Dizem que cada átomo do nosso corpo um dia foi estrela. Talvez não estejamos morrendo. Talvez só estejamos voltando para casa.
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Dizem que cada átomo do nosso corpo um dia foi estrela. Talvez não estejamos morrendo. Talvez só estejamos voltando para casa.
você é minha notícia boa no fim de tarde quando tudo parece perdido.
Pouca comida é miséria, comer pouco é educação. Feiura no rosto é apenas feio, feiura na tela é irreverência. Lixo é repugnante, lixo moldado é reciclagem. Mulher nua na rua é prostituta, mulher nua na rua segurando um cartaz é protesto. Velho com vitrola é atrasado, jovem com vinil é estilo. Pobre artista é pichador, rico com tinta é gênio. Baile funk é perda de tempo, balada eletrônica é diversão. Ir sem roupa ao shopping é atentado violento ao pudor, ir sem roupa à praia é naturalismo. Milionário usando chinelas é humilde, humilde com chinela é milionário. Cachorro com coleira é fofo, cachorro sem coleira é vira-lata. Sirene em bairro rico é ambulância, sirene em favela é polícia. Estrondo em dia de jogo são fogos de artifício, estrondo em dia de jogo dentro da comunidade são traficantes. Aluno que cola é esperto, aluno que estuda é otário. Mentira dita muitas vezes é verdade, verdade nunca dita é mentira. Solidão aos dezesseis é drama, solidão aos sessenta é necessidade. Cabelo enrolado é cabelo ruim, cabelo liso com babyliss é sexy. Palmada em filho é disciplina, palmada em aluno é caso de notícia. Modelo gorda é inaceitável, modelo magra é pleonasmo. Macaco é racismo, branquelo é apelido. Seios na televisão é apelação, seios na televisão em fevereiro é carnaval. Foto do pé é cafona, foto do pé com efeito de instagram é vintage. Criança magra é desnutrida, criança obesa é descuido. Menino com amigas é gay, meninas com amigos é oferecida. Homem com várias é inspiração, mulher com vários é mal falada. Adotar um bebê é amor, adotar um adolescente é caridade. Palavrão na rua é baixaria, palavrão na música é alternativo. Verde e amarelo é cafonice, torcer pra seleção é patriotismo. Beijar é bom, beijar dois na mesma festa é segredo, beijar outro é traição, beijar ninguém é ser encalhado. Andar de mãos dadas é fofo, andar da mãos dadas com alguém do mesmo sexo é pouca vergonha. Reclamar do governo é legal, fechar a TV no horário político é rotina. Mandar cartas é velharia, receber cartas é romantismo. Não ter filhos é lamentável, optar por não ter filhos é estilo de vida. Xingamento na cama é ousadia, xingamento na mesa é barraco. Criança loira, bem vestida e sozinha está perdida, criança negra, suja e sozinha é assaltante. A fome é um problema mundial, a fome do outro não é problema meu. Bonita e difícil é atraente, bonita e fácil é vagabunda, feia e difícil é burra, feia e fácil é descartável. Bater em mulher é machismo, mulher bater em homem é engraçado. Católico assassino é banalidade, protestante assassino é hipocrisia. Passear no campo é liberdade, morar no campo é falta de dinheiro. Óculos espelhado é horrível, óculos espelhado de marca é moda. Livro de cinquenta reais é caro, uísque de cinquenta reais é festa. Matar um cachorro é desumano, matar um boi é churrasco. Um assassinato é fatalidade, três mil é estatística. Ser ou não ser é Shakespeare, indecisão é defeito. Acreditar no amor é beleza, acreditar em alienígenas é ilusão. Grito na música é rock’n’roll, grito sem ritmo é falta de argumentos. Loucos só passaram a existir quando a normalidade foi inventada, diferenças só não foram aceitas quando alguém tentou ser diferente. Conceitos não mudam realidades, mas realidades mudam conceitos. Pessoas não são palavras, mas palavras formam pessoas. Se é certo que somos produtos do meio, é certo também que somos somente produtos. Indivíduos são matérias-primas em abundância, mas individualidade é artigo de luxo. Rótulo na embalagem é essencial, rótulo em tudo é apenas uma sociedade.
Cinzentos.
Espero que um dia, Deus e você me perdoei. É triste, quando vou dormir, e todas as noites, meu coração dói, e relembra tantas amarguras que te fiz passar.
Tão profundo q achei petróleo
Seu amor me desarma.
Abominaste.
Tom tem 2 anos e é autista. Ele não é diferente de ninguém. É como deveríamos ser: vulneráveis. Tom não mente, não engana, não se protege como a gente. Um menino inteligente ao extremo. Sua inteligência é sensibilidade. Não descansa um minuto de sentir. De piscar comparações. De fazer operações matemáticas e musicais. Uma pomba na janela é um terremoto. Um tombo na bicicleta é um colisão de estrelas. Mexer os cabelos é um aplauso. Não há suavidade disponível para sua absorção. O conhecimento é feito por descobertas chocantes que exigem a mobilização do corpo inteiro. É como se toda a lembrança fosse sublinhada. É como se toda a observação fosse inesquecível. Tom me encara de lado, seu ouvido é que me olha. Ele busca não interromper o ritmo das coisas. Os objetos têm sangue. Os objetos têm porta-retratos. Os objetos têm rosto. Imagine se você realizasse tarefas escutando seu batimento cardíaco? Este é o autista. Com o ouvido de dentro e o ouvido de fora, simultâneos. A porta da sala bate na sala e no coração. O vento assobia na janela e no coração. Eu amo muito o Tom porque nunca vi um pai como Godá. Godá é aparentemente desajeitado, boêmio, bagunçado. Mas se dedica ao filho com uma delicadeza disciplinada que somente existe no interior dos animais selvagens. Sua paciência é um presépio inesperado no deserto. Ele explica três, quatro vezes, sem nunca alterar a doçura do timbre. Sem jamais apresentar irritação pela repetição. Ainda que esteja compondo ou ocupado com a vida adulta, para a respiração e se põe a conversar. Usa as mãos com gestos lentos de giz. Toda resposta é nova mesmo que seja antiga. A atenção pede a mirada firme e cúmplice, com duas colheres de açúcar. Tom pega o arroz com os dedos. Godá se aproxima e mostra que o garfo é mais divertido do que a mão. Tom volta a comer com a mão. Godá insiste que o garfo é uma extensão de boneco. Uma luva de robô. Tom entende por cinco minutos, e Godá rearticula a fábula acrescentando um detalhe a mais de ternura. Naquela casa, a noite é tarde demais, a biblioteca é longe demais. As histórias estão pousando a qualquer instante. Tom beija a televisão. Godá diz que a televisão muito perto machuca os olhos. Tom beija de novo a televisão. Godá pede beijo no lugar da televisão. O pai é um televisor que não prejudica a boca. Tom ri alto. E beija o pai. Para depois voltar a beijar a televisão.
Fabrício Carpinejar.
#verseto