MAIS MÉDICOS, MAIS DIÁLOGOS!
Todo e qualquer político ou partido é passível de críticas. A mesma premissa é válida para programas e projetos. Mesmo aqueles que sejam bons, devem ser revisados com frequência, pois, tornam-se obsoletos com o tempo. Afinal, o cenário modifica-se com tempo e novas necessidades e variáveis surgem.
Assim, críticas desde que construtivas são muito bem vindas. É importante a participação popular e a politização, desde que a mesma seja consciente. Logo, criticar algo apenas por criticar não acrescenta em nada. Assim, como defender algo incondicionalmente também não. Por isso, convido vocês amigos(as) leitores(as) a largar as armas e bandeiras e analisarmos as situações com calma parcimônia.
O fim da parceria com Cuba no programa "Mais Médicos" gerou um alvoroço nas redes sociais, sendo lamentado por uns alguns e comemorado por outros. Antes de dar o veredito vamos por partes. O Programa "Mais Médicos" surgiu no governo Dilma como o objetivo de levar atendimento médico a lugares do interior e periferias das grandes cidades. O intuito era ampliar a atuação das Unidades Básicas de Saúde (UBS) e as Estratégias de Saúde da Família.
Neste ponto é importante destacar que o programa "Mais Médicos", não é a solução de todos os problemas da saúde nacional. Acompanhado do profissional é necessário também um investimento em equipamentos e estrutura, etc. Esse debate é longo e cheio de nuances. Por isso, vamos nos limitar ao "Mais Médicos. Programa que demonstrou ser de grande valia. Visto que existe uma demanda de atendimento e acompanhamento médico que não poderia ser desconsiderada pelo Governo.
A priori, a ideia era ocupar os postos com médicos brasileiros. Porém, abriu-se espaço para médicos estrangeiros com diploma revalidado. Posteriormente, foi realizada a parceria com Cuba, com o intuito de preencher vagas, as quais os médicos brasileiros não preenchiam, por motivos como acessibilidade, falta de estrutura, etc.
A parceria com Cuba dividiu a opinião pública. Os médicos cubanos sofreram retaliações e forte resistência de uma parcela da população. O programa possui seus erros e seus acertos. Algumas pessoas só enxergavam os problemas (ou pseudo problemas) e foram opositoras da parceria durante todo o tempo. Bolsonaro é um exemplo disto. Ele afirmava que os médicos cubanos eram "revolucionários infiltrados". Sem nunca ter comprovado isto!
CUBA E OS MÉDICOS CUBANOS
Cuba é uma referência na saúde mundial. A medicina na ilha do Caribe teve grandes avanços em diversos segmentos. Entre as especializações mais avançadas está, justamente, o atendimento de saúde da família*. Tanto que os cubanos estabeleceram parcerias com mais de 60 países, em moldes similares com o Brasil. A exportação de médicos passou a ser uma fonte de renda para o país. Tal renda, teoricamente, é transformada em investimentos para benefícios para a população cubana.
A formação em medicina em Cuba é gratuita. Todo o sistema educacional, quanto de saúde é gratuito. Portanto, os médicos trabalham para o governo de Cuba. São funcionários públicos. Essas missões em outros países são feitos por meio de "editais". Os profissionais podem optar por se candidatar ou não. Quando se inscrevem eles tem ciência das condições do acordo.
Além disso, Cuba disponibiliza cursos de português, voltados a área de saúde para capacitação dos profissionais que aderem ao programa. Em caso, de outros países tem cursos de idiomas do país de destino. Além do transporte dos médicos para o país da missão.
OMS - Sobre Saúde da Família em Cuba https://www.who.int/bulletin/volumes/86/5/08-030508/en/
BOLSONARO X CUBA - Mocinho x Vilões?
Uma parcela da população retratou Bolsonaro como herói. Pois, ele só propunha "100% salário para o médico, trazer a família e o revalida". Sem reflexão parece razoável as condições. Porém, vamos analisar sem FANATISMO, POR FAVOR.
Em 2013, Bolsonaro afirma que os dependentes dos cubanos poderiam ser "terroristas/guerrilheiros infiltrados". Agora, muda o discurso e alega que é uma causa humanitária permitir a vinda dos familiares. De qualquer forma esta condição não faz sentido. De acordo com a pesquisa da Agência Lupa: "não existe um acordo entre os governos brasileiro e cubano que prevê o impedimento de que as médicas cubanas tragam seus filhos para o Brasil caso venham a participar do Mais Médicos.
Essa informação também foi confirmada pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), que apoia ações dentro do Mais Médicos. Sem contar que, a Lei 12.871/2013, que institui e regulamenta o programa indica que “O Ministério das Relações Exteriores poderá conceder o visto temporário (…) aos dependentes legais do médico intercambista estrangeiro, incluindo companheiro ou companheira, pelo prazo de validade do visto do titular”
Discurso Bolsonaro na Câmara contra vinda de familiares:
https://www.youtube.com/watch?v=jdRA9-ka_Ck
Matéria Agência Lupa:
https://piaui.folha.uol.com.br/…/cuba-mais-medicos-erros-a…/
Lei dos Mais Médicos: https://presrepublica.jusbrasil.com.br/…/10363…/lei-12871-13
Sobre a comprovação da capacidade, me parece razoável. Teria de se estudar os moldes para que fosse de uma forma JUSTA e SEM DISCRIMINAÇÃO. Isso para qualquer estrangeiro. Inclusive de brasileiros que se formaram fora do país. Porém, já no acordo já está previsto a necessidade de apresentação de diploma de Ensino Superior e habilitação para prática de Medicina. Ou seja, teoricamente, já temos uma garantia da capacidade do profissional.
Agora sobre os salários. Foi levantada a hipótese de que Bolsonaro estaria libertando os "escravos cubanos". Aguardo ansiosamente o momento que ele libertará o resto dos brasileiros que ganham 3 mil ou menos. Lembrando que além dos 3 mil os cubanos ainda tinham mais um adicional de auxílio moradia e alimentação.
Atualmente, o acordo costurado prevê 30% do total destinado aos médicos cubanos e 70% para Havana. Mas, veja que em Portugal o mesmo programa destina apenas 20% para os cubanos e 80% para Havana. Obviamente, que causa revolta ter parte maior dos salários destinado ao governo. É compreensível.
Lógico que os moldes da parceria é passível de críticas. Particularmente, creio que poderia ser um repasse maior para os profissionais. Porém, pense se fosse como proposto pelo Bolsonaro mesmo. 100% fosse dado para os médicos, o que sobraria para Cuba? Nada! Apenas os CUSTOS para formação e capacitação do profissional. Além do transporte até o país da missão.
Pense se o Brasil fizesse uma parceria com os EUA. No qual exportaríamos engenheiros, por exemplo. Neste molde: Estados Unidos entra apenas com as vagas de trabalho. O Brasil fornece os profissionais formados em UNIVERSIDADES PÚBLICAS e SERVIDORES PÚBLICOS, e arcaria com os custos de viagem e curso de inglês. O brasileiro poderia levar a família e validar seu diploma e ficar com a cidadania americana. Que negocião hein? Evasão total de mão de obra capacitada, sem nenhuma contrapartida para nós. Você apoiaria essa medida? Acho que não né?A não ser que você fosse um engenheiro que quisesse se mudar para os EUA "facilmente".
Portugal e Cuba: Salário médicos cubanos
https://www.rtp.pt/…/medicos-cubanos-a-trabalhar-em-portuga…
http://www.europarl.europa.eu/…/doc…/E-8-2016-004956_PT.html
Alguns afirmaram que Cuba abandonou o programa para causar problemas a Bolsonaro. Afinal, o governo cubano é aliado dos petistas. Porém, se quisesse causar um impacto negativo poderia ter feito em 2016, quando Dilma sofreu o Impeachment. Continuou a parceria mesmo no governo de Temer. Continuou pois, era interessante também para os cubanos, afinal era uma fonte de renda. Toda política tem jogo de interesses. Além disto, existia uma relação cordial e DIPLOMÁTICA. O atual presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, não é tão mal assim, nem totalmente bom. Eles apenas defendem o interesse nacional, baseado na orientação do governo.
Fica evidente neste caso, a falta de diplomacia de Bolsonaro. A postura ríspida e ataques gratuitos ao cubanos foi o grande causador do fim da parceria. Com sua postura de "não negocio" com Comunista e exigências unilaterais foram o estopim para quebra da parceria. Para o delírio de muitos seguidores xiitas, porém que causa problemas para tantos outros. Se você comemorou a saída dos Médicos cubanos vou colocar alguns pontos para diminuir sua empolgação.
Bolsonaro - falas atacando Cuba
https://www.youtube.com/watch?v=evL1kkX2z8Q
https://www.youtube.com/watch?v=BYfvGA5dnW8
https://www.youtube.com/watch?v=nc6IriwkXrs
Muita gente comemorou, pois com poucos dias atingiu mais de 90% de vagas preenchidas das 8.517 vagas geradas pela saída dos cubanos. Sem contar o alto número de inscritos (mais de 30 mil). Muita gente mandando "Chupa Esquerdistas/ petistas/ petralhas /comunistas/insira o "pseudo xingamento aqui". Como se fosse uma disputa de torcida. Porém, vamos aos fatos.
Um fato importante é que antes da saída de Cuba, já havia uma demanda ainda não solucionada de mais de 2 mil vagas. Ou seja, já estava em falta. Já é um problema crônico a ser resolvido. A ruptura só causou uma crise maior.
VAGA PREENCHIDA X MÉDICOS TRABALHANDO
A saída de Cuba foi anunciada em 15 de novembro. O fim das atividades dos médicos cubanos começou de forma imediata. Na segunda-feira (26), já haviam mais de 1.300 médicos cubanos retornado para Cuba. Sem contar aqueles que permanecem no Brasil, mas que já saíram dos postos de trabalho e aguardam o voo de volta. Em contrapartida, menos haviam 300 brasileiro assumido seus postos. Ou seja, mesmo com mais de 90% preenchida as vagas, poucos já assumiram.
De acordo com os dados fornecidos pelo Ministério da Saúde cerca de 1.500 médicos brasileiros se apresentaram para trabalhar até hoje (30 de novembro). Em algumas UBS, esse período já foram apontadas falta de médico, causando uma demanda reprimida O prazo para apresentação dos novos médicos brasileiros é até dia 14 de dezembro. Ou seja, um mês com vagas em aberto, possivelmente. Até lá, mais pessoas poderão sofrer com a falta de atendimento.
Sem contar que áreas de extrema pobreza, dificuldade de acesso, ainda não tem suas vagas preenchidas. São cerca de 200 vagas em aberto. Em especial na região Norte e Nordeste. Temos também já alguns casos de desistência.
Falta de Médicos - Áreas de extrema Pobreza
https://www1.folha.uol.com.br/…/cidades-em-extrema-pobreza-…
Falta de Médicos: Alagoas
https://gazetaweb.globo.com/…/inscricoes-para-o-mais-medico…
Falta de Médicos: Pará
https://www.brasildefato.com.br/…/seis-cidades-no-para-nao…/
Desistência
https://exame.abril.com.br/…/cidades-tem-novos-profissiona…/
Desistência:
https://br.noticias.yahoo.com/sem-cubanos-desistencias-de-n…
Histórico de Desistência
https://www1.folha.uol.com.br/…/metade-dos-brasileiros-desi…
EFEITO COLATERAL: PROBLEMAS COM O SUS
Não bastasse a demanda reprimida das UBS, o SUS agora também sofre o impacto da saída abrupta de Cuba. De acordo com dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde, não ocorreu a geração de empregos, e sim uma migração. Cerca de 40% dos médicos já trabalhavam no SUS mudaram para o programa "Mais Médicos", por fatores como salários e condições de trabalho.
Ou seja, vai gerar uma vacância no SUS. Um efeito bola de neve e falta de médicos no SUS também. O presidente do Conasems (Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde), Mauro Junqueira, em entrevista na UOL* destaca que o novo edital só está trocando o problema de lugar. De fato, não é uma solução definitiva e os problemas continuaram vivos.
SUS:
https://theworldnews.net/…/39-dos-que-aderiram-ao-mais-medi…
https://g1.globo.com/…/cerca-de-40-dos-inscritos-no-mais-me…
UOL
https://noticias.uol.com.br/…/adesao-ao-mais-medicos-cria-d…
A ação do Bolsonaro nesta questão foi desastrosa. Pelo menos a curto e médio prazo. Só poderemos de fato “comemorar” quando todas as vagas forem preenchidas, não ocorrem desistências, e rapidamente resolver essa questão de vagas abertas agora no SUS. Até então, não vejo nenhum motivo de comemoração. Muito pelo contrário. Portanto, a crítica é válida, SIM!
O grande problema não é o fim da parceria. Alianças políticas tem tempo de duração mesmo. São feitas e desfeitas. O problema é a forma abrupta como foi quebrada e a solução pouco efetiva, que já tem seus efeitos colaterais.
Foi gerado um problema desnecessário, causado em boa parte pela inabilidade diplomática do presidente eleito. Poderia fazer essa transição, sem problemas, desde que minimamente programado.Ele pode ter uma ideologia e segui-la. Pode ser contrário a Cuba. Porém, um bom estadista deveria negociar uma transição paulatina e menos traumática a sociedade brasileira.
O dialogo é essencial no jogo de poderes na política. Enquanto, Bolsonaro não aprender isso sofreremos as consequência. Enquanto nós não aprendermos isso, vamos ficar eternamente em nossas bolhas, conversando com nossos iguais e nunca chegaremos a lugar nenhum!