Então ela se sentou de novo naquele café de rua e suspirou. Olhou pelo vidro o velho cinema abandonado, lugar de tantas memórias, felizes é claro. Na mesma hora entrou em contato com sua primeira infância, aquela em que as cores e os cheiros eram únicos e, por isso, inesquecíveis. Já ia longe o tempo, e a vida agora era tomada de preto e branco, inodora, típica da mediocridade dos dias adultos. E assim carregava em seu semblante o peso de quem lamentava a passagem dos anos, bem diferente do brilho que sobressaía de seu olhar em fotos de quando era pequenina. Com as memórias se consolava, deixando a realidade um pouco distante de si. Sonhava. Talvez por isso não tenha contido o sorriso ao avistar aquele senhor vendendo balões de gás em frente à bilheteria, como se a qualquer momento uma fila de crianças fosse se formar transbordando genuína alegria. Talvez por isso as lágrimas tenham rolado de seu rosto quando o pipoqueiro de cabelos grisalhos mais uma vez chegou com seu carrinho. Talvez por isso as luzes que se acenderam do outro lado da rua tenham iluminado sua face como da primeira vez que as vira. Vivia intensamente o momento. O café? Ah, esse já não a esquentava mais. As vozes então já não mais ecoavam no salão. Suas mãos, antes trêmulas, eram firmes novamente. Levantou-se e suspirou mais uma vez. A cada passo, sentia o mundo crescer à sua volta. Sentia-se novamente uma felicidade incontrolável. Os carros em velocidade baixa, as árvores verdes, o ar puro. Corria livre de uma lado para o outro, sem o peso que a idade lhe trouxera. As crianças, de repente, tomavam a rua, felizes como sempre devem ser. Havia música, e por isso bailou mais uma vez sozinha no meio da rua. Os olhos fechados, os braços abertos, o coração preenchido e sem ligar para quem estava a sua volta. A pipoca, o balão, as luzes. O filme. Tudo lhe trouxera o mesmo valor gratificante como um dia já foi. Sentiu-se pequenina novamente. Os minutos se fizeram rápidos demais. Quando menos esperava, puf! Tudo se fez exatamente o que era. Preto e branco, vida amarga, triste e solitária. Percebeu então que, por mais que seu fardo fosse pesado, havia uma criança dentro de si. Aquela que vivia sempre com um sorriso no rosto. Sorriu pelas lembranças, mas chorou quando percebeu que nada podia trazer seu sorriso novamente. Já estava morta. Não morreu para o mundo, mas morreu para si mesma. Era chegada a hora. O fim.
irracionavel & relutei











