Lint Roller? I Barely Know Her
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@instancias
Eu não sei em que momento a gente começou a se perder, mas sei exatamente quando comecei a me sentir pequena.
VocĂȘ sempre implica com tudo que eu faço, provoca, cutuca, faz cena em pĂșblico, mas nunca fala diretamente o que sente. Fica esperando que eu adivinhe. Como se eu tivesse que decifrar vocĂȘ para merecer algum tipo de cuidado. AĂ quando eu tento conversar, vocĂȘ transforma o que era pra ser uma conversa em discussĂŁo. NĂŁo Ă© diĂĄlogo, isso nĂŁo existe contigo. VocĂȘ tem o dom de transformar o que eu sinto em ataque.
E ao contrĂĄrio do que vocĂȘ provavelmente pensa, eu nĂŁo fui fĂĄcil. Eu fui sincera. Eu gostei de vocĂȘ, e eu quis investir na gente. Existe uma diferença enorme entre disponibilidade e desvalor. Eu estava aberta porque queria algo, e nĂŁo porque eu sou qualquer coisa. E o fato de eu ter me permitido nĂŁo te dĂĄ o direito de me tratar como se eu fosse nada.
VocĂȘ vive dizendo que eu te trato mal, mas Ă© vocĂȘ quem me dĂĄ patadas o tempo todo, Ă© vocĂȘ quem Ă© grosso comigo. AĂ quando eu revido, viro a errada. Quando eu sinto, exagero. Quando eu falo, ataco. Quando eu me calo, sou fria.
VocĂȘ nĂŁo me trata bem nem como amiga. Falta uma responsabilidade afetiva absurda. Ă bizarro, porque as vezes vocĂȘ me trata como se me amasse, e aĂ parece que estĂĄ fugindo de qualquer coisa que pareça gostar de mim. Ă como se vocĂȘ gostasse, mas nĂŁo quisesse gostar. Parece que quando eu começo a ocupar um espaço maior na sua vida, vocĂȘ retrai. Me repele. Eu, sinceramente, nĂŁo sei se Ă© verdade, mas Ă© isso que vocĂȘ me faz sentir.
Se vocĂȘ nĂŁo gosta de mim, por que cria intriga comigo? Por que pergunta de mim para os outros mesmo quando nĂŁo estou presente? Por que vive comentando das minhas amizades, das pessoas com quem eu estou? Por que vocĂȘ disse que nĂŁo fala âeu te amoâ para ninguĂ©m sem sentir nada e depois diz para mim? Por que expĂ”e nossos assuntos na frente das pessoas, deixando todo mundo desconfortĂĄvel? Por que reclama de mim para os outros, mas nĂŁo fala diretamente comigo?
Teve um dia que vocĂȘ disse que eu te mandava mensagem sĂł pra brigar com vocĂȘ. Nunca foi. Eu sempre quis resolver as coisas contigo, saber se te fiz mal, saber como melhorar pra nĂŁo repetir as mesmas atitudes... Responsabilidade afetiva o nome disso. Mas desde esse dia, eu parei de te procurar pra resolver as coisas, porque eu entendi que, na sua narrativa, qualquer tentativa minha de diĂĄlogo vira conflito. E eu me calei. NĂŁo porque nĂŁo sinto. Mas porque me cansei de ser tratada como ameaça.
A gente tava super bem, vocĂȘ atĂ© me chamou para fazer um curso. Depois fez sozinho. Me chamou para ser sĂłcia. Nunca mais tocou no assunto. Eu nunca soube se vocĂȘ realmente queria que eu estivesse ali, ou se vocĂȘ sĂł queria a ideia de mim disponĂvel. Parece que vocĂȘ quer que eu peça por favor pra fazer parte da sua vida.
E vocĂȘ nĂŁo quer ficar comigo. Mas gosta que eu goste de vocĂȘ. Gosta da validação, da presença, da certeza de que eu estou ali. AĂ me desrespeita atĂ© no detalhe de me chamar de âminaâ mesmo depois de eu deixar claro que nĂŁo gosto.
VocĂȘ claramente quer que eu vĂĄ atrĂĄs. Ficou tentando chamar minha atenção de todas as formas. E eu sei como seria se eu tivesse ido: provavelmente mais uma patada, mais uma grosseria... Assim como todas as outras vezes em que eu tentei conversar.
Entende todas as minhas brincadeiras como ataque. Quando eu tento falar sobre o que sinto, vocĂȘ vira o assunto para vocĂȘ. Se sente atacado. E entĂŁo me ataca de volta. NĂŁo existe espaço para mim inteira aĂ dentro. SĂł existe espaço para a sua defesa. Como se vocĂȘ fosse um adolescente rebelde.
O sexo foi estranho, nĂŁo foi bom nem pra mim e nem pra vocĂȘ. Ă difĂcil falar isso sem sentir vergonha, e o pior Ă© que a vergonha nem deveria ser minha. Eu me senti completamente usada. VocĂȘ nem me tocou, nĂŁo me deu atenção, nĂŁo me olhou como quem olha alguĂ©m que importa. NĂŁo me senti cuidada.
Se eu jĂĄ me sentia usada por causa do sexo e do tratamento comigo, imagina depois de vocĂȘ dizer que nĂŁo gastaria com um açaĂ "caro" comigo, as coisas se tornaram muito claras. Eu tive certeza. Me senti como se o que eu tivesse oferecido fosse um serviço e nĂŁo entrega. Como se eu fosse descartĂĄvel.
Eu nĂŁo quero alguĂ©m que goste de mim pela metade. Eu nĂŁo quero ter que diminuir o que sinto para caber na sua incapacidade de sentir tambĂ©m. Eu nĂŁo quero continuar me perguntando se vocĂȘ gosta ou se sĂł nĂŁo gosta da ideia de me perder.
Eu quero paz. Mesmo que ela nĂŁo inclua vocĂȘ.
tĂŽ desesperada
sĂł queria ser diferente
sufocante
sufocada
Me sinto como um viciado que acabou de voltar a estaca zero.
Gostava mais quando conseguia imaginar grandeza nos outros, mesmo que nem sempre houvesse.
Charles Bukowski. Â
Hoje aconteceu uma coisa engraçada, que atestou mais uma vez a minha incoerĂȘncia comigo mesmo. Vivo imaginando que de repente vĂŁo aparecer fadas ou gĂȘnios na minha frente para perguntar o que eu desejo. Hoje pensei sĂ©rio: se me perguntassem o que mais desejo na vida, nĂŁo saberia responder. Quero tudo.
Caio Fernando Abreu.Â
Ainda que não pareça, abrir mão é um ato de amor.
Roma, 1997.Â
Pouco a pouco vocĂȘ vai perdendo o encanto que tem pelas pessoas. Dia apĂłs dia, vocĂȘ olha e olha de novo, daĂ começa a ver quem realmente sĂŁo. Todo aquele brilho, todo aquela beleza se vai, como a ĂĄgua suja desce no ralo da pia, sĂł entĂŁo vocĂȘ percebe que o carinho na verdade era um interesse, que os segredos nĂŁo passavam de embuste, e que o querer bem nunca existiu. VocĂȘ se percebe apenas como uma companhia para diminuir a solidĂŁo, o mesmo tempo que serve para aumentar seu ego desmedido. Ă, mas a vida passa, o tempo ensina que ninguĂ©m Ă© insubstituĂvel. Que tudo na vida Ă© uma questĂŁo de Ăąngulo de visĂŁo. E hoje eu digo: quem me perde, perde o luxo e o prazer de ter na vida alguĂ©m tĂŁo ilustre e Ășnico como eu. SĂł digo isso.
Gabito Nunes. Â
Estou naqueles momentos silenciosos em que pouca coisa parece fazer sentido.
Clarice Lispector. Â