- Mas eu fui uma criança gorda, com espinhas e pra melhorar ainda usava aparelho! - Ele comentou, achando graça quando eu falei que seria fácil ter um biotipo magro como o dele. - Sério? Não tenho certeza se eu mudei tanto assim desde criança. - Comentei, e alguns flash backs imediatamente vieram à minha mente. - Você devia ser aquelas meninas bonitinhas que mais chamam a atenção. - Não. - Era a 7ª série e todo mundo tinha acabado de voltar do intervalo. Eu estava sentada no meu lugar e não via a hora de a professora chegar e começar logo a aula; dessa forma teria no que prestar atenção, já que poucas pessoas conversavam comigo. Minha amiga, que sentava na minha frente, olhou pra trás e me disse que a D., a M. e a outra D. estavam rindo de mim. Eu olhei pra elas e elas estavam olhando para o meu anel. Estava no meu dedo indicador direito, tinha alguns brilhantes e era prateado, mas como era um pouco grande ele sempre virava, então estava com a parte lisa à mostra. "Acho que elas pensam que é uma aliança", minha amiga J. disse. Até que escutei a D. perguntar pras outras meninas quem aceitaria namorar com alguém como eu, e todas elas riram. Inclusive minha amiga. - Não vai me falar que você também era gordinha? - Ele perguntou, me fazendo voltar à realidade. - Pra falar a verdade eu sempre fui assim. Eu acho. Mas sofri bullying durante o Ensino fundamental II inteiro. - Mentira! - Ele riu, achando que eu estava brincando. Mas eu não ri junto. - Ah... Por meninos ou por meninas? - Não vai me falar que você acha que se fosse por meninos é porque eles gostavam de mim?! - Era a 8ª série e eu estava andando até minha sala. O G. estava no meio do caminho. Estava frio e ele usava um cachecol azul de tricô. Quando me viu, começou a girar o cachecol, fingindo que estava brincando. Não tinha outro caminho pra ir pra sala e eu continuei. Ele girou o cachecol mais forte ainda, me acertando de propósito, mas fingindo que era uma brincadeira. Não machucou fisicamente, mas a dor de ver que ele fazia aquilo com ódio de mim, simplesmente por eu existir, foi insuportável. - Mas é claro! Os meninos deviam pegar no seu pé porque gostavam de você e as meninas porque sentiam inveja. Eu comecei a rir. - Isso é só uma desculpa para as meninas se acostumarem com a ideia de que, sendo mulheres, devem aceitar que os homens as tratem mal. - Ele ficou quieto, não sabia o que responder. - Eu demorei muito tempo pra aprender que o bullying não tem motivo. - Ele me olhou, prestando atenção em cada palavra que eu dizia. - Não importa se eu tinha espinhas, porque um dos meninos que me zoava tinha muito mais que eu, muito mesmo! Não importa se eu me dedicava aos estudos, porque mais de uma das meninas que me rebaixavam tiravam notas tão boas quanto as minhas. E não importa se eu era considerada feia, porque a maioria dos adolescentes é esquisito. E beleza é relativa. - Então... Por que você sofreu bullying? - Acredito que seja por causa da insegurança. E sabe, é um ciclo. Você é inseguro e tem a autoestima baixa e algumas pessoas se acham no direito de te tratar mal. Talvez porque eles sabem que no fundo você acredita que não merece ser tratada bem. Mas quanto mais você escuta coisas ruins sobre você, mais você acredita nelas. E mais insegura se torna. Só recentemente minha autoestima começou a mudar. Depois de quase dez anos. - Eu comecei a rir. Era bizarro como o tempo havia passado, mas as lembranças ainda eram tão vívidas. E além disso, como uma pessoa poderia passar praticamente uma década inteira se menosprezando por algo que aconteceu durante sua adolescência? - Acho que isso faz sentido. Mas não consigo imaginar alguém te tratando mal. - As pessoas têm muito ódio dentro delas. - De repente comecei a sentir muita vontade de chorar, mas me segurei pra não fazer isso na frente dele. - Se encontram uma forma de aliviar isso e se sentirem melhor consigo mesmas, acham que tudo bem. Independente das consequências pra outras pessoas. - E você sentia ou ainda sente ódio deles? Por terem te tratado daquela forma? - Não. - Meu coração começou a acelerar e as lágrimas começaram a cair. - Acho que esse foi o meu maior presente: conhecer pessoas assim, e saber que não sou como elas. Apesar de tudo o que me fizeram passar... Nunca faria o mesmo com elas. Nem desejaria o mesmo pra elas. - Eu olhei pra ele, que estava sorrindo, e percebi que eu também estava. - Eu só sinto amor dentro de mim.
























