Capítulo 3 -> Little Parenthesis.
Eram cinco e quarenta e cinco da manhã quando Eliza acordou – quinze minutos antes do despertador, para seu profundo choque. Sempre fora do tipo 'dorminhoca', que ficava na cama até não poder mais. Esfregou os olhos, checou as horas novamente, olhou ao redor e sorriu. Então ela estava mesmo no hotel, trabalhando, acompanhando os jogadores da Espanha...
E então se lembrou de Fernando.
Deu um sorriso ainda maior, espreguiçando-se, a mente ainda no sorriso cheio de covinhas do atacante.
E então lhe caiu a última ficha: Fernando era casado. Balançou a cabeça, tentando afastá-lo da cabeça – não que tenha funcionado – e levantou-se, indo direto ao banheiro. Era extremamente bem humorada de manhã. Era difícil acordá-la, mas uma vez que estava de pé, ninguém a impedia de fazer nada – estava sempre rindo bastante.
Tomou um banho de exatamente meia-hora, com direito a cantoria e tudo mais que tinha direito. Amava tomar banho de banheira, ainda mais quando podia completá-lo no final com uma chuveirada rápida: era unir o útil ao agradável, o cheiroso com o tranquilizante.
Sentou-se em sua cama, puxou o laptop e escreveu o máximo possível sobre a personalidade de cada jogador. Pensou também em algumas perguntas para fazer, sabendo que os camera-man estariam no campo de treinamento prontos para gravar algumas cenas.
Pontualmente às seis e meia, Eliza ouviu duas batidas firmes e rápidas em sua forte. Olhou-se no espelho uma última vez, pensando e repensando na roupa que havia escolhido: usava um vestido floral com a cintura marcada, bem leve, um casaco jeans por cima e botas marrons de cano curto. Parecia casual, então deu de ombros e abriu a porta.
— Graças a Deus, achava que não ia abrir a porta nunca mais — resmungou Sergio, beijando-lhe as bochechas. Ela revirou os olhos em resposta. — É que demoro pelo menos meia hora no café da manhã. Campeões tem que comer como tal.
— Estou até repensando sobre comer na mesma mesa que você depois dessa — Eliza disse, em tom brincalhão. Procurou Fernando no corredor, mas ele não estava em lugar nenhum. Fez imediatamente uma expressão um pouco triste, mas logo disfarçou e sorriu. — E Fernando? Achei que vinham os dois meninos de ouro da Espanha me buscar hoje. Acho que não estou valendo tanto. Ou ele que não vale o que eu pensei que valia — ela e Sergio riram bastante.
Eliza sentiu um par de braços abraçá-la por trás, fazendo com que ela saltasse de surpresa no mesmo lugar. Ouviu uma risada em seu ouvido, tranquilizando-a, e logo o homem a virou para a olhar nos olhos. Era Fernando, e foi como se todos os seus órgãos derretessem e depois se refizessem dentro dela. Ela sabia muito, muito bem o que aquilo significava: estava incrivelmente atraída por ele, ou pela ideia de força e de segurança que ele lhe passava. Estava caidinha por um dos únicos membros dos vinte e três jogadores que não ficariam, de jeito nenhum, caidinhos por ela. Soltou um suspiro baixo, e ele a encarou, o cenho franzido:
— Já estava falando mal de mim, não é? Que linguaruda você, Liz. Aconteceu algo? Dormiu bem? — seu tom era preocupado, com medo de tê-la magoado, assustado ou qualquer coisa do tipo. Ela retribuiu o abraço dele, agora que o choque havia passado, e soltou-se, envergonhada. Segurou o braço esquerdo com a mão, mordeu o lábio e balançou a cabeça.
— Dormi muito bem sim, Fernando. Obrigada por se preocupar — atrás dela, Sergio a imitava, fazendo com que Fernando tivesse que unir as forças de cada uma das fibras de seu corpo para não rir. Eliza reparou, no entanto, e deu um beliscão em Sergio. Ainda rindo bastante, o zagueiro murmurou um “Não faça disso um costume”, ao que ela respondeu “e não faça de me zoar um costume”. Os dois assentiram em concordância, e então Eliza voltou ao quarto para pegar sua bolsa e guardar o laptop no cofre. Fechou a porta e saiu em direção ao elevador, os dois espanhóis logo atrás, como dois seguranças. Eram dez centímetros mais altos que ela, no mínimo, uma vez que ela media 'míseros' 1.76. Se sentia como uma criança perto deles. — E então, como é o esquema do treino de vocês de hoje?
Sergio entrou no elevador antes que os dois, segurando a porta para que eles entrassem. Virou-se com um sorriso para Liz.
— Bem, é bastante simples, na verdade. Como hoje é o primeiro dia, vamos receber nossas chuteiras personalizadas, fazer teste de doping e jogar uma partidinha só, mais simples impossível.
— E a parte mais importante e que Sergio sempre ignora sem nem perceber, os testes de confiança — Fernando ergueu as sobrancelhas, o olhar ainda fixado no painel que dizia em que andar estavam (14, 13, 12...). — Para tentar acabar com a rivalidade que vive dentro do peito dos trasgos que jogam pelo Barcelona e pelo Real. Embora sejamos todos bastante amigos, garanto que Sergio e Xavi não se lembram muito disso quando se cruzam pela primeira vez nos treinos da seleção — deu uma risadinha no momento em que a porta se abriu. Timing perfeito. Assim que a porta se fechou atrás deles, Fernando passou o braço pela cintura fina de Eliza, que arrepiou-se, e se abaixou para sussurrar em seu ouvido “Onde é o restaurante desse hotel, Liz?”, coisa que ela, como local, obviamente não sabia.
Para a salvação dos três, uma das mulheres uniformizadas surgiu de Deus sabe onde para indicar o restaurante e, dentro dele, os locais reservados para os jogadores. O salão estava um pouco vazio devido à hora; ainda assim várias pessoas apareceram para dar uma olhada de perto nos jogadores. Sergio e Fernando acenaram para eles, assinaram algumas camisas e sentaram-se perto de Eliza que, nesse meio tempo, já havia comido e repetido o café da manhã.
Avaliando o prato de Sergio – que mais parecia um monumento do que uma refeição -, Eliza tinha que concordar de que aquilo ali era exatamente o que podia se chamar de café da manhã de campeão.
— E então, quais são os planos de vocês para a próxima meia-hora que nos separa do ônibus? — ela perguntou, olhando para os dois. Cesar Azpilicueta e Mata haviam se juntado à mesa, e Eliza sentiu que a panelinha estava quase fechada. Segurou uma risada ao pensar o quanto aquela seleção parecia uma turma muito pequena de ensino médio, com suas patricinhas, nerds, alternativos, palhaços e tudo que tinha direito. A única diferença possivelmente era a de que as panelinhas não odiavam umas as outras, e sim complementavam-se muito bem.
— Bem, tenho como plano concreto acenar minha lindíssima e masculina mão para minhas fãs brasileiras e então cochilar por uns quinze minutos em qualquer um desses sofás do lobby, coisa que não consigo fazer há um tempo muito maior que o recomendável — respondeu Sergio, com um sorriso brilhante no final. Ele sempre sorria para tudo – parecia um golden retriever gigante.
— É de se imaginar que você não tenha dormido, Serg. O número de mulheres que dizem que você está com... — retrucou Azpi, erguendo as sobrancelhas.
— Bem, amigo, eu devo lhe dizer com toda a sinceridade que os rumores são todos verdade e eu sou o maior mulherengo da história da Terra. E possivelmente o mais rico e mais bonito — ele deu uma piscada para Eliza, que gargalhou alto. Fernando a encarava com o canto do olho, e não pôde segurar um sorriso bobo: ela crescia dentro dele, mexendo-se como a lava se mexia embaixo do continente... Lentamente, progressivamente, calmamente. Firmando o mundo inteiro e tudo mais – como as paixões geralmente agiam, primeiro bem lentamente, e depois tudo bem rápido. Ela retribuiu o olhar.
— E o mais amostrado, sublinhe isso, por favor — Fernando, sempre modesto, completou. Sergio deu um soquinho no ombro do amigo. — Queria poder fazer algo um pouco mais diferente, hermano, mas acho que todos nós estaremos mais dispostos e com mais tempo depois de escutar o Del Bosque hoje. Vocês sabem, quando todos estivermos morrendo de fome e tudo mais.
Sergio revirou os olhos, espreguiçando-se na cadeira.
— Nem me fale. Eu talvez tenha que ligar para a minha terapeuta hoje de noite para ver se supero os traumas d'El Tortura. Aquele homem desconhece qualquer tipo de Deus — resmungou o zagueiro, ganhando uma exclamação de concordância de Juan Mata, que parecia bastante absorto em uma conversa de mensagem com sua namorada, Caroline. Fernando fez uma expressão de surpresa quando viu que Juan sequer escutava alguma coisa.
— Você vai falar com a sua terapeuta sobre seus problemas de relacionamento e de treino ou seria 'terapeuta' seu novo código para sexo por telefone? Porque eu não consigo acreditar que tenha preparo psicológico o suficiente para te encontrar tendo sexo por telefone de novo, Sergio.
Sergio corou um pouco com a lembrança, e todos riram bastante. Azpi balançou a cabeça, o estômago doendo, e murmurou um “Como você consegue dormir com essa imagem na cabeça, Niño?” para Fernando, que se limitou a mexer a cabeça como quem espanta a memória.
— Cala a boca, Dave — Sergio revirou os olhos.
— Dave... — Azpilicueta soltou o ar com força, indignado. — Azpilicueta não é nem tão difícil. Um pouco, mas não... — suspirou de novo. — Dave. Vivi 22 anos como Cesar e agora sou Dave.
Mata deu dois tapinhas nas costas do amigo.
— Supera, Dave. Só... Supera, que dói menos.
E enquanto Sergio ria, se sentindo vingado, Del Bosque levantou-se de sua cadeira, disse “todos no ônibus” e se retirou do recinto.
— Lá se vai meu cochilo — reclamou Sergio.
Levantaram-se, Sergio, Mata e Azpi na frente, discutindo se era ou não válido chamar Cesar de Dave durante as partidas pela seleção. Fernando e Eliza, como já era costume, ficaram atrás. Dessa vez, Eliza puxou um pequeno bloco de notas e uma caneta e, enquanto andavam, perguntava algumas curiosidades sobre Fernando: melhor festa de aniversário, características dos irmãos, há quanto tempo não via os pais... Pequenas curiosidades apenas. Quando chegaram ao ônibus e sentaram-se (Sergio havia guardado lugar para os dois, agora que as cadeiras eram de três em três), ela soltou a pergunta que havia martelado seu coração desde quando ele a acordou, no dia anterior:
— E há quanto tempo não vê seus filhos, Leo e Nora?
O olho dele marejou um pouco, mas ele logo desviou os olhos da janela e olhou-a nos olhos, vendo o azul dela transbordar com preocupação, cuidado, atenção – tudo que havia lhe faltado, tudo que ele buscava... Como seria fácil se afogar no azul daqueles olhos, como seria simples; por que ele conseguia complicar tudo, por que ele não podia beijá-la ali agora e lhe mostrar que seu coração havia batido forte desde o primeiro segundo?
E então lembrou-se que era porquê era loucura.
Lembrou-se que a conhecia há apenas um dia e, que se tivessem passado cinco horas juntos, era muito.
Mas também recordou-se de livros que havia lido, de filmes que havia visto... De histórias com as quais havia convivido, de um caso de paquera indo ao altar. Lembrou-se de Victor Hugo, que havia dito que o amor a primeira vista é o mais sincero que tem... É a conexão ao primeiro toque, o primeiro olhar estabelecendo pontes. É o destino.
Como podia ser idiota, às vezes. Não era a toa que seus amigos zombavam tanto dele.
Como era ridículo, meu Deus.
— Os vi antes de vir para cá, mas já sinto muita saudade. São a melhor coisa em minha vida de longe, e eu agradeço todo dia por tê-los. Sou uma pessoa melhor perto de Norita e Leo. Amo meus filhos mais do que amo qualquer outra coisa nesse mundo — ele respondeu, sincero.
Eliza deu um sorriso (aquele velho sorriso que mulheres sempre dão para ótimos pais) e prosseguiu.
— Agora a última pergunta — o brilho intenso dos olhos dela se extinguiu de súbito, fazendo com que ela tivesse que desviar o olhar para que Fernando não notasse. Ele tocou em sua perna, preocupado, mas Liz não o olhou mesmo assim. Continuou encarando o bloco de notas como uma estudante que decorava uma fórmula que salvaria sua prova. Finalmente, perguntou: — Há quanto tempo não vê sua esposa, Olalla? Sente falta dela?
Passaram-se dez segundos de silêncio. Sergio cochilava de leve, flamenco alto em seus ouvidos, e Eliza ainda tinha o olhar baixo. Fernando também desviou o olhar.
— Olalla é minha melhor amiga, Eliza. Minha melhor amiga — ele murmurou em resposta, melancólico. Eliza não pôde se segurar: achava lindo, mesmo que no fundo de sua alma, ele considerar a esposa a melhor amiga. Por mais difícil que isso fizesse com que sua paixonite por ele fosse, era lindo e ele merecia um relacionamento como aquele. Agradeceu baixinho, guardou o bloco de notas e apoiou-se na cadeira, pensativa. Não trocaram uma palavra sequer durante todo o trajeto, mas a mão dele continuava em sua perna.
E, muito embora os dois fingissem que não percebiam, aquilo era tudo em que conseguiam pensar.
Nunca havia sido de falar palavrões, mas só uma expressão como aquela podia explicar como ele se sentia naquele minuto: imbecil, ridículo, imaturo, adolescente. Eliza estava ensopada dos pés até a cabeça, dançando em círculos, rindo bastante. Ele quase – quase – conseguia esquecer o que significava a palavra problemas olhando para a cena.
E ele a conhecia há um dia.
Mas Eliza era tão fascinante que ele se assustava de ser o único entre os vinte e três jogadores que estava completamente a fim dela. Ela era tão atraente, com seus olhos grandes e verdes, o sorriso sempre largo, os cabelos caindo pelos ombros...
O treino havia acabado de terminar. Fernando foi o primeiro a sair do banho e eles dois esperavam o ônibus chegar do lado de fora, e, enquanto conversavam amigavelmente sobre os métodos peculiares que Del Bosque tinha de testar a confiança dos jogadores um no outro, começou a cair a maior chuva que Fernando já havia visto. E completamente do nada.
Ela sorriu, dizendo que aquilo era perfeitamente normal em Recife, e, enquanto ele procurava desesperadamente qualquer tipo de abrigo, ela começou a girar, rindo bastante e dizendo o quanto sentia falta de estar ali. O quanto sentia saudade de casa. E ria, ria, ria, e girava, girava, girava, e tudo que Fernando queria era gritar que entendia. Que sentia uma falta imensa de casa. Que sabia muito bem como era pertencer a um lugar e não conseguir voltar para ele. Queria abraçá-la e banhar-se junto, mas limitou-se a apoiar-se na parede da casinha de zelador que havia entrado para se proteger e admirá-la, o cabelo cacheado completamente encharcado, o vestido molhado grudando em sua pele morena.
Eliza divertia-se tanto que a cena o divertia, o acalentava, o acalmava.
Ela sentia falta de casa, assim como ele. Se sentia como um peixe fora d'água, assim como ele.
Em um momento, depois de bons cinco minutos, ela parou e apoiou as mãos nos ombros dele, olhando-o nos olhos. Naquele momento, Fernando não sabia dizer se ela sorria ou se chorava. Não sabia o que eram lágrimas e o que eram gotas de chuva. Ela sorriu, como sempre fazia.
— Eu só sinto falta demais da minha casa, Fernando. E chuvas repentinas fazem com que eu me sinta em casa — e o abraçou. Ele a apertou contra si, rindo baixinho. E abraços assim fazem com que eu me sinta em casa... Fernando beijou a testa de Eliza, que corou um pouco. — Eu amo essa cidade. Não tem nada demais nela, sabe? É só uma cidade normal, nem grande, nem pequena, nem desenvolvida, nem subdesenvolvida... Mas é minha cidade, minha casa, parte de mim — deu uma pequena pausa, soltando-se do abraço dele. — E tudo que já me aconteceu de bom na vida começou aqui.
Fernando acenou com a cabeça, concordando.
— Eu entendo, Liz. Fuenlabrada, onde nasci e cresci, não é bem a oitava maravilha da Terra — ele riu um pouco com as lembranças. — Mas é o lugar a que pertenço.
Liz cruzou os braços, tentando se esquentar um pouco. Mais rápido do que tinha vindo, a chuva foi embora - “Recife”, murmurou ela em explicação, revirando os olhos. Fernando estava com a mochila nas costas; tirou-a e, de dentro, puxou um moletom da seleção espanhola. Estendeu-o para ela, que o encarou um pouco envergonhada antes de aceitar o agasalho.
— Você, sempre me fazendo favores... Estou começando a ficar um pouco mimada, Fernando.
— Não tem problema em ser mimada quando vai continuar recebendo favores, Eliza — ele respondeu, em um tom jocoso.
— O que vai ser de mim quando você for embora? — sua voz era só um muxoxo. Antes que Fernando pudesse pensar em algo para responder, os outros jogadores chegaram em bando. Xavi e Iniesta seriam interrogados por Eliza agora, e ela foi ao ônibus acompanhada pelos dois. Tanto Xavi quanto Iniesta eram 6cm mais baixos que Eliza. Mesmo assim, Xavi passou a mão pela cintura dela em um gesto de preocupação com o frio que ela deveria estar sentido, molhada como estava. Quando ela respondeu que estava tudo bem, com um sorriso doce, ele retirou a mão imediatamente – apenas aquilo foi o suficiente para fechar o rosto de Fernando por toda a viagem para o hotel.
— Para com essa bitchface, Fernando, em nome de Deus — resmungou Sergio, quarenta e cinco minutos depois do ônibus ter dado partida. O atacante mal se deu ao trabalho de olhar para o amigo. — Juan, me ajuda aqui? Por favor? Não tenho mais tempo ou paciência para lidar com os ataques dessa criatura, sinceramente — e, dito isso, colocou os fones no ouvido e a jogar no celular.
Juan, sentado do outro lado de Fernando, deu seu conhecido sorriso fofo de criança e disse:
— Nando, pare com isso. O Xavi foi apenas educado com a Eliza, e...
— O que tem a ver a Eliza com meu humor, Juan? De onde você tirou isso? Eu não tenho nada a ver com ela, isso é ridículo. Me recuso a responder a esse tipo de besteira, que coisa imbecil, meu Deus, vocês de vez em quando falam essas coisas sem fundamento nenhum...
Juan simplesmente arqueou as sobrancelhas, levantou os braços como quem diz “ei, tô desarmado!” e riu.
— Tá bom, desculpa. Continua — murmurou o camisa nove.
— Muito bem. Vocês se aproximaram rápido, qual o problema disso, pelo amor de Deus? Conheci a Caroline em uma festa de lançamento do livro da amiga dela em que fui pago para aparecer, e uma semana depois estávamos namorando. Estamos juntos há um ano, olhe aí, então a pressa não quer dizer nada.
Fernando mordeu o lábio inferior, pensando um pouco. Caroline e Juan eram mesmo muito próximos, se davam muito bem, eram feitos um pelo outro – isso cada amigo de Juan já havia conseguido perceber. Por que será que isso não podia também acontecer com ele? Uma paixão assim, repentina, talvez fosse exatamente o que ele precisava para se renovar.
Por que ele tinha que sempre ter tanto medo do novo?
— Só... Pense nisso, Nando. Mantenha isso em mente e só... Faça o que sentir vontade de fazer, pare de pensar tanto. Você sabe que nem mesmo o Del Bosque vai ligar pra isso no momento, se isso te ajudar, sabe? — Juan disse, calmo como sempre, colocando o fone direito no ouvido. — Daqui até o jogo vamos ter treino o tempo todo, fora as coletivas e o tempo pra se adaptar ao fuso horário, você sabe como é. Tire até o jogo e pense em vocês dois, Nando. No que você quer pra você, e, se a Eliza já te faz se sentir assim com um dia de conhecido, pense a longo prazo. No final de tudo, só... Faz o que seu coração mandar. Foi a melhor coisa que eu já fiz.
E virou-se para o lado, pronto para dormir. O fuso horário estava mesmo sendo brutal a todos.
Com o que aquilo que Juan disse em mente, Fernando olhou para trás discretamente, vendo Eliza rindo um pouco com Xavi, Iniesta, Busquets, Piqué e Fabregas – alguns dos jogadores do Barcelona. Mesmo rindo com eles, o olhar dela se encontrou com o do atacante, e o sorriso da brasileira triplicou de tamanho.
O coração de Fernando também triplicou. Sorrindo, colocou ele mesmo os fones no ouvido e ligou a música no máximo. Tinha dois dias para fingir que ia decidir aquilo que, no fundo, já estava decidido: ele a queria, e o mais rápido possível.