O sofá
O velho sofá verde musgo da sala tem sido um bom amigo esses dias. Não sei quanto tempo mais eu posso aguentar a madeira da sua estrutura esmagando minha costela. Há quanto tempo estou deitada nesta posição? Já não importa mais. Essa dor é quase bem vinda. Mal consigo abrir os olhos, a claridade machuca. Quero me levantar, mas meus ossos estão pesados demais. Quero um copo d'agua, minha garganta está seca, e isso dói. Talvez eu não devesse ter bebido tanto vinho noite passada. Odeio os dias quentes de verão. Não suporto olhar o sol brilhando e iluminando os prédios e as ruas por onde tenho que passar todos os dias. Gosto da escuridão da noite e principalmente da melancolia sincera dos dias úmidos e chuvosos. Sinto a angústia me socando bem no meio do estômago. Acho que deveria comer algo. Sentir algum sabor, além do amargo do álcool. As horas escorrem como água pelo ralo, afinal, as horas também voam quando nos sentimos miseráveis. Ouço gritos no corredor, nas esquinas das ruas, isso já não me assusta. O silêncio dos dias, o apartamento vazio. Vai ficar tudo bem, eles dizem. Me deixe aqui quieta, isso passa. Por enquanto estou contente em ser parte da mobília, um adorno na decoração, desde que eu possa ficar em silêncio deitada no velho sofá verde musgo da sala.











