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três de julho
não me lembro exatamente de quando foi que senti pela primeira vez, mas lembro de ter um dia particularmente ruim e ao trocar algumas risadas e palavras de carinho com algumas amigas da faculdade, sentir-me tão bem que pensei: "a vida vale a pena, o amor vai me salvar". mais de uma vez, depois disso, me vi em outros dias terríveis, recompensados por amigos, colegas, crianças, familiares, animais e todo o resto que amo. bolos quentinhos, chás de erva-cidreira e capim-limão, café fresco, chocolate, longas playlists de lofi hip hop, incensos. livros de aventura, yakissoba, os pãezinhos de queijo borrachudos da padaria perto de casa, um dia produtivo nos estudos ou no trabalho, uma boa noite de sono. piadas ridículas, cafuné da minha tia, conversas em volta da mesa da minha bisavó com os irmãos do meu avô, uma criança que dormiu no meu colo, um desenho que saiu bonito, um poema que me fez chorar. o sexo logo depois de acordar, o beijo com paixão, as declarações espontâneas de afeto. alongar o corpo, sentir que os músculos estão respirando, meditar, masturbar-me, cochilar no final da tarde. aprender uma coisa nova, rir até a barriga doer, o alívio quando uma crise de ansiedade passa. a textura dos meus casacos favoritos, roupa de cama limpa, dançar na cozinha de meias, tomar sol na praia. ficar viciada em uma música nova, comer fora com meus amigos, jogar conversa fora e brincar. ser gentil, ou receber uma gentileza gratuita. ser elogiada por alguém, o sorriso de alguém após eu elogiar. sentir-me calma, paciente, pertencente, capaz. sentir que tenho tempo, tenho possibilidades. todas essas coisas fazem com que eu transborde amor. todos esses sentimentos de paz me fazem querer amar. escrever sobre essas coisas também me preenche, escrever me preenche. e quanto mais penso no que amo, quanto mais penso no que tenho para agradecer, quando mais penso no tanto de vida que ainda tenho para viver, percebo que em mim existe muito mais esperança do que infelicidade.
porque eu acho, de verdade, que a vida vale a pena e o amor sempre vai me salvar. às vezes minha visão fica nublada e eu quase me esqueço de onde procurar o amor - ainda que ele esteja em todos os lugares, ainda que esteja em mim. quase me esqueço de que ele vem de dentro para fora e nada sozinho vai me fazer feliz porque sou eu quem me alegro diante das coisas. mas está tudo bem, porque eu posso contar comigo. a minha vida é boa, eu tenho sorte, eu tenho muito para ser grata.
a vida vale a pena e eu vou sempre estar aqui para me salvar.
5 de abril de 2021
no dia cinco de abril do ano passado eu escrevi uma nota no meu bullet journal: "eu nunca mais vou ficar calada".
havia acabado de superar uma história relativamente antiga. havia enfim deixado tudo esclarecido com alguém que amara durante anos, mas com quem nunca pude estar porque a vida sempre parecia colocar paredes no lugar. por conta dessa história mal resolvida, era incapaz de viver novas narrativas. havia tanto de mim ainda dedicado ao passado, que não sobrava quase nada para dar ao presente. e eu me dei conta, finalmente, de que se a vida colocava entraves, era meu papel os derrubar.
ninguém mais deveria ir embora sem saber que havia motivo para ficar.
a questão é que eu fui muito ingênua. depois disso, passei meses dedicada a mim, como que em um ensaio. pensava sobre minhas premissas básicas. pensava sobre o mínimo que, quando eu decidisse me abrir novamente, haveria de ser exigido para que eu me entregasse. como se eu fosse capaz de escolher os meus sentimentos.
um dia o amor - ou algo que se vestia em uma paleta de cores muito semelhante - bateu a porta novamente. eu já estava há tanto tempo com a casa fechada que ao me ver rendida aos sentimentos, esqueci que não era sobre eles. não era sobre o que acontecia aqui dentro, porque amadurecer, sobretudo emocionalmente, nunca foi sobre parar de sentir. mas sobre aprender o que fazer com o que se sente.
esqueci o óbvio: a única coisa dentro da minha esfera de controle era a minha conduta. mas deixei que ela fosse terceirizada, regida pelo que eu era de fato incapaz de controlar. então fiz o oposto do que eu havia me prometido: fiquei calada. fiquei calada quando o que vivenciava já não me contemplava. fiquei calada quando a vida que levava já não mais me cabia. fiquei calada quando devia ter gritado a plenos pulmões e recuperado o meu corpo, o meu coração e a minha conduta quase que com violência. não foi assim, porém. o amor - ou, novamente, aquela fantasia incompleta dele - foi embora sem que eu dissesse nada. foi embora sem que eu percebesse que, daquela vez, era eu que não tinha mais motivo para ficar.
mas é claro que passou, porque tudo passa. e é claro que eu fiz merda de novo e deixei que fizessem merda comigo outra vez. porque, no alto da minha imaturidade, eu fodo com tudo todas as vezes em que penso que me entendi. que penso que entendi o outro.
é cinco de abril de novo. dessa vez eu simplesmente largo mão e desisto de achar que sei qualquer coisa sobre o que é amor. merda, eu só tenho vinte anos. o que é que eu sei?
dessa vez eu não prometo mais nada. nem que fico calada e nem que digo qualquer coisa. se me atrevo a dizer que entendo qualquer coisa agora, é o seguinte: o caminho que sigo é o caminho possível. vou sentir o que for capaz de sentir. fazer o que for capaz de fazer. dizer o que for capaz de dizer. e tentar - ênfase no tentar - ter um pouco mais de carinho comigo. porque irão falhar comigo novamente e eu irei falhar também, irremediavelmente.
eu só não desisto do amor. de forma alguma. abro mão de entendimentos porque são eles que me decepcionam e fazem com que eu queira desistir. além do mais, há tanto que amo. há tanto com que me importo e transpassa essas fantasias que nem sei de onde colhi. tenho as palavras, tenho os amigos, tenho tudo sobre o qual quero ler, tudo o que quero fazer. o amor, de forma geral, é muita coisa. não posso colocá-lo em uma caixinha como se algumas experiências e ideias isoladas definissem o que for.
vinte e nove de junho
é preciso ser teimosa.
acordei me sentindo animada. animada não - disposta. quase que com teimosia para me sentir bem. quase que com teimosia para segurar minha mão, elaborar o que me angustia, fazer o que preciso fazer. quase que com teimosia para ficar comigo mesma. não com teimosia para não cair - toda vez que ergo paredes eu termino me estrepando. vez ou outra faço isso de novo, mesmo sabendo que não é para se proteger, mas se deixar ser atravessado. só assim para entender que a dor é parte do pacote. para não achar que eu sou a dor, que sou refém da dor. mas que posso acolhê-la. porque só se eu a acolher eu também poderei deixar ela ir.
um ano atrás, se eu me pegasse escrevendo com tanta frequência sobre dor, veria a mim mesma como vítima. mas agora eu penso sobre a dor ao invés de a negar, justamente para não ser uma vítima. entendo que posso colocar para fora o que existe de ruim também e não preciso fazer performance para mim. fiquei pensando sobre esses processos de escrita e sobre como os dias nunca são somente bons ou somente ruins. às vezes escrevo sobre raiva para passar o dia inteiro em paz. às vezes escrevo sobre paz e passo o dia frustrada. as coisas que escrevo não são nem a mais breve parcela de mim. às vezes escrevo sobre amor e passo o dia distante, ansiosa, preocupada - às vezes escrevo sobre distância, ansiedade e preocupação, mas passo o resto do dia amando e sendo amada.
é uma fase boa e eu me recuso a pensar que não é só porque tenho vulnerabilidades. existe carinho demais a minha volta e eu tenho sorte. no final das contas eu gosto muito de quem eu sou e da vida que tenho. se por vezes fico insegura ou insatisfeita, não é porque algo não está bom o bastante. e bastante para quem? quem é que eu estou deixando medir o meu valor ou o valor do que é meu?
acho que o meu conflito agora é conseguir encontrar equilíbrio entre me amar e ao mesmo tempo não me achar tão importante assim, também.
hoje estou me sentindo teimosa a acreditar que há muito para ser grata e que um transtorno, um problema ou um medo não são o bastante para me fazer olhar para tudo em tons tão escuros. porque o transtorno, o problema e o medo são só meus, e a minha vida não gira só em torno de mim. isso traz angústia demais. é preciso se levar menos a sério. é preciso olhar mais para fora. não por uma falácia de altruísmo, mas porque só saindo um pouco de si é possível se voltar para dentro com mais sabedoria. sair da ilha para ver a ilha, não é?
eu não sei. irei pensar mais um pouco sobre as armadilhas do ego, mas sem culpa.
vinte e oito de junho
saí de dentro de casa ainda enrolada no cobertor e me deitei na rede para tomar sol. fiquei observando minha cachorrinha se espreguiçando na grama. e pensei: para ver belezas eu só preciso abrir os olhos. eu só preciso abrir os olhos.
o frio voltou à Ilha, dessa vez com as malas feitas. venta forte, venta muito. mas agora minha cachorrinha pulou para o meu colo e veio tomar sol comigo. e lá na cozinha o meu avô me deixou a garrafa de café cheia antes de sair. é o jeito silencioso dele de dizer que me ama e que cuida de mim e que espera que eu tenha um bom dia. ou pelo menos é o que eu escuto, sem que ele precise dizer. e eu tomei meus remédios, dei bom dia para meu namorado e os meus amigos próximos, chorei assistindo uma série bonita e pensei em como é importante que a gente veja graça na vida.
sabe, hoje eu estou me sentindo feliz. ontem, antes de adormecer, passei um tempo dando risada com pessoas queridas e hoje, quando acordei, o meu outro cachorro dormia encaixado no meu braço, quase que de conchinha comigo. quando dei um beijinho em sua cabeça, ele suspirou e se aconchegou mais um pouquinho. e eu pensei em como cada segundo é cheio de amor, mas tudo bem se não conseguimos enxergar o amor o tempo inteiro. porque viver é amar, mas viver também é se frustrar, cair, contemplar a queda e reaprender a amar de novo.
sei que o que sempre me salva é o carinho. é preciso ter cuidado com todas as pessoas a nossa volta que genuinamente nos dão carinho e nos permitem dar o nosso carinho também. tenho tentado ficar atenta a quais pessoas perto de mim estão mais receptivas a dar e receber esse afeto para não cobrar de ninguém o que não são capazes de me dar, tampouco rejeitar aqueles que estão se fazendo disponíveis para mim e eu só preciso perceber. perceber, agradecer e ser recíproca. é possível ser feliz. é possível ter apoio. é possível amar, ser amado, amar a si mesmo. não todos os dias. não sem nenhum esforço. mas é possível.
esse relato está confuso porque eu ainda estou confusa, mas não queria deixar de dizer que estou bem e estou esperançosa. e que sei que vou cair de novo, mas não será definitivo.
viver tem graça. viver tem beleza. viver tem amor.
crise
eu queria que tudo estivesse nas minhas mãos, porque culpar a mim é fácil. porque me frustrar comigo, sentir ódio de mim, soltar as minhas próprias rédeas, é tudo muito fácil. perder o controle, foder com tudo e me desesperar é muito fácil. é fácil demais. as lágrimas chegam fácil e as minhas unhas se afundam em meus braços com facilidade também. eu escrevo linhas sujas, dolorosas, perturbadas. eu expio tudo que existe de feio aqui dentro.
e no dia seguinte a raiva me levanta da cama. e no dia seguinte algo em mim se cansa. e algo em mim me sacode e me faz fazer alguma coisa, qualquer coisa. algo em mim me tira do lugar.
por isso eu queria que tudo estivesse em minhas mãos. porque aí só eu poderia fazer merda. aí só eu seria responsável pelo que me afeta. aí eu só sentiria raiva. aí eu só sentiria em tons agressivos de vermelho. e saberia que algo em mim ainda pulsa. e saberia que algo em mim ainda vive. e quem sabe, sendo a única que me machuca, eu talvez também fosse a única a quem posso machucar. e talvez tudo aqui doesse e não doeria em mais ninguém.
é que com o tempo, penso eu, passaria. eu me estenderia a mão novamente, com carinho. eu cansaria de me chicotear e decidiria ficar bem. e ficar bem seria minha escolha, já que me fazer mal foi minha escolha também. eu queria ser a única que fode com a minha própria cabeça. assim a cura também estaria nas minhas mãos, sempre. assim, um dia, eu aprenderia a não sentir mais raiva. a não sentir mais ódio. a segurar o controle com firmeza. as minhas mãos só me tocariam com gentileza e os meus poemas, aos poucos, voltariam a ser bonitos. um dia, finalmente, eu levantaria da cama só porque é bom levantar da cama. eu seria movida por algo que me trás calma. e eu só sentiria em tons tranquilos de amarelo, azul, verde.
porque se eu pudesse escolher, eu arrancaria de você tudo o que te chateia e tudo que me chateia e nenhum de nós ficaria paralisado pelo que é frio. nenhum de nós teria tristeza, ansiedade, medo. nenhum de nós se encolheria na cama, sentindo só em nuances feias e silenciosas de cinza. eu não queria me sentir cinza nunca. eu não queria que você se sentisse cinza nunca.
se eu pudesse escolher, eu faria algum sentido. tudo isso teria algum sentido.
mas a verdade é que viver não é escolher ser engolida por um sentimento só para não ser capaz de sofrer com outro. viver não é tanto nos extremos. na verdade, viver é devagar. mas a gente demora demais para perceber que está vivo e demora mais ainda para ter paciência. eu mesma vivo esquecendo que estou aqui, que estou presente, que respiro. eu mesma vivo esquecendo que posso saborear o momento, não só afugentá-lo. eu mesma só me lembro que estou viva, às vezes, para fugir da vida - colocar tudo em perspectiva ampla só para esquecer que a caixinha pequena em que andei depositando tanto também precisa ser olhada de pertinho. sobretudo, não tenho paciência.
eu tenho que parar de pensar em como seria se eu pudesse escolher o que me ocorre e como me sinto e atuo diante de tudo. eu tenho que parar de tratar tudo como uma grande performance. e tenho, acima de qualquer coisa, de parar de pensar no que tenho ou não que fazer.
respirando. respirando. você já se lembrou hoje de respirar?
22 de junho
minha escrita anda imprecisa porque os meus pés andam fora do chão. escrevo para me ancorar.
há algo aqui dentro se remexendo. algo que faz eu respirar pesado. algo que me faz ter tesão para me levantar, paixão para correr atrás. há algo aqui dentro que me move, que faz de mim quem eu sou. eu não sei muito bem nomear esse algo e ultimamente não consigo escrever sobre, também. porque esse algo que acorda poemas em mim não está gritando alto o bastante. por que você não está gritando?
estou começando a ver que poesia nunca foi sobre sentimentos, mas sobre poesia e só. ela versa sobre si mesma. versa sobre enxergar o que há de poesia nos sentimentos, o que há de poesia nos dias, o que há de poesia nas pessoas, o que há de poesia na poesia. não posso culpar ninguém, nada, sentimento algum. somente, quem sabe, a mim - por me deixar de lado, por esquecer de procurar a poesia em mim.
os meus pés andam fora do chão e a minha escrita também. você, onde está você?
está aqui. lateja. sussurra, em algum lugar. estende os braços e pede baixinho que eu puxe de volta - mas sem gritaria, porque a verdade é que poesia não pode ser implorada. a gente é que precisa ficar atento. a gente é que precisa escutar quando algo que acorda poemas em nós começa a falar.
linhas
você sabe que eu só preciso de três palavras para escrever um poema então pensei em boca, mão e perna e te beijei por toda a extensão entre uma palavra e outra e te molhei como quem não sente pena
eu sei que você não precisa de palavra nenhuma para escrever poesia você sequer precisa se perder em pensamento é sem pensar que me beija por todas as minhas linhas é sem pensar que me faz sua como quem não tem tempo
você sabe que com você eu não preciso de muito para perder a linha basta beijar esse teu pescoço e te ouvir gemer basta acariciar tua cintura e te ouvir respirar pesado porque eu sou sua só de saber que você também me quer
13 de maio
essa quinta-feira tem gosto de palha,
penso enquanto seguro a bruma e a solto pela janela que dá no quintal.
lá fora as gaivotas fazem fofoca,
tagarelando em bando enquanto passeiam baixo, voando tortas, como que embriagadas.
essa quinta-feira tem gosto de bombom de chocolate e menta,
penso enquanto mordo o doce e sorrio, passando o dedo no caderno de poemas e lendo o que escrevi sobre o corpo dele.
aqui dentro o meu próprio corpo está meio preguiçoso,
enrolando na poltrona e bebendo café.
os estudos vão esperar,
a roupa suja vai esperar,
até o almoço vai esperar.
hoje não quero fazer mais nada,
quero respirar e olhar para o nada,
quero escrever e não pensar em nada.
essa quinta-feira tem gosto de tudo,
e eu já meio nauseada apago a palha, respirando neblina,
tornando-me neblina também.
23 de maio
li sobre amor. li muito.
li sobre sentir cada célula do seu corpo devota a um outro corpo. achei bonito. achei irreal.
li sobre estar insanamente apaixonada.
li sobre desejar alguém intensamente.
achei bonito. achei irreal.
então você veio.
então senti na pele o gosto de ser conquistada, todos os dias, mais um pouco.
então senti gritar aqui dentro que era você.
então senti que ainda que eu escrevesse dezenas de poemas, falasse de você para cada pessoa que conheço e te cobrisse de centenas de beijos eu ainda não chegaria sequer perto de expressar todo o meu afeto.
14 de abril
Eu amo demonstrar afeto por meio de todas as minhas linguagens. Sinto que, nesse campo, não sou capaz de ser menos do que honesta. Quero escrever poemas, assar tortas, abraçar, escutar suas histórias, presentear, oferecer meu tempo. Quero que se sintam acolhidos e queridos. Eu sou assim com todos que amo. Mas odeio, odeio a ideia de sufocar essas pessoas. Odeio quando passo um pouco do limite. Porque acho que demonstrar amor também precisa ser demonstrado ao dar espaço. Às vezes perco a mão e me distancio demais, mas estou dando amor a essa pessoa. Também acho que dar amor é me amar, dando espaço a mim, para pensar em outras coisas, para existir de outras maneiras; e assim, preservar a minha individualidade, ser o melhor de mim porque é isso que quero oferecer a quem amo. Quero que tenham o melhor de mim porque quero que tenham o melhor. O difícil de achar que amor é tanta coisa assim é que nem sempre tenho noção das medidas. O amor é um trabalho complicado. Tudo bem. Eu só não quero sufocar. Preciso que as pessoas sejam livres para ir embora, pois só assim elas são livres para ficar.
dezessete de junho
nós podemos confiar na impermanência. nós podemos confiar que em algum momento levantaremos da cama e fazer o que precisamos fazer não vai ser um suplício. nós podemos confiar que voltaremos ao nosso eixo. nós podemos confiar que os dias podem ser fáceis e a vida pode ser fácil. em algum momento.
dessa vez está levando um pouco mais de tempo, mas eu não estou mais sentindo vontade de me esconder. sinto falta do meu peito cheio de planos e da adrenalina de estar ocupada com centenas de coisas. sinto falta de sentir orgulho de mim. sinto falta de estar produtiva, ativa, viva. mas preciso ter paciência. ainda não consigo abraçar o mundo de novo. ainda. mas eu sei que aqui dentro ainda mora essa parte de mim que tem sede de movimento. eu não vou mais ter medo de não conseguir saltar se eu me permitir descansar um pouquinho. eu vou respeitar o meu corpo, o meu tempo. está tudo bem.
oito de junho e alguns lembretes
hoje eu acordei me sentindo muito tranquila e desde que me levantei eu não paro de cantar.
hoje está nublado, gelado e silencioso. o tipo de dia em que quero escrever e pintar e ler e conversar e cozinhar e rir. tenho o dia só para mim - todo o mundo em casa está fora, ocupado, vivendo a própria vida. seguros, vacinados e, no geral, muito bem, obrigada.
e eu só consigo pensar que, apesar de todo o contexto caótico e das últimas semanas de muita crise, é bom se lembrar de ser grato pelo que ainda existe de bonito. e contemplar. e ficar feliz. e registrar, para saber que as coisas mudam e mesmo quando não for fácil se sentir assim, não vai durar para sempre. tudo fica bem de novo. é permitido ter esperança de dias melhores.
eu definitivamente estou tendo um desses dias melhores.
cansei de lidar com a minha mente inquieta sozinha; comecei a tomar medicação e estou com terapia marcada. não estou mais enrolando na cama, com medo e com preguiça de viver. e esse é um lembrete de que está tudo bem ingerir neurotransmissores se você não os tem suficientemente. a medicina está aí para ajudar. levei muito tempo para perceber que apesar de ter me acostumado com o meu Transtorno de Ansiedade Generalizada, não é normal se levantar todos os dias com taquicardia, náusea, pressa e desespero; e precisar seguir toda uma lista de métodos para acalmar a mente e conseguir viver. porque às vezes isso não funciona. e quando a TAG me leva a episódios depressivos isso é realmente preocupante e merece atenção, porque me incapacita de viver com qualidade.
foi muito difícil para mim admitir o quanto eu precisava de ajuda. eu sentia muita vergonha de precisar falar para um profissional como a minha cabeça estava. de novo. porque eu já fui e voltei tantas vezes da terapia achando que agora eu conseguia lidar sozinha. todo o mundo meio que me vê como uma pessoa dedicada, produtiva, racional, centrada. isso torna bem embaraçoso reconhecer quando pequenas tarefas não são mais tão simples. mas agora está tudo bem. porque tomei coragem e fui pedir ajuda outra vez. e esse é outro lembrete: a gente pode pedir ajuda sempre que precisar. porque, nessa coisa de viver, a gente cai várias vezes. e a gente não precisa esperar que ofereçam a mão - podemos pedir que nos estendam.
ontem pedi o garoto por quem estou insanamente apaixonada em namoro. estou muito feliz porque acho que a gente se faz muito bem. ele é um bom companheiro, um bom amigo. eu finalmente consigo olhar para alguém e pensar que é realmente certo estar com essa pessoa. e esse é mais um lembrete: amar pode ser fácil, mesmo quando é muito intenso.
30/05 e tal
atender ao que em nós ainda pede poesia, de vez em quando, requer mais do que tempo e vontade. requer um certo silêncio. requer desapegar dos pensamentos acelerados e dos absolutismos. às vezes requer algumas xícaras de chá e atenção ao presente.
esses dias experimentei aceitar colo de alguém contra quem ergui paredes - a minha mãe. ainda é difícil me deixar aproximar, sabendo o quanto é doloroso criar expectativas de uma relação saudável, já conhecendo tudo o que me tira do sério nela. é mais fácil ficar na defensiva, impor-me ao invés de explicar com gentileza, falar do que me incomoda e não do que me acolhe. é que eu entendi que o amor é escolha e saber que preciso escolher amá-la e abraçar o pacote que ela representa exige coragem demais.
mas resolvi não ter pressa. resolvi aceitar ajuda porque andei tendo problemas para me cuidar sozinha e não foi ruim. e pensei que talvez eu possa, dia após dia, decidir amar, sem compromisso com o que eu havia escolhido no dia anterior. porque ontem eu aceitei ser amada e não foi ruim amar de volta. hoje é outro dia.
só que hoje é outro dia e não me vi capaz, à princípio, de atender ao que pedia poesia em mim. estava pensando demais e sendo reativa demais. tendo pressa demais e erguendo paredes contra tudo o que há de delicado ao redor. porque eu ainda precisava escolher amar o dia e amar a mim e amar o que eu fosse capaz de escrever, ainda que fosse fraco, ainda que fosse pouco, ainda que levasse tempo. eu precisava amar o tempo.
alguns dias não consigo, mas hoje consegui. hoje deixei minha cachorrinha subir no meu colo enquanto eu tomava chá e escrevia em meu diário e prendia com um clip vermelho o desenho bonito que fiz ontem. hoje mudei o guarda-roupa de lugar e encontrei nas paredes frases escondidas, escritas nos meus quinze anos, quando a vida era outra e eu também. hoje tomei banho com calma, respirei fundo e decidi deixar de lado as minhas próprias dúvidas e perguntar às minhas amigas como estava a cabeça delas. hoje saí um pouco de mim e quando me encontrei de novo eu pude me abraçar, como a uma amiga também. hoje não tomei café e não fumei cigarros e não comi nada com açúcar porque, só por hoje, parei de sabotar a minha cabeça e o meu corpo enquanto me sinto vulnerável. e hoje, só por hoje, terei paciência e farei o que for possível dentro do que me cabe. e há de ser o bastante.
23 de maio de 2021
é o último mês do outono e tudo sobre isso me é muito caro. o sol ainda é como um abraço e todas as cores do bairro são oscilações de verde e marrom. tenho biscoitos frescos de chocolate, café e tempo, bastante tempo. não há nada urgente a ser feito. o livro aberto de Introdução Brasileira à Teoria, História e Crítica da Arte está aberto e, apesar do título gigantesco, o texto é fluido e enche meu coração. Schubert e o Guarneri Quartet explodem em meus ouvidos e eu penso que deveria estar mais feliz. deveria mesmo.
a vida tem sido boa como geralmente ela é, mesmo. eu sei que sou bastante querida por muitas pessoas. eu sei que tenho muitas possibilidades nas mãos. eu sei que não há nada de errado comigo e que eu deveria estar contente. deveria mesmo.
mas eu não sou capaz ainda de entender como meu corpo e meu afeto funciona e hoje levantei me sentindo sufocada. isso acontece com tanta frequência que eu mal consigo identificar os gatilhos. aparentemente, o gatilho é acordar. confesso que estou um pouco assustada porque não compreendo e tenho medo de me perder. tenho medo de não conseguir reconhecer o real no irreal. tenho medo da minha cabeça se encher de névoa de novo sem motivo. sei que sobrevivo. sei que é uma batalha que luto sozinha. sei que se ficar realmente ruim eu posso voltar para a terapia. sei que se eu fizer tudo direito eu não vou sair flutuando. sou forte o suficiente para manter os pés no chão.
mas às vezes, só às vezes, eu me desespero.
passei algumas horas caminhando hoje cedo, tentando cansar minha mente. talvez se eu me cercasse do calor e do silvestre e do vivo, eu pudesse realocar essa coisa esquisita sobre meu peito que eu não sei de onde nem porque é que vem. penso no tanto que eu gostaria de falar sobre isso, mas não quero encher os ouvidos de ninguém com reclamações que não me sinto no direito de fazer. com reclamações que ninguém vai querer escutar. então escrevo e choro e coloco para fora como posso porque não quero ser engolida. não quero.
felizmente, é o último mês do outono e eu acabei de perceber uma coisa bonita. fiz um amigo assim que a minha estação favorita começou. conforme ela foi avançando, fui sentindo o carinho se espalhar, tal como as folhas no jardim. fui caindo, assim como elas. alguns dias a queda é um pouco brusca. é de maneira muito intensa que penso nele. e quando estamos juntos, sinto que vou derreter. e é tão assustador quanto bonito. não me lembro de cair assim antes. não me lembro.
outros dias, porém, a queda é doce. tranquila. mal sinto que caio, mas que flutuo. gosto mais quando é assim. consigo respirar. parece mais estável, mais real.
e assim o afeto vai flutuando, a depender dos dias, do meu corpo, de como ele vem. e tudo bem. quero abraçar essa impermanência porque, de qualquer maneira, é uma espécie de amor. tem sido uma das melhores coisas nos meus dias, quando não me deixa mais nublada. sei que não é o amor genuíno, porque eu não sou boba. esse mesmo só se estabelece após uns dois outonos. a neurociência é quem diz e eu acredito. mas existem outras formas de amar. existe amizade, carinho, desejo. existe tudo isso junto.
olha só! já me sinto um pouco melhor. mais colorida. mais calma. acho que pensar no que há de bom entre toda a confusão que sinto é o que me ajuda.
é o último mês do outono e está tudo bem.
estética do amparo
hoje o sol encontrou os antúrios vermelhos descansando, desinteressados, na extremidade direita do quarto nas folhas gentis dos antúrios eu li segredos sobre a delicadeza do calor quando incide nos dias mais pacatos
hoje o beijo do cobertor azul-violeta encontrou o meu rosto descansando, desinteressado, na extremidade esquerda da cama nos fios gentis do cobertor eu li contos sobre a delicadeza do calor quando incide no corpo das damas
hoje o café-tinta do meu avô encontrou os meus lábios gelados descansando, desinteressados, na extremidade superior da caneca na firmeza gentil da cerâmica eu li ensaios sobre a delicadeza do calor quando nos acorda de uma soneca
hoje o bloco de notas encontrou minha mente tranquila descansando, mas interessada, procurando as pequenas belezas nos detalhes gentis que compõe as belezas eu li narrativas sobre a delicadeza do calor quando alimenta os meus poemas
hoje as canções antigas encontraram o meu corpo desavisado descansando, mas interessado, pronto para o movimento nos meus próprios movimentos gentis eu li esboços sobre a delicadeza do calor quando traz gozo ao mais banal momento
hoje o dia ordinário encontrou a vida aqui dentro descansando, mas interessada, em se derramar por cada troca no gentil desenrolar da vida eu li a passagem do tempo e a delicadeza do calor quando fica, mesmo quando já foi embora
a família e o tempo
faz uns dias que não anoitece em minha casa; o breu pontilhado não me enganou. havia algo de falso no frio e no sereno; na noite de brinquedo não havia amor.
faz uns dias que não entardece em minha casa; o dourado pré-pôr-do-sol não me enganou. havia algo de falso no hábito dos passarinhos; na tarde de brinquedo não havia amor.
faz uns dias que não amanhece em minha casa; a mesa cheia de pão e café não me enganou. havia algo de falso nos cumprimentos; na manhã de brinquedo não havia amor.
faz uns dias que o tempo não passa em casa; o cinza desses dias enevoados me revelou. os segundos estiveram presos em porta-retratos; mas as horas deixaram de ser de brinquedo quando, no sorriso do meu avô, enfim reencontrei amor.