Tantas vezes ouvi dizer que Dia Internacional da Mulher não deveria ser assinalado porque, afinal, o nosso dia...são todos. E eu acreditava que sim, porque não imaginava que, em 2019, as reivindicações que foram feitas em 1857 continuassem a fazer sentido, porque não achava concebível que, nos primeiros dois meses de 2019 já tivessem morrido 11 mulheres às mãos da violência doméstica e porque pensava que, em 2019, já ninguém dissesse que “ter c*na abre muitas portas”!
E antes de fazerem conjeturas quero dizer-vos que eu trabalho num local onde somos mais mulheres que homens, que tenho um marido que me respeita muito e que, regra geral, me rodeio de pessoas que nos reconhecem as fraquezas e as dificuldades e aplaudem as qualidades!
Há uns tempos, dizia-me alguém que as mulheres hoje têm muita sorte. Têm muito mais sorte que as mulheres dos anos 50. Ui, essas sim, essas é que sofriam porque o faziam em silêncio! Isto é o mesmo que dizer que temos muita sorte porque os casos de tuberculose diminuíram bastante nos últimos 100 anos. Chama-se evolução! Infelizmente a evolução das mentalidades não acompanhou a evolução da medicina.
Para mim, hoje, faz muito mais sentido este dia porque, por esta altura, as tais sofredoras em silêncio, já deviam ter desbravado caminho para vivermos numa sociedade mais justa. Mas não serviu de nada! Em 2019, continuamos a ganhar menos que os homens, a ser tratadas por ‘queridas’ com palmadinhas nas costas, a receber acenos de aprovação pelo nosso decote, a ouvir frases paternalistas em diferentes contextos, a ser assobiadas na rua, a ser vítimas de todo o tipo de violência. E, a acompanhar isto, o eterno ‘lá vêm as feministas’, cada vez que abrimos a boca para desabafar sobre o estado das coisas. E depois as piadas... ‘então, não és tu que queres igualdade? Então carrega com o saco!’ Como se igualdade de direitos tivesse alguma coisa a ver com cavalheirismo. Ou ainda ‘Se eu tivesse uma c*na tinha tudo o que queria’. Como se o facto de ter uma vagina tivesses poderes mágicos para abrir portas. Idiotas, se vocês tivessem uma c*na, passariam o tempo a amaldiçoar-se por isso!
Não é fácil sob o ponto de vista biológico. Não é fácil ter menstruação. Não é fácil ter de fingir que está tudo bem quando temos dores que nos trucidam. Não é fácil gerir a logística de ir 8 vezes ao dia à casa de banho trocar um penso ou um tampão. Não é fácil termos de escolher a roupa que vamos usar em função do dia do mês. Não é fácil explicar o desconforto que isto nos causa porque, de alguma forma, ser mulher, do ponto de vista biológico ainda é tabu!
Não é fácil sob o ponto de vista social. Não é fácil termos de pensar em todas as variáveis antes de tomarmos uma decisão. Para um homem ir para a cama com uma mulher é só uma questão de querer. Para as mulheres é todo um conjunto de consequências que advêm de uma vontade tão legítima como a dos homens. Não é fácil sermos julgadas pela nossa aparência e pelo que vestimos. Não é fácil sermos apelidas de p*tas pelas nossas decisões (porque vestimos aquela mini-saia, porque subimos com ele até ao quarto, porque dançamos com os copos numa discoteca, porque decidimos que queríamos ir para a cama com mais de 10 gajos e não casamos com nenhum deles). Nem é justo!
Não é justo que sejamos preteridas para um emprego se expressarmos a vontade de um dia sermos mães. Não é justo que não respeitem as nossas ideias por sermos umas ‘miúdas’ e não ostentarmos a nossa barriga de cerveja e conhecimento adquirido. Não é justo que nos julguem por sermos mulheres, ainda antes de abrirmos a boca para falar. Não é justo que tenhamos de saber conciliar a ‘arte de bem cuidar de uma casa’ e uma profissão.
E podia deixar-vos aqui mil exemplos sobre porque é que este dia é importante. Mas não me apetece. Porque estou cansada depois de uma semana de trabalho, estou irritada porque tenho de encontrar umas horas para limpar a casa e estou cheia de dores porque as minhas hormonas não me dão tréguas. Porque sou mulher!