“Estilhaços eram dissipados. Um efeito dominó que se deu do desprender do nó que mantinha tudo aquilo preso na garganta, tudo aquilo sobreposto ao rosto, toda marca feita sobre o corpo, todo suspiro decorrente da necessidade de respirar. Não foi uma escolha fácil, mas quando eu tinha 11 anos eu fiz a minha primeira marca, meu primeiro desenho fora do primário, meus primeiros rabiscos depois que larguei o infanto, agora eu estudava os ângulos e estava preparando meus seguimentos de reta que se punha do ponto primário do objeto cortante ao ponto máximo da dor da reta. A primeira máscara foi em um baile da escola, nunca vou esquecer, eu estava fantasiado de príncipe, foi tão bom, ser alguém por um dia, ser uma versão masculina da Cinderela que superou a meia noite e se estendeu até as três da manhã, e logo me deparei com bailes internos onde a todo momento eu era uma pessoa diferente, com uma fantasia diferente, e uma máscara diferente. Com meus 20 anos cada suspiro era como uma facada em um pulmão cancerígeno que se denominava meu, cada passo se tornava espesso, cada corrida se tornava mortal, o cansaço se transformou em rotina. E finalmente aos 32 anos eu morri, como um filho de Deus, sempre, mas não como o filho Dele, eu não fui crucificado por outros e sim por mim mesmo, a cruz que a mim foi dada quando nasci só foi ganhando peso: com cada gota de sangue derramado, cada casca de ferida arrancada, cada fuligem pulmonar regurgitada ao respirar, cada mascara e fantasia arrancada por não esconder mas o rosto daquele que não quer ser visto, só me impossibilitou cada vez mais de carrega-la até porque como um fumante carrega uma cruz que a cada passo dado dobra de peso? O sofrimento pesa, e não há lei de Newton que explique esse fenômeno, é algo que está além da força peso e normal, que supera a gravidade e tração. E finalmente o alívio de não sentir nada, mesmo que o vazio também transborde, mesmo que o vazio seja um desligar cerebral depois de uma noite de boêmia, aquele vazio era um regurgitar de palavras, e eu agora vomitava dicionários, vomitava tudo aquilo que engoli, todo acento agudo que furou minha garganta a não ser dito, todo grito de dor quando no meu corpo era traçado minhas semi retas. Eu mesmo ergui minha cruz, eu não sabia o meu propósito, sinceramente espero que um de meus personagens tenham salvo muitas pessoas, mas eu mesmo, garanto que não salvei ninguém, como alguém que não consegue se salvar pode salvar o outro? Sinceramente nem vivi um dia sequer depois dos meus 11 anos nunca fui eu mesmo. Queria ter noção de como seria a minha vida, de quem eu seria, se teria namorada, filhos, um animal de estimação, uma casa, um emprego. Mas infelizmente você só tem uma vida, e eu a gastei sendo outras pessoas, vivi várias histórias, menos a minha. Eu mesmo me preguei na minha cruz, eu mesmo martelei cada estaca, confesso, doeu, mas era tão bom gritar, mesmo que fosse de dor, aquilo, era eu, meus gritos, minhas dores, que deixavam agora, de ser a felicidade de um de meus personagens, deixava de ser a lágrimas de alegria, ou até mesmo a timidez de alguém que interpretei. Eu não sei como vai ser a partir de agora, mas espero que seja melhor. Quando eu tinha 7 anos era tudo diferente eu era uma criança feliz, e minha mãe cantava para eu dormir, e é assim que eu me sinto, como uma criança agora, que está sendo posta para nanar, já estou ouvindo a musica “Nana neném que a cuca vai pegar!” É hora de dormir, não posso deixar que a cuca me pegue, além do mais, só tenho essa chance. Boa noite!”