Sentiu-se aliviada ao perceber que ele também tentava manter a calma, tentava não perder a cabeça e agir sem pensar. E depois de todo o seu desabafo, a loira começava a se sentir mais no controle de suas palavras e ações, parecia estar ligeiramente mais serena e centrada. Talvez dizer tudo aquilo fosse tudo que ela mais precisava. A loira chacoalhava ligeiramente a cabeça em negação enquanto o escutava. Era impossível conseguir descordar mais de tudo que ele dizia. Lauren esforçava-se, genuinamente esforçava-se para tentar entender o lado do rapaz, sabia que ele não era um monstro. Mas era difícil concordar com o que ele dizia, ou sequer compreender de onde aqueles pensamentos vinham. — Eu não sei de onde você tirou essa ideia de que eu sou uma garotinha fraca, incapaz de ajuda-lo a enfrentar os seus problemas. Porque até onde eu sei, fui forte o bastante para ajudar a minha própria mãe a enfrentar os dela. E você sabe muito bem disso. — Conway sabia de todos os detalhes de sua vida, principalmente o seu passado, o que era uma prova do quanto confiava e gostava dele. Mais uma vez sentia-se ofendida. Era terrível finalmente descobrir a maneira como ele a enxergava, completamente destoante do modo como ela imaginava ser. Era decepcionante se dar conta daquilo. Odiava quando as pessoas a viam como uma garotinha indefesa, fraca, presa fácil. Ela jamais fora isso. Podia ser autodestrutiva em alguns momentos, mas sempre enfrentara todas as dificuldades e os desafios que lhe eram impostos. Assistiu-o enquanto ele caminhava de um lado para o outro. Era terrível vê-lo tão inquieto. — Você acha mesmo que descobrir que você pode voar mudou a maneira com a qual eu te vejo? Que ver a foto de você salvando e entregando uma garota sã e salva para sua família subitamente fez com que eu esquecesse do Mark que eu conhecia? — Talvez as outras pessoas pudessem vê-lo como uma aberração, porém a loira jamais pensara daquela maneira. Ela achava toda aquela história sobre superpoderes e mutantes extremamente interessante, e conseguia enxergar a beleza e as grandes oportunidades que aquilo trazia consigo. E, porra, ele havia salvado uma vida! Achava um absurdo as pessoas simplesmente se esquecerem daquele enorme detalhe. Mas obviamente o ser humano conseguia estragar tudo. — Aquilo só serviu pra me provar que você é tão incrível quanto eu sempre acreditei que você que era. — Até você me abandonar. Instantaneamente arrependeu-se de dizer aquilo, de falar explicitamente sobre a maneira como se sentia a seu respeito, por mais que tivesse a certeza de que ele soubesse daquilo no passado. — Mas, sinceramente… Eu quero que se foda se você pode voar ou não. Eu só queria me certificar de que você estava bem. — Aquele fora um desabafo. Sabia que aquilo poderia ofendê-lo, tudo dependia de sua interpretação. Mas o poder de Mark realmente havia se tornado um detalhe secundário para Parrish, aquela não era a parte dele que a fizera se apaixonar por ele, sequer sabia da existência do mesmo. Mas aquilo não significava que ela não via o quão maravilhosa aquela habilidade era, mesmo não sendo o foco de seu interesse.
“Acha mesmo que eu jogaria isso tudo para o ar, literalmente, por puro capricho meu?” Lauren não sabia se havia se expressado mal, ou se era ele quem não compreendia o que ela dissera. Ela jamais havia dito que suas ações haviam sido feitas por puro capricho, o conhecia bem o bastante para saber que ele não era o tipo de pessoa que agia daquela maneira, por puro impulso. E era exatamente por isso que ela sabia que havia algo por traz de seu afastamento, que ele não havia o feito simplesmente para poder enfrentar os seus problemas ou para privá-la dos mesmos. — Que outra conclusão eu deveria tirar depois de seis meses sem nem ao menos receber uma mensagem sua? Seis meses, Mark! O que é que eu deveria pensar que estava acontecendo? — Talvez ele pudesse fazê-la enxergar toda aquela situação tão claramente quanto ele parecia enxergar. — O que é que passaria pela sua cabeça caso eu simplesmente desaparecesse de sua vida sem dizer nada? Sem nem ao menos de despedir? — Por favor, não me diga que não se importaria, que nem ao menos notaria a minha ausência. Porque é que as coisas tinham que ser tão difíceis? Porque é que a vida não podia ser mais simples? Todos seriam tão mais felizes e realizados. — Olha… — Ela respirou fundo, finalmente conseguindo se recompor. Não queria tornar aquilo mais difícil do que já estava sendo. Ela tentava agir de maneira madura, porém atentando-se para não baixar a cabeça, para não ser submissa de seus próprios sentimentos a respeito dele. — Eu entendo que não deve estar sendo fácil pra você. Eu entendo que há pessoas ignorantes o bastante para insistirem apenas em focar a atenção no seu poder e não na maneira em que o usou para salvar aquela criança. — Continuou. — Mas você não precisava… Não precisa enfrentar tudo isso sozinho. Mas essa é uma escolha sua. — Não iria obriga-lo a inclui-la novamente em sua vida, não iria impor a sua existência a ele. Se havia algo que ela aprendera com tudo aquilo, era que deveria seguir o seu próprio caminho daquele momento em diante, que deveria para de sonhar ser possível encontrar alguém com quem pudesse dividir toda a sua vida e precisaria respeitar ainda mais o espaço dos outros, que infelizmente o homem se tornara uma espécie solitária. — Só acho que não foi justo você não dar sinal de vida. Não amenizar pelo menos um pouco a minha preocupação. — Mark não a convencera. Sonhara com o dia em que o reencontraria e ele a explicaria exatamente o que havia acontecido e o que passara em sua mente para agir daquela maneira, e que então ela seria capaz de deixar tudo aquilo no passado e perdoá-lo. Mas obviamente não seria tão fácil. — Era tão impossível assim você me contatar e simplesmente me dizer que precisava ficar sozinho, que tinha que resolver os seus problemas e pelo menos me certificar de que estava bem? Ou você sequer cogitou a possibilidade? Simplesmente não se importou em fazer isso? — Não queria ouvi-lo dizer que apenas não a contatara por acreditar que ela não conseguiria lidar com a realidade.
Vê-lo sorrindo daquela maneira a deixava nauseada. “Talvez a minha morte tivesse sido menos dolorosa do que a minha vida, para você.” Sua vontade era de dar-lhe um tapa por dizer tal absurdo, talvez assim ele aprendesse a jamais dizer algo como aquilo novamente. Porém ela jamais faria aquilo, jamais o agrediria. Então ela apenas o encarou em silêncio por alguns segundos, sem realmente saber como agir depois daquilo, mal era capaz de acreditar que havia escutado tais palavras. — Como você pode dizer um absurdo desses, Mark? — Ela o encarava descrente de que ele pudesse ter dito aquilo. Aquela ideia ia contra todas as atitudes que ela tivera durante todo o tempo em que passaram juntos e de todas as palavras que ela acabara de dizer. Se eu me preocupo com a sua vida, como é que sua morte me traria alegria? Aquilo não fazia o menos sentido. Começava a acreditar que ele tentava fazer-se de vítima. E por mais que ele fosse, quando o assunto era a maneira que as outras pessoas o trataram desde sua exposição, claramente era o culpado por tê-la magoado. — É tão difícil assim pra você enxergar que meu sofrimento começou quando você desapareceu da minha vida? Como é que você tem a coragem de dizer que sua morte seria o melhor pra mim? — Era como se ele demonstrasse cada vez com mais clareza o quanto ele a menosprezava, o quanto a achava apenas uma garota indefesa e egoísta, e o quanto ele não a conhecia. Deus, como aquilo machucava! A sua última fala fez com que ela paralisasse, e ela permaneceu ali, repassando cada uma de suas palavras em sua mente, tentando se certificar de que havia as escutado corretamente. — Você não podia me ver mal, então simplesmente decidiu sair de perto pra não me ver chorar? Decidiu ignorar as consequências dos seus atos na esperança de que eles deixassem de existir? — Seus olhos estavam cerrados e a dúvida estava estampada em seu rosto. Ela falava lentamente, claramente tentando digerir cada palavra que saia de sua boca. “O que os olhos não vêm, o coração não sente”, basicamente era aquilo que ele acabara de lhe dizer. Um pedido de desculpas não seria o bastante, ela queria a verdade. Ele teria que se esforçar muito mais para que ela o perdoasse. E ele apenas se esforçaria se realmente se importasse. Mesmo que detestasse aquilo, detestasse pensar dessa maneira, sabia que aquele seria o seu teste final.
Era normal que ela até tentasse entender o que ele falava, mas o que mais queria dizer, era interpretado de outra forma, além do que ele mesmo até imaginou ter efeito. Assim que ela se pronunciou às respostas dele, ficou calado, olhando-a meio sem jeito. Talvez fosse o tempo que passaram longe que acabou arrancando a pouca intimidade que tinham há alguns tempos, deixando Mark inexpressivo e sem entender direito o que acontecia com Lauren, senão a indignação por ele ter desaparecido da vida dela sem mais nem menos. No instante em que teve seu momento, aproveitou-o da melhor forma, em um tom sereno e próximo à outra, mas, claro, sem invadir o espaço dela além do que ela havia permitido visualmente. -- Eu nunca duvidaria da sua capacidade, não quis dizer que você é uma garotinha fraca, porque não é. Você é a pessoa mais forte que eu conheço e tive o prazer de conviver, Lauren, é só que é algo meu... Eu não suportaria ver você carregando meu fardo, é inadmissível. Eu queria nos manter focados no que realmente importava, e se eu estava bem ao seu lado, então não tinha com o que se preocupar além disso. -- Balançava a cabeça com exatidão, esperando que ela dessa vez o compreendesse de forma clara e sem outras interpretações. Era óbvio que ele não queria magoá-la. Na verdade ela não fazia ideia nem da metade do que se passou para ele esconder as verdadeiras causas dela, as verdades que não conseguia contar. Aquilo era até reconfortante, se comparado ao que ele teria de dizer, mas que não tinha coragem de contar para poupá-la de mais. -- Não quero saber se você aguentaria comigo, eu não queria isso para você. -- A forma com que falou foi tão simples e de uma vez, que até pensou se não tinha sido rude, mas logo voltou atrás e deixou que sua face demonstrasse por ele a serenidade com que ele estava agora, refletida na da outra também. Talvez era isso que estivesse precisando: palavras reconfortantes de alguém que um dia o reconfortou também. Não era segredo, Lauren podia ser a pessoa mais fechada no início, mas ela não era nada durona em relação a sentimentos, sabia expressá-los da maneira que mais a convinha e aquilo era algo que Mark nunca conseguiu propriamente. Quando ela falou o que ele precisava ouvir, sentiu uma necessidade enorme de abraçá-la, mas conteve-se pelo momento. Ele precisava, mas talvez ela não. Não podia contestar as palavras dela naquele momento, tudo o que conseguia fazer era sorrir de canto, imperceptivelmente, ou pelo menos ele achava que era. Realmente não sabia como agir na frente dela, não diante de verdades absolutas, aquilo até mesmo o assustava pois não tinha razões suficientes que não a magoassem.
“O que você deveria pensar que está acontecendo? Bom, eu não quero ter que explicar isso para você, Lauren, não agora...” Aquele pensamento tomou conta de sua cabeça como se fosse uma necessidade de ele lembrar-se que agora não era a hora. Claro, tinha esperado tempo demais para isso, para contar verdades, mas não hoje... Aquele deveria ser um momento de reencontro e ele odiaria vê-la pior do que aparentava estar, imagine internamente como ela não deveria estar se sentindo, e tudo por causa dele. -- Primeiro que eu não deixaria você sair da minha vista. Segundo: eu localizaria você. Em. Qualquer. Parte. Do. Mundo. -- Disse aquilo pausadamente, gesticulando com um dedo ao mesmo tempo, sem contar no tom de humor que aquela frase foi carregada. Independente de o momento ser sério, Mark não gostava de estar naquele clima com ela, principalmente ela. Até porque nunca precisou presenciar tal momento com ninguém, era uma experiência “nova”, por assim dizer, e ele só queria ver um sorriso nela, nem que fosse de sarcasmo. Precisava ver que ela estava lidando com aquilo da melhor forma possível. -- É mais delicado do que você imagina. -- Foi o que conseguiu dizer, pelo menos até então. E com delicado ele queria dizer extremamente intenso. Claro, seu modo de se expressar era o pior, mas não pior do que o que se passava pela sua cabeça, que era complexo, indescritível, se assim poderia “batizar”. “Mas essa é uma escolha sua”. Queria apenas acolhê-la em um abraço, pois o modo como ficava parado em frente a ela, sem muitas expressões e uma infinidade de coisas passando pela mente, era constrangedor. Pela primeira vez Mark não sabia o que fazer, não naquela situação. Lauren era um livro aberto para ele, pelo menos para ele, e agora estava sendo tão difícil comunicar-se com ela sem parecer um tremendo ignorante e idiota pelo que tinha feito. Não era como se ele tivesse argumentos que encobrissem a realidade, talvez até ela já tivesse pensado na possibilidade de ele simplesmente não querê-la, ela era inteligente o suficiente para isso, mas queria crer que não tinha sido tudo em vão, afina: de que adiantaria ele tê-la pedido em namoro, se não tivesse pelo menos um mínimo de sentimento? Aquilo martelava sua cabeça de forma intensa. Ele então se aproximou dela, ignorando tudo o que ela falou até então, sem saber o que responder propriamente a altura, e pousou as mãos em seus braços, apertando firmemente, mas não de uma forma que a machucasse ou a prendesse, apenas foi de um jeito que a mantivesse ligada no que ele diria.
-- Tudo bem, Lauren. -- Ele se pronunciou em uma lufada de ar, por fim, depois de ouvir tantas coisas dela. Tantas coisas que não machucavam só à ela, mas ele também, pois era o principal e único causador de toda aquela confusão. Mark era realmente uma bagunça, não conseguia se entender naquele instante, mas procurou as melhores palavras para aliviar aquele sentimento de Lauren, pelo menos por aquele momento. -- Sim, eu acreditei que me afastando melhoraria as coisas, mas pelo visto estava muito errado. -- “Não comece de uma forma que você não quer ver terminar, Mark”, sua consciência lhe relembrava a cada segundo, fazendo-o fechar os olhos por breves segundos, após isso procurando a íris clara de Lauren, e como em um lampejo na noite, os encontrou sem muita dificuldade. Manteve-se sério e focado no que tinha de contar, só dependeria dela suprir dali o que fizesse sentido para ela. -- Eu tive que ficar aqui. Me foi prometido um lugar para pessoas que nem eu e não quis meter você nessa. -- Soltou assim, sem quaisquer devaneios. Sim, era como se ele estivesse dizendo que a largou para buscar uma vida mais liberta que aquela que ele estava vivendo - não em relação ao namoro, óbvio -, mas, não, não era como se ela não valesse nada para ele. -- Vê? -- Ele apontou com a mão para ao redor deles. -- A polícia de Nova Iorque está acordada vinte e quatro horas, todos os dias, para me encontrar e aos outros com poderes, e nos prender. Se não fosse pela Elena, a mulher que me salvou naquele dia, eu já estaria na cadeia, talvez até morto servindo como cobaia para o governo, porque eu sou um fugitivo, independente do que eu tenha feito, eu sou uma ameaça para todos, e eu só consigo voar... É só isso que eu faço. -- Deu uma risada breve, desvinculando suas mãos dos braços dela e dando um passo para trás, fazendo uma careta por conta de seu poder ser, ligeiramente, inútil, se assim poderia classificá-lo. Mark com ou sem poder era inútil, então não fazia tanta diferença assim. -- Na minha cabeça, foi muito mais fácil deixar que você me esquecesse do que alimentar a vontade dos esquisitos por aí que me chamam de aberração e que querem dar um fim em mim. Se eles descobrissem as pessoas com as quais tenho mais proximidade... Deus, não quero nem imaginar essas idiotices. -- Balançou a cabeça, meio enfurecido com o que já escutou nas ruas das vezes em que saiu. Sempre era uma novidade quando ele saía - até mesmo reencontrar sua ex tinha sido uma novidade naquela noite -, não poderia negar. -- É óbvio que eu tinha um motivo para ter largado tudo e eu decidi escolher o meio mais fácil para isso. -- Falou com sinceridade as últimas palavras. Era claro que algumas coisas haviam sido acrescentadas para melhorar o rumo da história. Mark não se daria ao luxo de magoá-la com a verdade, pelo menos não por agora. Ela já estava em um estado bastante lamentável para o gosto dele, não iria piorar ainda mais, por mais imbecil que estivesse sendo ao fazer isso. Na verdade, poderia estar piorando tudo, mas não conseguia simplesmente falar. -- Eu só quero voltar a frequentar a universidade, ver meus pais todos os dias de manhã cedo até a hora de dormir de novo, ver meus amigos... Eu quero tudo isso de volta. Mas eu não posso voltar no tempo, só voar no presente. -- Deu de ombros e, de alguma forma, sua garganta se enroscou com um nó. Era sufocante sentir aquilo, mas era mas sufocante ter guardado por todo aquele tempo e agora finalmente conseguir libertar aquele sentimento ruim de si. E, claro, ela poderia muito bem achar tudo aquilo uma farsa, uma encenação de Mark, mas assim era pensar muita bobagem da parte dele. Sabia que Lauren não era tão insensível assim, não a esse ponto.