A Era das Personalidades Volúveis
O Tinder é um aplicativo que tem como objetivo unir pessoas com interesses semelhantes, para que elas possam se conhecer e desenvolver uma relação, seja ela de amizade, romance ou qualquer outro tipo de relacionamento desejado.
Tão simples na teoria, mas tão caótico na prática!
A dificuldade já se mostra nos perfis dos usuários, a grande maioria não se dá ao trabalho de realmente "criar" um perfil. Acreditam que o importante é simplesmente colocar uma sequência de fotos bonitas, algumas frases prontas e meia dúzia de emojis. São poucos aqueles que realmente fornecem informações relevantes sobre a personalidade do indivíduo. Em geral, os perfis se resumem a algo como:
"Ricardo, 32 anos.
1,80
Recifense
Sol
Praia
Sagitário."
No entanto, esse perfil genérico não é exclusivo do Tinder. Encontramos dezenas de exemplos em qualquer rede social, como Instagram, Twitter e Facebook. Parece que as pessoas não se conhecem mais a ponto de não conseguirem escrever uma única frase que fale delas mesmas. Isso dificulta muito a vida de quem procura conhecer pessoas por meio desses aplicativos de relacionamento. Se o próprio indivíduo não se conhece, como eu conseguiria essa proeza?
Essa falta de informação me leva a julgar os candidatos apenas pelas fotos, o que é extremamente problemático por vários motivos. O principal deles é que as fotos não dizem nada ou mostram uma ostentação desmedida. Alguns enchem o perfil com fotos de paisagens de suas viagens, indicando que viajaram pelo mundo. Outros adoram postar fotos tiradas na academia, mostrando seus treinos e músculos. Ainda há aqueles que optam por exibir fotos de festas e shows, sempre bebendo e se divertindo. Nada disso é errado, é apenas insuficiente. Sua foto na Torre Eiffel não revela quem você é; ela apenas indica que você gosta de viajar, o que é apenas uma das suas características. Porém, durante a conversa você poderia compartilhar algo que realmente tenha chamado sua atenção na cultura dos lugares que visitou ou alguma experiência desafiadora que tenha vivenciado durante uma viagem. Isso mostraria pontos da sua personalidade.
Mas, não se engane; não sou ingênua a ponto de acreditar que a aparência não seja o foco da maioria dos usuários. No entanto, com uma descrição da sua real personalidade, perfis "não tão agradáveis aos olhos" poderiam mostrar um diferencial e, quem sabe, se destacar dos demais, e também seria muito útil para os usuários selecionarem os perfis compatíveis, como aqueles que buscam amizade, diversão e relacionamento.
Infelizmente, isso não ocorre, e acabo apenas distribuindo "matches" com base em atributos físicos, sem saber ao certo o que estou fazendo. E aqui me deparo com outro grande problema: iniciar uma conversa.
A tarefa de iniciar a conversa quase sempre recai sobre mim, a pessoa do outro lado geralmente espera que eu tome a iniciativa. No entanto, não é apenas começar o diálogo; também preciso sustentar essa conversa, mesmo sem ter informações sobre a pessoa. Mas eu sou uma pessoa dedicada, então busco informações.
Inicia-se o questionário básico do Tinder: "O que gosta de fazer no tempo livre?" "Que tipo de música gosta de ouvir?" "Em que trabalha?". Sigo fazendo perguntas na esperança de encontrar algo que possa "amarrar" uma discussão, uma conversa, ou algo que ambos tenham em comum. Mas, tudo o que recebo são respostas genéricas e monossilábicas. Começo a sentir então a sensação de estar conduzindo uma entrevista de emprego, onde o candidato não tem muito a contribuir com a minha empresa, falta-lhe um pouco de... personalidade.
Ontem, conversei com um rapaz que é o exemplo perfeito de personalidade volúvel. Na descrição do perfil, dizia:
"Vamos sair do tédio
Um bom chá para
curar essa azia.
1,72
69 kg."
Para iniciar a conversa, usei a frase da descrição e perguntei: "O que você faz para sair do tédio? Eu imagino que não seja apenas tomar chá." A resposta que recebi foi: "Gosto de sair para qualquer lugar, mas também de ficar em casa e fazer coisas em casa." Então, perguntei se ele gostava de filmes, livros e séries, e ele surpreendentemente respondeu: "Gosto de todos os estilos, ouço qualquer coisa." Ainda fiz mais três ou quatro perguntas antes de desistir, e recebi o mesmo tipo de resposta para todas elas.
Que tipo de personalidade é essa, que gosta de tudo e qualquer coisa? É admirável que alguém seja tão aberto e consiga aproveitar tudo o que está disponível, mas todos têm preferências. Uma pessoa pode dançar e cantar todas as músicas que tocarem em um bar, mas certamente tem uma playlist com suas músicas favoritas no celular. Quando queremos conhecer alguém, queremos saber das músicas que estão na playlist.
A experiência no Tinder abriu os meus olhos para essa era de personalidades volúveis que estamos vivendo. As pessoas não se preocupam em se conhecer, passam horas rolando o feed do TikTok, vendo e copiando os mesmos vídeos, o mesmo conteúdo produzido por diferentes pessoas.
Agora já não tenho certeza se realmente quero conhecer alguém.