Dormir é a mercê e graça da despreocupação do amanhã cogente. Adormecer, mal caindo com o corpo no leito, a divindade de viver sem pesar do pensar constante e espiral da loucura do não sentir. Não se chora há meses e todos os dias sente-se a necessidade da libertação do sofrimento. A frustração é marca viva do colapso do controlo dos passos que se dá no caminho de casa a casa, todas as jornas onde se tem de incluir à labuta e à realização. O outono caminha naturalmente para o Inverno, nas chuvas e ameno restolhar. Apático e sem valor. - Tenho de me deitar cedo, mais cedo, para tentar dormir e repousar. Sim! Hoje será a primeira vez na semana onde pego o sono de surpresa e nele fico, corrompendo-o, até ao raiar da necessidade do despertar. Sim! Terá de ser! O caminho de regresso a casa fazia-o pelo troço mais longo e demorado possível, havia que conseguir divergir da realidade e afazeres nestes palpáveis escapes de devaneio, para receber do vento e do alhear da urbanidade um resplandecente peneirar e fragmentar, reagrupando, dos componentes que, na análise dos dias, trazem a matriz e prumo do planalto onde se plantou. De pouco serve, porém, na eficiência do tempo que na competição do respirar, e ele somente, nas diárias campanhas de progresso e aprendizagem se estabeleça a fuga do exterior para o interior para deste sair de si uma vez que se colapsa sempre no esmagar da responsabilidade, da noção parca mas correta na tentativa, talvez falhada, de humildade em não tolher a extraneidade. Quedo-me na abjeção de ser útil na impossibilidade de perceber no tempo a presença de tudo e a existência ou, mesmo, os seus sólidos indicios de realidade. Talvez esse pensamento seja, de facto, a descrição e materialidade do que me está no núcleo e nas forças que me ungem em átomo. Distopia ou utopía vivida na pele sem a materialidade de o conseguir. Enxaquecas e tensão muscular nas costas e pescoço, doendo. Inalcançar e frustração. Cacofonia de felicidades e almejos de sonhos parcos, vejo-os nos outros, cantando à cidade possibilidade de ser sem peso e consciência da projeção no amanhã, em si e na gente. Talvez o tenha, um dia. Agora, só o castelo de pedrinhas de riacho, que ouve a sua água desaparecer por entre sarjetas dos dias, guardo na propriedade e na memória presente. Talvez. Só sei que tenho de dormir.













