é necessário escrever errado e correndo com o descompassado corpo e coração que em ânsias pedem ar e oxigênio e qualquer coisa que pareça a respiração de quem se sente seguro em si.
era assim que descia as escadas enferrujadas do prédio da universidade em que o professor dizia: já não existe capacidade de fazer poesia. o homem perdeu sua capacidade de sentir e expressar a vida. mas só agora, depois de ondas de realidade do mundo e das peças do meu cérebro, foi que senti tão concreto o medo do homem, que já não pode mais ser sem criar uma coisa boa que seria diferente da vida como se apresenta.
as resistências e maiores dores que os corpos e as cabeças geniais do homem puderam supor não puderam salvá-lo de si mesmo, nem da maldade dos outros nem de si mesmo. até os consultórios de psicanálise não comportam mais os delírios mais reais dos homens em seus desvios políticos mais concretos, tudo isso porque García Márquez disse que a poesia era a única prova concreta da existência do homem.
busco entre os meus delírio e lembranças tudo o que foi poesia e do que foi o caos dos homens, em lutas de palavras e olhos de gestos, de cenas esquematizadas e das coisas mais sinceras, investigo cada caso e remonto as cenas do crime, procurando vestígios da minha existência.
do pouco que lembro, já se sabia que o amor tem que ser reinventado; e que um ator preparado precisa estar atento ao seu redor, agir e reagir, se importando com qualquer copo que quebre pois deve parecer real. mas qual foi mesmo o momento em que perdi a poesia disso ?
devem estar dizendo por aí em boca miúda que eu me perdi no personagem, ou fiquei triste demais, que nunca voltei a ser ou fui qualquer coisa. e há muito que quase todos os boatos são verdade. mas nada pior no mundo do que entender a imensa grandeza dos seus pequenos gestos mundanos, e não ser nada comparado aos desmandos dos homens do passado e dos filhos desses no futuro. que só finge verdadeiramente estar de pé, e com olhos abertos não se sabe sonhar ou acreditar no sonho.
se precisasse me apresentar hoje pra alguém, talvez seja a mim mesmo, diria que fomos sonhadores, ou poetas, lutadores de espelho, maus poetas e piores cantores, fomos aquela multidão e a menor das baratas, com muita confiança e por vezes convicção. mas toda a fantasia precisa o mais rápido possível ser reescrita, pra vir a ser mais real consigo mesma.
Eles diziam, que bom que a gente tem a gente. e eu não me tenho, ainda.