴇᴍ - ɴᴜᴍᴀ ᴏʀᴀᴄ̧ᴀ̃ᴏ ᴘᴇʟᴀ ᴀ́ɢᴜᴀ ᴅᴀ ғᴀᴄᴇ ᴇsᴄᴏʀʀᴇɴᴅᴏ ᴏs ᴘɪɴɢᴏs ᴏʟʜᴏs ᴠᴏʟᴛᴀᴅᴏs ᴘᴀʀᴀ ᴏ ᴄᴇ́ᴜ ᴀ ʙᴏᴄᴀ ᴇᴍ ᴇ̂xᴛᴀsᴇ ǫᴜᴇʀᴇɴᴅᴏ ᴀᴘʟᴀᴄᴀʀ ᴀ sᴇᴅᴇ ᴄᴏᴍ ᴀ sᴜᴄᴇssᴀ̃ᴏ ᴅᴇ ᴄʜᴜᴠɪsᴄᴏs
ᴄʜᴏᴠᴇ ɴᴀ ᴄᴀᴀᴛɪɴɢᴀ ᴄʜᴏᴠᴇ ɴᴀs ᴠɪᴅʀᴀᴄ̧ᴀs ᴅᴏs ᴄᴏᴍ-ᴛᴇᴛᴏ ᴄʜᴏᴠᴇ ɴᴏ ᴘᴇɴsᴀᴍᴇɴᴛᴏ ᴄʜᴏᴠᴇ ɴᴏ ᴍᴇᴜ ᴅᴇsᴇʀᴛᴏ
ᴏ ᴄʜᴇɪʀᴏ ᴅᴏ ᴄʜᴀ̃ᴏ ᴀɪɴᴅᴀ ʜᴀ́ ᴘᴏᴜᴄᴏ ǫᴜᴀsᴇ ᴇᴍ ʙʀᴀsᴀ ᴀɢᴏʀᴀ ᴇ́ ғʀᴇsᴄᴏʀ ǫᴜᴇ ɪɴᴇʙʀɪᴀ ᴘᴇsᴄᴀ ɴᴀ ᴍᴇᴍᴏ́ʀɪᴀ ʟᴇᴍʙʀᴀɴᴄ̧ᴀ ғᴇʟɪᴢ ᴅᴀ ᴍɪɴʜᴀ ʜɪsᴛᴏ́ʀɪᴀ
ᴄʜᴏᴠᴇ ᴄʜᴜᴠᴀ sᴜʙʟɪᴍᴇ ɴᴏs ᴄᴀʀᴛᴏ̃ᴇs-ᴘᴏsᴛᴀɪs ᴅᴏs ǫᴜᴀᴛʀᴏ ᴄᴀɴᴛᴏs ᴅᴏ ᴍᴜɴᴅᴏ ɴᴏs ᴇʀᴍᴏs ᴅᴇ ᴛᴏᴅᴏs ᴏs ᴘʀᴀɴᴛᴏs ɴᴀs ᴇɪʀᴀs ᴇ ᴇᴍ ᴛᴏᴅᴀs ᴀs ʙᴇɪʀᴀs
ғʟᴏʀᴇsᴛᴀs ᴇᴍ ᴘᴀʟᴇᴛᴀ ᴅᴇ ᴄᴏʀᴇs ᴠɪᴄᴇᴊᴀᴍ, ᴇxᴜʙᴇʀᴀ̂ɴᴄɪᴀ ʙᴇʟᴀ ᴘᴇʀғᴇɪᴛᴀᴍᴇɴᴛᴇ ɪɴᴅɪsᴄʀᴇᴛᴀ
ᴄʜᴇɪʀᴏ ᴅᴇ ᴛᴇʀʀᴀ ᴍᴏʟʜᴀᴅᴀ ᴀʀᴏᴍᴀ ᴅᴇ ʙᴀ́ʟsᴀᴍᴏs ᴘᴇᴛʀɪᴄᴏʀ ǫᴜᴇ ᴇᴍʙʀɪᴀɢᴀ
ᴄʜᴏᴠᴇ ᴄʜᴜᴠᴀ ᴛᴏʀʀᴇɴᴄɪᴀʟ ɴᴀs ᴄᴀsᴄᴀᴛᴀs, ᴄᴀᴄʜᴏᴇɪʀᴀs ᴄᴏʀʀᴇᴅᴇɪʀᴀs, ᴇ ᴜᴍ ʀɪᴏ ᴄᴀᴜᴅᴀʟ
ᴀ ɴᴀᴛᴜʀᴇᴢᴀ ʀᴇsᴘɪʀᴀ ᴠɪ́ᴠɪᴅᴀ ᴀʟᴇɢʀɪᴀ ᴄᴏᴍ ᴏ ᴄᴏʟᴏʀɪᴅᴏ ᴠɪʙʀᴀᴛᴏ ᴅᴇ ɪɴᴄᴏɴᴛᴀ́ᴠᴇɪs ᴘᴀ́ssᴀʀᴏs
ᴇ ᴅᴇᴘᴏɪs ᴅᴀ ᴄʜᴜᴠᴀ – ᴄᴏᴍᴏ ᴀ ғᴇᴄʜᴀʀ ᴀ ᴘᴀʀᴛɪᴛᴜʀᴀ ɴᴀᴅᴀ ʙᴀɴᴀʟ – ᴘᴀɪʀᴀɴᴅᴏ ᴇᴍ ᴍᴜɪᴛᴏs ᴄᴇ́ᴜs ᴏs ᴍᴀɪs ʙᴇʟᴏs ᴀʀᴄᴏ-ɪ́ʀɪs ᴅᴏs ᴜ́ʟᴛɪᴍᴏs ᴍᴀʀᴀᴠɪʟʜᴀᴍᴇɴᴛᴏs
verão, 2017
© Hᴇʟʟᴇɴ Rɪʙᴇɪʀᴏ
nas bordas do tabuleiro. foto: hellen ribeiro junho, 2016 - sampa
go. | meg reilly
prelúdio e alforríadas
sem limites, sem fronteiras, sem muralhas. um gigante NÃO-PRA-TUDO começa a ser posto abaixo concretos demolidos em pedaços, vindos inequívocos ao chão cercas elétricas esgarçadas uma berlim reunificada, antes dividida por muros, restaura horizontes perdidos olhos aos poucos ganham campo de visão oriente e ocidente são amplidão no mesmo solo contínuo mapeia-se o mundo skyline, linha do infinito raios que não o partam unívoco movimento cheio de incertezas e por isso completamente livre chegou a era pessoal do SIM. da possibilidade, da aceitação. descartado o desejo de impressionar qualquer um ou todos fim da troca por migalhas de aparências, aguadas promessas espelhinhos, bugigangas de colonizadores vis fora de cogitação deixar a vida esvair-se de si mesma, perdendo a força do seu vazio inestimável não mais desertar de si abandonar o barco em fuga para ir como uma maria-vai-com-as-ondas em vez de rezar nas lendas das suas próprias correntezas a voz se impõe: "vada a bordo, comandante!" agora desnecessários são os balões de oxigênio da aprovação alheia; é como dar o primeiro respiro de um recém-nascido ao vir à luz do mundo em mais uma dessas jornadas. o choro libertador abre as pétalas e sépalas do coração água fresca em primeiríssima comunhão silêncio, pulsação, fulgor, radiância quando essa visão nos levará para além de nós mesmos? hellen ribeiro | rascunhos do original foto: Blink+ creative commons
Visitação
o vento abrupto, sedento ausente por largo tempo chegou imperioso, definitivo como uma mitologia marcando territórios
copas, troncos, galhos, folhagens vergam-se sabiamente entregues pra lá e pra cá rezando movimentos
varre o chão a poeira se levanta folhas secas rangem arrastadas pelo sopro ancestral
algumas envolvidas em rodopios desenhos de oitos flutuantes voos rasantes
enquanto as frondosas tais leques gigantes ao vento são cantochão
esse prenúncio de que algo chegará revirando a seu modo tudo…
ar fresco nas têmporas refrescância na tez gelado nas narinas
abluções
dança de renascença pronta a semeadura terra molhada vida pujante o novo outra vez abençoando a vida
Hellen Ribeiro | sampa | abril 2016
Foto: by James (http://migre.me/tCVaq)
Fênix
ó ave fabulosa que plana acima das nuvens
possa o choro de tua alegria ser como bálsamo sobre minha cabeça e, vivificada, receba o dom de renascer das cinzas infinitamente
Mirra, sálvia e canela preparam o ninho da origem E o sol arde em brilho dando boas-vindas ao pássaro de fogo
hellenribeiro-escritos
Vertigem
Abissal vertigem
Sob os meus pés – Não quero crer, Que me enraizei Nas nuvens, Distante do chão Nas tuas profundezas abismais
Texto: Hellen Ribeiro
Foto: * Saipal - Storm Cloud (Creative Commons)
liberação
Desdenhava-se por se achar despossuída de um dom. Enumerava, arrolava, procurava.
Ia, voltava, escarafunchava no palheiro de ações vividas a lembrança de algum feito extra-ordinário, uma ideia parida que a inscrevesse no cobiçado ponto da curva pairando fora do seu domínio. Mas quê! Aos seus olhos, teimosamente, nada se apresentava.
Até que, já exausta, sentiu a mente se render. A sesta colocou-a naquele estado cujos espaços entre onírico e real se comunicam por frestas, sem interditos.
Então, de súbito, lhe veio com clareza assombrosa a cogitação libertadora: ter consciência dos nãos e dos sins; das ausências e das presenças; das faltas e dos excessos; do que nutre e do que devora; olhar e ver todas as peças no tabuleiro do palco, sem se deixar possuir por nenhum dos papéis, enfim, olhar apenas livre de expectativas – nem as suas e nem as dos outros – já não é só um dom, mas o maior de todos eles: o de viver plenamente, alforriada e livre do grilhão das condições.
Com os olhos ainda semicerrados, vislumbrou-se na casa sem aldravas ou janelas da matriz dos dons, cuja bonança convive com a plenitude e - feliz como nunca tinha sido até então - esbaldou-se na pureza cristalina de uma alegria debutante.
Sorriu e aceitou o Presente.
Texto: Hellen Ribeiro Foto: Rooms by the Sea, 1951, pintura de Edward Hopper
liberação
Desdenhava-se por se achar despossuída de um dom. Enumerava, arrolava, procurava.
Ia, voltava, escarafunchava no palheiro de ações vividas a lembrança de algum feito extra-ordinário, uma ideia parida que a inscrevesse no cobiçado ponto da curva pairando fora do seu domínio. Mas quê! Aos seus olhos, teimosamente, nada se apresentava.
Até que, já exausta, sentiu a mente se render. A sesta colocou-a naquele estado cujos espaços entre onírico e real se comunicam por frestas, sem interditos.
Então, de súbito, lhe veio com clareza assombrosa a cogitação libertadora: ter consciência dos nãos e dos sins; das ausências e das presenças; das faltas e dos excessos; do que nutre e do que devora; olhar e ver todas as peças no tabuleiro do palco, sem se deixar possuir por nenhum dos papéis, enfim, olhar apenas livre de expectativas – nem as suas e nem as dos outros – já não é só um dom, mas o maior de todos eles: o de viver plenamente, alforriada e livre do grilhão das condições.
Com os olhos ainda semicerrados, vislumbrou-se na casa sem aldravas ou janelas da matriz dos dons, cuja bonança convive com a plenitude e - feliz como nunca tinha sido até então - esbaldou-se na pureza cristalina de uma alegria debutante.
Sorriu e aceitou o Presente.
Texto: Hellen Ribeiro Foto: Rooms by the Sea, 1951, pintura de Edward Hopper
porque a humanidade é uma só. solidariedade, paz e amor entre os povos, entre os próximos e entre os aparentemente distantes, pois estamos todos interligados como por uma trama formando um único tecido. o resto é engano e ilusão.
Aqui jaz um rio
o Rio Doce morreu um número incontável de seres vivos que viviam nele - ou dele - sucumbiram lutando contra a asfixia
vai sendo soterrada assim em nós a esperança nos governantes do mundo, nos que detêm o poder e a riqueza e que a cada dia estão mais ocos de humanidade
essa putrefação que domina os arredores do antigo rio antes cheio de vida é metáfora amarga dos homens sem alma que a perderam no seu caminho
desolação
anunciação
de novo passou
num átimo
desta vez senti pelo cheiro... um cheiro de felicidade já vivida.
sem causa, impalpável, grandiosa de caber em mim anterior a esta memória, mas que hoje me é longe alcançar
veio e foi apenas para me dizer que existe e que já conheço o território da alegria genuína
só me resta abrir a trilha na mata escura
seguir o meu fio de Ariadne
o sono do tigre e ‘O Desperto’
numa floresta de monges errantes um tigre ressona sobre o dorso de pedra do Buddha em parinibbana o tigre de fina pintura – pinceladas exímias pretas no pelo laranja – ressona e suavemente as listras irregulares com graça se movimentam ora subindo, ora descendo, flutuando como folhas ao vento
som suave do bambuzal
o enorme tigre descansa o ruído de sua respiração ecoa na pedra esculpida, é percebido pelo Buddha
fulgura assim no espaço, fazendo emergir a consciência do Desperto
das profundezas, erguem-se delicadas na lâmina d'água flores de lótus dançando sob a luz dourada
não muito distante dali, um círculo de velhos sábios medita em posição de lótus os seus mantos laranja lembram o tigre
a entoação dos sutras dos monges chegam igualmente aos ouvidos do Buddha
Foto: Deborah Harding: “Sleeping Buddha” (Ajanta Caves, Índia), Creative Commons
por Hellen Ribeiro