Girma Bèyènè, Geraldo Vandré e o isomorfismo da figura do artista exilado
No post de hoje, gostaríamos de propor algo diferente. Ao invés de nos debruçarmos propriamente sobre um tema específico de História da África, vamos mais fazer um exercício de provocação e de reflexão, na tentativa de expandir um pouco mais as nossas percepções e entendimentos sobre o papel que um artista pode vir a ter em seu país, para sua cultura e para a história como um todo. Esse início enigmático e um tanto abstrato tem a ver com uma comparação que levantaremos nas linhas que se seguem, sendo que ela surgiu às nossas cabeças durantes uma das pesquisas que efetuamos para a construção desse nosso Tumblr.
Dentre muitos nomes, etnias, propostas, ritmos e realidades com as quais tivemos contato na busca por temas interessantes a serem tratados, deparamo-nos com uma curiosa figura: Girma Bèyènè. Como é de praste nas análises que trazemos, aqui, este fora um importante músico e compositor que buscou adaptar para a realidade do continente africano um conjunto estilístico profundamente influenciado pelo jazz, mas mesclado com as formas típicas de seu país e/ou região. No caso de Bèyènè isso não foi diferente: ele tentou trazer para sua terra, a Etiópia, os arranjos que tomavam contam do mundo e que, como vimos, vinham se tornando muito populares em outras regiões de seu continente. Tanto isso é verdade, que ele é lembrado como um dos célebres artistas etíopes da Era de Ouro dos Vinis, que teve seu início no fim dos anos 60 e que acabou se encerrando nos idos de 1978.
Mesmo que por de trás das telas ele tenha ajudado a compor uma vasta quantidade de músicas que ganharam o país nesse recorte temporal, é fato que o músico só nos relegou 4 canções nas quais aparece como vocalista (Set Alamenem, Enken Yelelebesh, Ene Negn Bay Manesh e Yebeqagnal). Porém não é sobre isso que queremos nos debruçar, mas sim sobre a sua careira após o seu auge. Isso porque, Bèyènè, mesmo tendo alcançado muito sucesso na época em que tocou e que tenha ganhado o gosto popular na Etiópia, veio a buscar exílio nos Estados Unidos, onde permaneceu em silêncio por 25 anos, deixando para trás todo o seu legado e toda relevância no campo musical de seu país. Esse verdadeiro ato de fuga– e o ponto central para a nossa reflexão – foi feito com base nos temores do artista com a tomada de poder feita em 1974 pela junta militar etíope, que fez valer naquela região do leste africano um governo provisório socialista que ficou conhecido como Derg.
Passados os anos, tivemos, em 1987, a decadência desse regime, em decorrência, sobretudo, da perda da influência soviética no âmbito global e da consequente queda de seus interesses no continente africano - o que tornou o regime ditatorial frágil e vulnerável às forças democráticas. No entanto, seriam necessárias mais três décadas para que víssemos o retorno de Bèyènè aos palcos e à sua terra natal. A grande ressurreição dessa lenda da música etíope veio a acontecer com o lançamento de seu álbum Mistakes on Purpose, no qual vemos a figura de um artista já maduro, mas, ainda, na busca pelo seu legado, pela revisitação de seu passado, de sua memória e de suas próprias contradições.
E foi, justamente, nesse ponto em que vimos aberta uma curiosa e inegável semelhança entre um caso vindo do outro lado do Atlântico, das terras tupiniquins, e aquilo que temos falado sobre Bèyènè. Acreditamos que seja quase um clichê da licenciatura as aulas de ensino fundamental nas quais o professor passa aos alunos as músicas de protesto que tanto eram comuns à época da ditadura, como forma de melhor os situarem no contexto e fazer com que a dinâmica seja mais atrativa para eles. No nosso caso, isso não foi diferente, sendo que uma figura em particular se manteve viva nas nossas considerações: Geraldo Vandré, o responsável pela famigerada ‘Para não dizer que não falei das flores’.
Tempos atrás nos vimos pegos por uma curiosidade acerca da carreira desse importante músico brasileiro que é tão mencionado quando falamos sobre 1964, mas que pouca ou quase nenhuma atenção recebe na mídia atual. Com uma rápida pesquisa compreendemos o motivo para tanto: perseguido pelo regime, Vandré fugira do país em 1969 e, mesmo após seu regresso ao país quatro anos mais tarde, renegou seu passado na música, afastou-se dos palcos e passou a se dedicar à carreira jurídica. Décadas depois, quando finalmente quebrou seu silêncio e veio a público, ele já nos aparecia como um outro homem, recusando todo o passado, afirmando que sua mais famosa música não passara de uma crônica daquilo que ele presenciara na Passeata dos 100 mil, não podendo ser ela enquadrada como sendo uma música de protesto. Além disso, de forma inesperada, Vandré ressurgiu como alguém que nutre profundo apreço pelas ordens militares e, mais especificamente, pela aeronáutica, a quem dedicou uma de suas mais recente músicas e com quem promoveu uma apresentação na qual veio a expulsar militantes de esquerda que protestavam a favor de Marielle Franco.
Conforme fica evidente, a trajetória desses dois artistas nutre de grandes semelhanças, mesmo que pertençam a realidades praticamente dissociadas e que nutrem de poucas intersecções entre si. No entanto, achamos interessante coloca-los um ao lado do outro para que bem possamos entender que existiu, entre os anos 1960 e 1970, uma verdadeira tendência de artistas e da própria cultura frente aos governos militares que eram patrocinados por um e ou lado que figuravam na Guerra Fria. Ainda que seja delicado fazer tal tipo de análise com base em apenas dois casos, é fato que ao menos factualmente Vandré e Bèyènè nos aparecem como dois artistas que abandonaram o sucesso e toda uma carreira que emergia ao estrelado em decorrência de suas desavenças e de seus medos para com os regimes de seus países. Os dois, de modo muito semelhante, parecem ter nutrido em exílio um grande temor e uma espécie de receio que os manteve calados por anos, mesmo que a vocação principal deles fosse a música. Frente a isso, perguntamo-nos se seria possível estudos mais amplos e que, em certa medida, fossem para além daquilo que tradicionalmente se busca em termos de aproximação entre Brasil e África, tendo em vista que existem muitas particularidades que possibilitam esse tipo de abordagem por caminhos que não são tão intuitivos.
1- https://www.africabib.org/rec.php?RID=242733395
2- http://www.tadias.com/12/04/2016/new-ethiopiques-cd-celebrates-legend-girma-beyene/
3- https://www.last.fm/music/Girma+Bèyènè/+wiki
4- http://blogs.jornaldaparaiba.com.br/silvioosias/2020/09/12/a-morte-e-a-ressurreicao-de-geraldo-vandre-que-chega-hoje-aos-85-anos/
5- https://www.redebrasilatual.com.br/revistas/2018/12/geraldo-vandre-o-ultimo-show-e-a-volta-silenciosa/
6- https://oglobo.globo.com/cultura/cinquenta-anos-depois-geraldo-vandre-volta-cantar-para-nao-dizer-que-nao-falei-das-flores-22523538
7- https://www.youtube.com/watch?v=OpUcFX2qVFA
8- https://www.youtube.com/watch?v=uIb-QqS29ik
9- https://www.youtube.com/watch?v=FByQWCMZY2s
10-https://www.youtube.com/watch?v=oISclvtT6X0