A coisa com ciclos é que eles se repetem. Há uma naturalidade inerente nisso que deveria ser reconfortante. Não é. A minha coisa específica com ciclos é que eu sempre sei onde estou, sempre sei pra onde eu vou, mas essa consciência não é o suficiente para que algo seja, de fato, feito com isso. Então eu só sigo. Como uma corrente marítima presa ao seu caminho natural, revolta e confusa porque não há um destino final. Há? Não sei dizer. Também não sei dizer há quanto tempo eu estou aqui embaixo, sem respirar. Em algum momento acabei me convencendo que não preciso de oxigênio. Que a água salgada é tudo que existe, e que a pressão da corrente é ao mesmo tempo meu algoz e minha única companhia. Como eu poderia viver sem a única coisa que me impulsiona pra frente? Como eu poderia viver sem as bolhas que são meu único contato com o ar? A coisa >real< com ciclos é que eles são a única forma que eu sei existir. Talvez eu só esteja dando uma grande volta no oceano. Ou uma pequena. Ou uma média. Não importa. O que importa é que, às vezes, a corrente perde a força. E isso deveria ser bom, mas quando ela não existe, nada me tira do lugar. Eu quero sair do lugar. Eu não quero sair do lugar. Eu quero existir além deste oceano. Eu não quero existir. Eu queria que o ciclo acabasse. Mas se ele acabar, quem eu sou? Quem eu sou além de todo o sal e o lodo e a falta de ar? Não importa. Porque a corrente tá puxando de novo, e agora não tem bolhas, mas eu vou, inevitavelmente, continuar a nadar, mesmo que eu tenha desaprendido a como respirar.
aa.















