O que conhecia como agradecimento era o assentir para quando os elogios, ou felicitações, chegavam. Era o que fazia agora, embora mantivesse a expressão mais confiante, menos genuinamente empolgada; convencida, como se fosse algo corriqueiro, mesmo que não fosse. Deveria deixar para quando estivesse sozinha — ainda que não conseguisse conter o brilho insistente. Por sorte, o outro acabara levando a conversa para algo que se distanciava um pouco de seus sentimentos. Uma dádiva, por sinal. ‘ Ah, sim, eu vi uma cabeça enorme passando por mim. Achei que fosse você, mas não vi seu rosto e fiquei na dúvida. Não sabia que patinava em competições. ’ Sempre acreditou que príncipes apenas faziam aquilo que teriam alguma chance de vitória. Ao menos, era o que se percebia em ralienos, embora alguns nobres da Imre não se distanciassem do comportamento. ‘ Eu sei. ’ Maneou a cabeça com confiança ante a fala sobre ter sido um resultado merecido. Era uma forma de simplesmente enfiar seus sentimentos por sua goela abaixo, enfiando-os aonde nunca a revisitariam novamente. ‘ Eu vou te dar uma surra nisso também? Vamos, eu estou contando, sabe? Além de ter as melhores ideias para te afastar dos doidos que ficam correndo atrás de você, também sou melhor nos patins e se bobear, sou melhor no xadrez também. Sou mais divertida… Maeve rainha, Sieghart nadinha. ’ Com toda certeza, no xadrez a sereia perderia feio, mas era uma forma de afirmação. Poderia continuar com aquele falatório quando o outro lhe chamou a atenção para o que utilizava, fazendo-a lançar o olhar para o colan vermelho que parecia realmente mais bonito à medida que olhava. Um mimo de Melena. ‘ A Melena quem fez. Ela é muito boa com roupas, sabia? ’ Indagou retoricamente, voltando-se para ele. ‘ Mas vamos combinar que eu fico boa com qualquer coisa. ’ Os dígitos se apoiaram no queixo enquanto inclinava a cabeça ligeiramente, em uma pose exagerada. No entanto, pelo biótipo e altura, era realmente muito comum que ficasse boa em muitas peças.
O questionamento alheio acabara fazendo com que cruzasse os braços para o príncipe. O desgosto era maior pelo apelido que o outro havia encontrado para si, embora Argyris não conseguisse pensar em nada realmente à altura para o anileno — mas, um dia, ela encontraria; tinha de encontrar já que não aceitaria aquela derrota tão facilmente. ‘ Oh, claro, sabe-tudo, eu já fiz todo o nosso planejamento. Como você é um príncipe chato e cheio de não-me-toque, eu precisei de muito esforço, mas consegui uma linha para seguirmos. Alguém tem de pensar no que vamos fazer, não é? Apesar de sua cabeça ser a maior, eu sou a mais inteligente. ’ Com alguns tapinhas sobre os fios alheios, proferiu em um tom debochado. Maeve compreendia o teor das falas do príncipe, afinal, não fora para que ambos treinassem patinação, ou que perguntasse sobre o xadrez, que havia sido contratada; mas sim pelo sigilo e uma tentativa de encontrar uma namorada midiática para Sieg. Príncipes eram alvos de alpinistas sociais — veja, a própria Maeve, caso não existisse toda a história com o irmão do príncipe — poderia se enquadrar naquele grupo. Mas, de certa forma, a moral de Sieghart tornaria complicadíssimo que algo realmente fluísse, e o que mais havia em Aether era algum príncipe pronto para ser golpeado de alguma forma. Sem contar que, de acordo com Úrsula, nenhum reino na superfície seria realmente digno de atenção. Precisava pensar em Atlântida. Arendelle não estava em seus planos, mesmo que não se importasse de viver em um reino perto do Oceano. ‘ Mas, ó, sem a putaria de ficar colocando defeito em tudo. Eu sei o que eu tô fazendo e se ficar se metendo no meu trabalho, você me paga. ’ E todo mundo sabia que Maeve raramente exagerava. ‘ Tá, eu só preciso que você me diga uma prova que você nunca iria assistir porque não gosta. ’
quase que por reflexo, revirou os olhos assim que ouviu o que a sereia disse, um gesto que ela já devia estar acostumada a ver àquela altura, já que era praticamente uma mania sua, à qual repetia com insistência sempre que se sentia especialmente contrariado ou ofendido. sem sequer perceber o que estava fazendo até o gesto se concretizar, levou as mãos aos cabelos e penteou-os com os dedos, fazendo movimentos que os deixasse um pouco mais arrumados. oras, que culpa tinha de ter puxado os fios rebeldes de anna? lembrava-se de ver o cabelo da mãe pela manhã e sempre pensava ser como o seu... mas o dia todo. a rainha pelo menos tinha penteados e manhas para lidar com o cabelo, algo que o príncipe dificilmente herdara. naquele quesito podia ser tão desajeitado quanto o pai. - eu patino porque eu acho divertido. - respondeu após balançar a cabeça para espantar os pensamentos que o distraíam e, no processo, fazendo todos os fios bagunçados de seus cabelos voltarem aos exatos mesmos lugares que estavam antes de penteá-los. não que ele tivesse notado. - é uma atividade comum em arendelle e é meio que uma tradição de família. precisavam de alguém que soubesse o básico para substituir um colega, e eu me ofereci. - deu de ombros, cruzando os braços enquanto fazia uma breve retrospectiva do acontecido. olhando para trás, desejava não ter sido tão solícito, teria evitado um encontro inesperado e desagradável com njord. não que qualquer encontro com o príncipe das ilhas do sul fosse capaz de chegar de algo perto do agradável. mais uma vez, chacoalhou a cabeça de leve a fim de espantar os pensamentos invasivos e tirou os fios loiros do lugar. talvez devesse tentar concentrar-se um pouco mais na situação em si. endireitando um pouco a postura, voltou sua atenção para maeve, olhando-a nos olhos, sem conseguir conter a risada ao ouvir o que ela disse a seguir. - não me importo que seja melhor nos patins. não mesmo. - respondeu, contemplando se a negação à provocação iria diverti-la ou simplesmente reforçar o fato de que o herdeiro de arendelle era, de fato, o homem mais chato do mundo. - mas no xadrez... bom, digamos que eu vou ter que ver para crer. - foi sua vez de provocá-la, indiretamente desafiando-a para uma partida do jogo. - eu sou paciente, juro, se você não souber jogar eu ensino! tenho prática com crianças. - falou com sarcasmo enquanto acompanhava o olhar que ela lançou para o próprio colan em seguida. - na verdade eu não sabia que a melena fazia roupas. - foi sincero, apesar de também gostar da companhia da feiticeira, não gostava de se intrometer nos assuntos dela. e diante da afirmação da sereia sobre ficar bem em qualquer roupa, apenas sorriu e balançou a cabeça devagar, suspirando, como se achasse tudo aquilo muito engraçado, mas decidiu não retrucar. não queria elogiá-la mais do que já tinha feito ou o ego da imrense simplesmente não caberia naquela sala, contudo, estaria mentindo se dissesse o contrário, ela realmente era bonita.
gostava do fato de que “cabeça de alga” era um apelido que a irritava, pois soava do jeito que ele queria, provocativo e de certa forma inofensivo, enquanto, por outro lado, também arrancava as reações que desejava. “sabe-tudo” não era um apelido que o incomodava apesar do intento alheio, na verdade, quase considerava um elogio, já que adorava ter a noção de que realmente sabia de tudo. todavia, o que provavelmente mais apreciava é que aquelas ofensas mínimas apenas pareciam deixá-lo mais confortável para falar com argyris. estava genuinamente impressionado com o esforço dela, todavia, não era algo que chegaria a expressar em voz alta, até porque, mais cedo do que imaginava, novamente maeve o fazia revirar os olhos. “inteligente como com essa cachola cheia de algas e água do mar, hum?” pensou em dizer, contudo, guardou a réplica para mais tarde, restringindo sua reação à um levantar de mãos acima de sua cabeça de forma dramática, como se estivesse se rendendo. - tudo bem, eu me rendo aos seus métodos, mas eu literalmente te pago. - sorriu ao proferir o péssimo trocadilho. - olha, quando o assunto são esportes eu odeio um monte de coisas e não gosto particularmente de nada, mas acho que os que eu mais detesto são rugby e golfe. - franziu a testa após a responder, meio confuso. - mas pra quê você quer saber isso?