✗Fire meet gasoline | Michory
FLASHBACK
Foi necessário muito autocontrole para que a ruiva não gritasse de dor, os machucados eram vários, um em cima do outro, cortes extensos e uma dor na cabeça que não a deixaria tão cedo. Porém ao ver o irmão atacando o monstro uma faísca de esperança se acendeu, ela realmente pensou que fosse morrer com a criatura a encurralando, mas não seria hoje, Ivy ainda tinha muita gente para incomodar dentre elas Mike, o qual ela queria muito abraçar, mas se conteve. — “Sim! Você perdeu toda a diversão da festa lindinho…” — Respondeu se apoiando contra o Mike, não fazia ideia de quando ele tinha chegado aqui, mas já parecia ter passado por algumas lutas pelo julgar de suas roupas, ainda assim a ruiva se sentia aliviada por ele estar inteiro. — “Só está falando isso porque não viu os garotos pelados pulando no lago mais cedo, tenho certeza que é uma visão bem melhor que esse troço!” — Brincou vendo que não teria para onde fugir, apesar de estar com as energias esgotadas ao ver os olhos escarlates do irmão sabia que ele pedia para que a mesma aguentasse as pontas por um pouco mais. Eles se conheciam bem demais, o suficiente para que Ivory confiasse nele mais que na maioria, por mais que uma pontada de medo insistisse em tomar conta da filha de Ares, ver seu irmão a acalmava, ela sabia que no final as coisas terminariam bem. — “Apesar de preferir estar no controle sozinha, acho que posso abrir uma exceção para você… Afinal não sobreviveria um segundo sem mim, né?” — Deu um tapinha nas costas do loiro só pra se distanciar um pouco e pegar de modo desajeitado a espada que deixara cair anteriormente, se juntando novamente ao meio irmão logo em seguida. — “Se por acaso eu morrer, não deixe que me enterrem, quero ser cremada e senão fizer isso venho puxar seu pé de noite.” — Concluiu um tanto quanto nervosa conforme o monstro se aproximava, parecia mais furioso que antes, mesmo assim a ruiva seguiu em frente correndo cuidadosamente entre as pernas da criatura passando a lâmina por ambas no caminho. Apesar de não ser muito, ela havia chamado a atenção do monstro que agora se virava na direção da ruiva, no lado contrário estava Mike e ela esperava que ele tivesse um plano, do contrário continuar desviando dos golpes extremamente fortes do ciclope não adiantaria muito, uma vez que eram poucas as quantidade de vezes que conseguia acertar no mesmo. A essa altura Ivory havia posto em sua cabeça que era mais que um peso morto que de fato uma ajuda ali, mesmo assim insistiu.
- Não estava na festa, mas estava ao lado das seleções masculinas de ginástica artística, acredito que não tenha perdido muito. Você já viu aqueles homens? - Michael riu, embora estivesse atento a todas as expressões de dor que a irmã fazia, o coração batendo forte não só pela batalha que estavam prestes a enfrentar, mas também por ela. Não. Ele já havia perdido gente demais, já tinha sofrido demais com olhos lhe dizendo adeus, e se recusava a perder outra pessoa tão importante em sua vida. Seus músculos ficaram duros como o aço de suas armas, veias ferozes rasgando a pele alva e segurando a ruiva com a certeza de uma vida inteira. As correntes metálicas tilintavam ao seu redor, pedindo para que ele se movesse, afinal a criatura enorme já vinha ao encontro dos dois novamente, e Ivory parecia fraca demais para lutar, mas ela resistiria. Ele tinha certeza de que sim, ele implorava para que sim. - Não será preciso, porque é, eu não sobreviveria sem você.
O menino respirou fundo, dando um último aperto no braço alheio e erguendo os olhos escarlate para o ciclope que cambaleava na direção dos dois com a força de dezenas de humanos. Ver a garota correr em direção ao perigo fez com que seu corpo inteiro respondesse tão rápido quanto, os movimentos ágeis, os passos corridos e o gosto esquisito da morte dentro da boca... Tão macabro e reconfortante quanto qualquer outra coisa jamais poderia ser. Seu físico funcionou antes de sua mente, que na verdade não tinha plano algum senão manter os dois vivos, e impedir aquele ciclope de chegar aos outros campistas. Rios de sangue banhavam seus pés, mas ele não se deixava afogar.
Michael deixou que Ivory chamasse atenção para baixo, e que os deuses não deixassem aquele monstro pisoteá-la, por tudo que fosse sagrado, e aproveitou para subir nas costas enrugadas e cheias de protuberâncias nojentas demais para serem descritas, nas quais se agarrava com força para subir cada vez mais alto, chegar cada vez mais perto. Duvidava que a criatura sequer estivesse sentindo que alguém o escalava. Pendurado em suas costas vinha o mangual, retirado com uma agilidade impressionante para que as correntes e esferas negras cantassem seu réquiem ao voar pelo céu escuro e penetrassem no enorme olho pulposo daquele monstro, esguichando um líquido branco pegajoso em todo o corpo do filho de Ares, que não se importou com isso, apenas em desviar das mãos gigantescas que ergueram-se para estancar o machucado e tentar retirar a arma presa de dentro dele. Mesmo quase cegos, ciclopes eram sensíveis em seu glóbulo ocular, e isso deu ao guerreiro uma boa vantagem quando deslizou novamente para as costas protuberantes, e num impulso doentio, levado pela batalha, pelo medo, pela vontade de vitória que queimava em seu corpo, por sua irmã lá em baixo, rodopiou os anéis em seus dedos do meio, revelando os socos ingleses que adornaram seus punhos como as mais belas jóias mortais. Talvez ele estivesse sorrindo, não sabia, estava muito imerso naquele mundo para ter certeza de qualquer coisa senão de que não morreria naquela noite.
Não houve hesitação, nada senão suas mãos levadas para trás em ângulos de noventa graus nos cotovelos, abaixadas letalmente com um urro bestial, seus dentes reluzindo sob a lua. Ele sentiu seus braços quebrando a pele dura e atingirem camadas de músculos firmes, num impacto doloroso, rompendo-os logo em seguida, até que chegou nas veias. Um odor pungente chegava às suas narinas, e o urro terrível daquela criatura irrompeu de uma garganta lacerada. Michael abriu os dedos, sentindo o sangue escorrer entre eles, os tendões e as artérias brincarem entre os espaços que abrira, para logo depois fechar outra vez, puxando para fora tudo o que conseguira segurar. O líquido viscoso adornou seu corpo, caindo em sua face, tronco e lábios. Borbulhou sangue pelos buracos profundos que abrira, e de repente tudo era negro, rubro e verde como as copas que vislumbrava por trás das cortinas avermelhadas que caíam de seus cílios. A guerra abraçava seu corpo de gigante enquanto caía das costas onde se encarapitara, seu físico atingindo o chão com um baque oco ao mesmo tempo em que o ciclope se dissolvia em cinzas.
O rapaz soltou o ar que não sabia a quanto tempo estava prendendo, sentando-se com rapidez assim que percebeu que ainda estava vivo. Seu mangual estava caído no chão há poucos metros de distância, mas seus olhos procuravam por outra coisa, procuravam pelo que lutara bravamente para salvar. - Ivy? Ivy!? Ivy, onde você está? - chamou com a voz rouca, começando a engatinhar pelo terreno, sujando suas calças e fazendo com que folhas e gravetos grudassem em seu corpo revestido por sangue. Não. Ele não poderia tê-la perdido, também. O coração entrava em combustão no peito forte, com medo de explodir a qualquer segundo, sendo que tudo o que via eram as árvores e o escuro fúnebre, cercados pelos gritos de batalha que pareciam muito longe em seu pequeno vácuo momentâneo. Seu pescoço apertava com a dor da incerteza - Ivory!













