Todos os dias, ela reclama e reclama. Sente dores, reclama. Sente cansaço, reclama. Se olha no espelho, reclama. Faz as tarefas, reclama. Sente solidão, reclama. Se sente triste, insatisfeita, deprimida e, na maioria das vezes, se sente perdida. E reclama sobre tudo isso.
Tem sido assim há um tempo. Afinal de contas, muito tempo passou. Quantas voltas o mundo deu? Quantas coisas mudaram? Se eu fosse contar, elas não caberiam aqui. Não há tempo para isso. Não há tempo para quase nada. E ela também reclama sobre isso.
Ela diz todos os dias que sente saudade dela mesma. Do seu tempo. Dos seus planos. Dos seus estudos. Do seu foco. Do seu corpo. Do seu rosto. Do seu cabelo. Dos seus hobbies. Do seu jeito. Do seu sentido. Do seu propósito.
Ela se sente perdida. Ela sente saudades de não se sentir perdida. E, quase todos os dias, ela repete para si mesma que ela pode não se sentir mais perdida. Ela só tem que agir diferente, só tem que fazer escolhas diferentes, melhores. Acordar mais cedo. Acordar disposta. Fazer as tarefas com gosto, com alegria. Fazer exercícios. Otimizar o tempo. Manter a disciplina. Não comer com as emoções. Não ceder às tentações. Tomar o controle de si.
Nos minutos livres que ela tem antes de dormir, ela se visualiza sendo essa mulher melhor no dia seguinte. Ela fica esperançosa e dorme. Ou, pelo menos, tenta dormir...
Ela tenta não pensar, mas os pensamentos não param de se atropelar. Os sentimentos que acompanham esse turbilhão de pensamentos não são fáceis de digerir. E mesmo nos dias em que ela não pensa e não sente nada, seu corpo ainda avisa que tem alguma coisa errada. Ela treme. Respirar é difícil. Ela rola de um lado pro outro. Apesar de cansada e com sono, ela não descansa e não dorme naturalmente.
Quando a exaustão chega no limite, ela apaga. Mas isso também não dura. Ela desperta e revive a ansiedade de pensar, sentir e existir descontroladamente. Algumas noites isso se repete uma, duas ou mais vezes.
Amanhece. Ela está tão cansada que não aguenta levantar mais cedo. Se sente culpada. Sua filha acorda e precisa dela. Ela levanta, mas assim que seus pés tocam o chão, sente uma dor tão aguda que o segundo passo quase a derruba. Mancando, ela começa sua rotina e é engolida por ela. Se sente culpada. Se sente um fracasso. Mais uma vez, seus planos de ser melhor foram frustrados antes que ela dissesse uma só palavra. E aí ela reclama. E reclama ao longo do dia. E se sente triste.
Sua mente sobrecarregada diz que ela pode ter um momento de alegria. Como? Comendo justamente o que tinha planejado não comer mais. E depois de comer, ela se sente culpada de novo. E reclama.
No fim do dia, ela está tão cansada. E cansada dela mesma. Se sente tão culpada, tão fraca, tão ruim. Mais um dia, menos um dia. A vida passando, ela envelhecendo. Envelhecendo muito aquém do que gostaria. Insatisfeita, ela repete para si mesma que só está vivendo as consequências das suas escolhas diárias. Escolhas ruins. E, novamente, fecha os olhos e se visualiza sendo uma mulher melhor no dia seguinte. Vocês sabem o que acontece depois...
Esse é um ciclo difícil de ser quebrado. O silêncio, a saudade, a solidão, a rotina, as tarefas, as dores, os problemas, o negativo. Tudo isso se repete, repete e repete. Como um eco infinito no vazio que ela tem dentro de si.
Mas tem um evento que quebra um pouco esse ciclo: o culto. Deveria ser um evento semanal, minimamente, mas a rotina nem sempre permite. Será? Ela não poderia fazer escolhas melhores para estar todos os domingos, religiosamente, na igreja? Mais culpa...
Enfim, quero falar do culto.
É impressionante como o culto, mais especificamente a pregação, faz ela mudar a perspectiva de tudo. Ao tirar o foco de si - do que ela consegue ou não consegue fazer, do que ela deveria ou não deveria escolher -, ao calar a voz de acusação, autossuficiência e autocomiseração - ao calar todas as vozes... de repente, ela enxerga melhor, ela escuta melhor, ela respira melhor. Por quê?
A beleza do que ela vê oblitera toda feiura. A verdade do que ela escuta cala qualquer mentira. A luz que ela presencia elimina qualquer escuridão. Seu coração acelera, mas de um jeito diferente, um jeito bom. Ela se sente amada. Ela se sente vista. Ela se sente inspirada - TÃO inspirada. Ela chora de alegria, de exultação, de gratidão.
Mas o que é isso que ela vê, que ela escuta e que ela presencia? O que é tão poderoso para, em poucos minutos, fazer desaparecer aquilo que fazia ela sentir que estava morrendo o tempo todo?
Ele. O amor dEle. O evangelho dEle. A verdade dEle. A presença dEle.
E é no sermão do domingo de manhã que ela percebe: não é dela mesma que ela sente saudade, é dEle.
Meu Deus, como eu sinto saudade! A vida tem parecido uma noite escura, de lua nova e sem estrelas no céu, silenciosa e solitária. Sem esperança, estou presa dentro de mim. Perdida no sentido mais forte da palavra: perdida em mim mesma, nas mentiras que eu conto para mim enquanto busco a verdade onde sei que não vou encontrar. Eu não sou a resposta para os meus problemas. Talvez num sentido prático, mas ainda assim, eu não sou autossuficiente. E eu sei disso, mas insisto em correr atrás de mim como se isso fosse me levar a algum lugar diferente. E só me canso sem sair do lugar.
Nessa noite escura, não vejo sua luz, não escuto sua voz. Tentando encontrar companhia e consolo, eu mesma falo comigo, mas não falo a verdade. O eco das minhas falas me confunde. Eu fico tão perdida e tão frustrada. É tão fácil me perder de Você.
Aí vem o sermão de domingo... (Deus abençoe o pastor Eric!) Como o salmista bem expressa, eu anseio por ouvir a sua voz - em alto e bom tom! -, como a corça anseia pelas águas. Minha alma, sedenta, se agarra a cada palavra que sai da boca do pregador, se arrastando em direção ao Senhor. Minha postura muda, meus olhos procuram por Você. Em cada frase, eu procuro por Você.
"- Eu quero te ouvir, eu preciso te ouvir. Fala comigo!"
E, como um sussurro, num detalhe que o pastor menciona, o Senhor fala comigo. Eu buscava o som do trovão e o sol do meio dia. Eu queria ouvir bem alto e bem claro. Eu queria que o céu amanhecesse. Mas o Senhor sabe como me desmontar... com um sussurro. Um sussurro no escuro é tudo que eu preciso pra não conseguir me conter. Um sussurro é suficiente pra me lembrar de toda a verdade, pra sentir todo seu amor. Uma única estrela na minha noite escura me lembra que a Estrela da Manhã venceu toda escuridão por amor a mim. E me prometeu que a noite chegaria ao fim.
Assim como o inverno em Nárnia, minha noite escura não durará para sempre. A eternidade será clara, alegre, florida, abundante, próspera e cheia de amor. Eu nunca mais vou chorar ou sofrer. Não vou ter dores ao acordar. Não vou me sentir culpada. Eu nunca mais vou me sentir sozinha. E essa promessa, essa esperança... ela começa aqui. Ela começa com seus sussurros. Ela começa com suas estrelas.
Eu sinto saudades de Você. Eu quero te ouvir. Me ajude a te ouvir mais na minha rotina. Me ajude a ver melhor o brilho das estrelas que o Senhor me enviou. E me ajude a brilhar mais a sua luz na noite de outras pessoas ao invés de focar na minha própria escuridão. Por favor, meu Deus. Não me deixe me perder em mim mesma de novo tão rapidamente. Não é de mim que eu preciso pra viver a minha vida de um jeito melhor. É de Você.
Obrigada por fazer questão de me mostrar que ainda me conhece. Que está aqui. Que não mudou.