Fechou os olhos, a dor espalhando-se pelo seu corpo inteiro, mas, por mais tempo que seus olhos ficassem fechados, a imagem do fantasma não ia embora. Depois de algum tempo, ele percebeu: era ela. Seu maior desejo foi praticamente atendido por alguém e agora estava tendo a oportunidade de mais uma vez vê-la, tocá-la… Porém, o choque de perceber o que realmente acontecia o deixou travado no lugar. Como assim aquela ali na sua frente era uma pessoa de carne e osso? E depois, tudo o que aconteceu foi rápido demais.
Seu corpo se moveu sozinho e de repente estava de novo abraçando-a, sentindo o seu cheiro. O alívio tinha sido imediato tanto quanto a culpa interna crescendo exponencialmente. Era só isso? Era só ele ter começado a pensar em movimentar a sua vida para frente que ela aparecia de volta? Parecia algum tipo de brincadeira de mal gosto, no entanto, nada mais poderia afetá-lo! Estavam juntos de novo, Órion estava tão feliz, sentia as lágrimas querendo se formar e o sorriso voltou ao seu rosto, mas, novamente, Bellatrix não o deixou falar nada porque enxurrada de informações o deixou completamente tonto.
“O-O que…?” Ele ouvia, claro, não era surdo, mas, a sua cabeça não conseguia ainda processar toda a informação, afinal, cada vez mais a história parecia completamente absurda. Órion sabia do senso de dever da amada, de toda a vontade de ser reconhecida e ser uma boa agente que acabou dando risada. Isso era uma coisa tão comum em sua vida. Os pais dele sempre fizeram isso, colocavam todas as suas responsabilidades a frente do desejo alheio, principalmente de seu filho e mais tardar, da filha. O seu coração ficou mais estranho e pesado, por isso, nem notava que as lágrimas estavam caindo sem parar. “O que…? Você foi… O que…?” Não sabia se sentava ou se ficava em pé, por isso buscou um apoio como um meio termo para tentar entender a dor no seu peito. “Você não escapou da morte e ficou escondida esse tempo todo por algum motivo qualquer? Você só resolveu se fingir de morta ao invés de me contar sobre algo que poderíamos ter resolvido juntos?” Estava claramente falando com a mulher mas seu tom era auto explicativo, como se ainda estivesse tentando encaixar os pedaços da história. “Você… Você tentou resolver tudo sozinha e me deixou aqui justamente para matar pessoas que estavam tentando me assassinar? Você teve alguma escolha nisso? Você por um acaso conseguia dizer para qualquer pessoa que todos nós somos merdas de agentes secretos do governo coreano?! VOCÊ PODERIA TER ME PEDIDO AJUDA! PODERIA TER FALADO COM MEUS PAIS! OU COM OS SEUS! SOMOS TODOS AGENTES COM CAPACIDADE, HASEUL! CARALHO.” Quando soltou o último palavrão percebeu estar gritando alto demais. Talvez a agência tivesse que apagar a memória de alguém depois. “EU nunca parei de pensar em você. EU! Eu estive aqui durante dois anos pensando que a minha esposa, a mulher que eu mais amo no mundo inteiro estava MORTA! E enterrada, pelo que me disseram porque advinha, eu não consegui ir no seu enterro. Eu vomitei a casa toda do Kumiho naquela noite!” Suas mãos estavam tremendo, a raiva sendo consumida dentro de si, Órion sentia as veias saltitando no pescoço. Passou a mão pelo nariz, tirando o catarro misturado com lágrimas salgadas dali. “Minha Haseul ainda está morta.”
O choque que passou por todo seu corpo ao ter Orion a abraçando apertado novamente fez Bellatrix despertar e uma sensação boa de nostalgia e saudade a invadiu, aproveitou o momento e rodeou os braços por ele sentindo o perfume que tanto amava e aproveitava para matar um pouco da imensa saudade que sentia do marido, mas não tardou a se afastar dele.
Se manteve afastada enquanto ouvia o que outro em silencio, não havia tido escolha na época, mas deveria ter lutado para chamar o amado ou menos contado para ele, se encolheu no mesmo lugar enquanto ele gritava, não tinha medo de Orion, sabia que ele jamais seria capaz de machuca-la, mas também estava a machucando com as palavras, secou as lágrimas e o nariz brevemente antes de responder o homem. “— Eles me disseram ser a unica escolha, eles me disseram que o único jeito de salvar você e toda nossa família era eu indo sozinha na maldita missão suicida. Eu queria contar pra você, queria dar um jeito de te contar toda a verdade nesses dois anos, mas me mandavam pra um lugar mais remoto toda vez que eu tentava, agora não vem agir como se eu tivesse feito isso e ficado feliz.” Falou aumentando o tom da voz, que antes era baixo. “— Eu me remoí todos os dias por não ter lutado com eles, eu quis me matar de verdade, eu sentia sua falta a todo momento, EU chorava todas as noites, EU não comi por tanto tempo que acharam que eu estava tentando me matar por inanição, sendo que toda vez que eu pensava no que eu tinha feito eu perdia o apetite, EU vi você lá tantas vezes que levei dois tiros por isso, EU voltei por te amar mais do que a mim mesma, EU estou aqui agora, sendo a SUA Haseul, a mesma mulher que te amou quando te viu no treino dos juniores, que disse sim ao pedido de namoro, sim ao pedido de noivado e sim naquele altar.” Nessa hora as palavras saiam em meio ao soluço e ao choro pesado, estava pensando em como fora idiota por ter aceitado, se bem que pensando bem nunca havia dito sim, nunca ninguém lhe perguntou nada, somente a jogaram na missão, seu corpo lentamente foi caindo no chão, os joelhos dobrados em frente ao corpo, olhou para o marido por uma ultima vez.
“— Eu não sei se já tem alguém provando que merece estar no meu lugar, mas eu não vou deixar de lutar por você, até você me mandar embora ou decidir que ama outra pessoa, eu vou mostrar pra você que eu sou a sua Haseul, a mesma mulher que te ama há tantos anos.”