não quero saber que você ainda está por aí absorta em outras conversas que mesmo que você tente, não conversam com você como minhas palavras conversavam. não quero saber que você pensa em mim enquanto beija outras bocas, percorre outra pele e se embriaga continuamente em seu egoísmo e ilusão.
não quero pensar que você vai ser uma parte de mim pra sempre, que outras pessoas não possam me entender tão bem como você, que outra pele não pode despertar cada centímetro do meu prazer. não quero sair pelas ruas e ter que lidar com o vazio que ficou em cada caminho que você nem sequer chegou a percorrer comigo. quero te apagar de cada trilha em que eu despejei seu nome. quero me aproximar de pessoas com corações brandos, gentis — que levem pra longe qualquer memória sua ainda presente em mim, mas eu nunca vou querer que elas sejam como você, eu nunca vou tentar substituir você. não seria justo com elas. nem comigo. será só a vida fazendo acontecer.
eu não quero ter que saber sobre o seu novo gato, sobre um novo álbum, sobre o novo sabor de sorvete que você descobriu longe de mim. não quero saber que agora a sua massa fica no ponto, que adora aqueles macarrões instantâneos, que começou um novo hobby ou que ouve o evermore e pensa em mim. não quero querer te contar sobre o corte no meu dedo indicador, do sangue que jorrou e das vezes que eu ainda quis você aqui.
não quero sair por aí e lidar com a sua ausência mesmo em avenidas, terminais e salas de cinema lotadas em que você nunca esteve comigo. eu te coloquei em tudo, eu te vi em tudo porque sua presença era grande dentro de mim. não quero ser essa parte que sangra toda vez que você aparece e reivindica uma memória honesta sobre o meu cérebro, pele, coração.
não quero revisitar cada espaço das minhas lembranças apenas porque meu corpo súplica para que eu te apague de mim. não quero ter que reviver cada segundo e me torturar com as perpectivas futuras ou de como você encaixou tão bem em mim. quero te ver longe de mim, quero me desfazer de cada fração de segundo que depositei em você um amor bonito que você nunca esteve pronta pra receber. não quero mais que você faça de mim casa pra sua solidão de si. não quero mais ser abrigo pros teus medos, erros e da sua vontade incontrolável de ter sempre alguém pra culpar, sem nunca se responsabilizar pelas suas ações. não quero ser casa pra sua infantilidade, bloqueios e fugas.
não quero saber de você, nem que sonoridade tem a nova voz que percorre seu ouvido. não quero saber se vai falar com ela coisas muito melhores do que já falou comigo, nem se ela preenche todas as lacunas que eu não tive tempo de preencher. não quero saber de você, não quero saber dos novos braços que te aconchegam em dias frios e te colocam mais perto. ou que os dedos que você entrelaça com os seus são mais gentis e que não possuem calos de cordas de violão como os meus. calos esses que me lembram que hábitos antigos ainda afetam tanto.
não vou querer saber se ela é como eu, ou muito mais engraçada, com um sotaque muito mais carregado ou o quão tudo é mais fácil, bem menos complicado.não quero saber de você, não quero lembrar que um dia entreguei tanto pra alguém que não tinha nada pra oferecer. não quero que sua carência entre gentilmente pela minha porta derrubando meus muros projetados especialmente contra o seu orgulho. não quero ouvir a sua voz pra não escancarar meus desejos sobre destino, mas acabar encarando a dor. não quero nem mesmo ouvir você me dizer que a culpa é inteiramente sua ou minha, e não quero te admitir que talvez possa ser. não quero ter que te dizer que é um pouco tarde demais pra me dizer coisas que poderiam ter sido ditas tão antes quando você teve oportunidades pra dizer.
quero agora escorrer pra longe de você, como um pai que foge e nunca olha pra trás. quero agora conhecer tudo o que eu posso conhecer, me aventurar na literatura e me estender em tudo o que me é cabível aprender no mundo e na vida. mas não quero saber de você, ou escrever sobre você.
quero encontrar uma nova brecha
em que eu possa ser
tudo o que você nunca mais vai conhecer.