A cor amarela - capítulo dois
Ouvi uma batida agoniada na porta. Pela janelinha, vi o rosto seco de Agnes.
“Aldo”, disse. “Algum problema? Você passou a manhã inteira trancado... Estive te esperando”.
Esqueci dos meus compromissos. Eu deveria estar coordenando a panfletagem para a inauguração do circo, e não enfurnado a manhã inteira no meu trailer com o coração pesado e a mente entupida de pesadelos vivos.
“Estou bem”, minto. “Preciso ficar sozinho”.
Agnes não entenderia. Nunca me entendeu. Desde que terminamos, após o contrato com o Barão, ela tem essa necessidade medíocre de se sentir importante. De enfiar seu rabo magro nos meus assuntos. Eu preciso continuar eu comigo, eu com meus problemas. Meus mortos e eu.
“Aldo...”, ela planeja algum argumento. Resta a ela apenas dar um soco macio na porta de ferro e ir caminhando de volta para seu alojamento.
Agnes é um assunto para depois. Eu tinha de me resolver com aquele Homem.
Saio do trailer próximo da hora do almoço, quando a trupe se reúne próximo ao refeitório improvisado no fundo do descampado. Longe da vista de todos, saio com a mesma roupa, sem escovar os dentes ou tomar banho. Ando com passos largos até a avenida e aquelas duas quadras seguintes, que me dão de encontro ao canteiro de obras.
Interessante. Encontro dois operários andando pelo terreno. Não sei qual abordagem usar sem parecer um anormal curioso – ou uma testemunha de suicídio.
“Está procurando alguém, cidadão?”.
Ouço uma voz atrás de mim. Quando me viro, um senhorzinho fardado, tão magro e desconfiado quanto um cachorro de rua, me encara, como se tivesse poder sobre mim. Seus olhos crescem sobre mim e percebo o seu interesse em saber qual o meu interesse.
“Olá. Meu nome é Aldo. Eu sou o dono... Digo, um dos donos do circo aí em frente à avenida”.
“Quer me dar um convite?”, ele responde. Aquela linha fina cobrindo a sua boca em nada parece com um sorriso, ou sequer um esboço dele.
“Não, não... Não quero fazer propaganda. Eu quero saber se...”, eu encho o peito e ataco com toda naturalidade. “... Se aconteceu alguma coisa estranha ontem à tarde”.
O Homenzinho encara o horizonte de forma tão anestesiada que eu me pergunto se ele é surdo ou retardado. Repito a pergunta. Ele estaciona na mesma posição.
“Cara, eu preciso de ajuda”, digo. “Não se faz de besta! Você trabalha aqui? Você é o quê, vigia?”.
“Sobe...”. Ele aponta para o alto com um dedo indicador.
“O quê?”.
Ele repete o pedido e o gesto. Mas agora segurando um grosso volume no bolso traseiro da calça.
É a segunda vez que peço calma de ontem para hoje. Desta vez, eu estou na frente, e um doente armado atrás de mim. Giro a cabeça e consigo notar que ele aponta as direções, enquanto me ordena. “Para frente. Agora para a esquerda. Suba a escada. Direita. Suba a escada”, e cumpro tudo de forma religiosa. Engraçado que a posição de vítima já cabe em mim como um torno sob medida – coloco as mãos na cabeça e o obedeço com toda a paciência.
Estamos no sexto ou sétimo andar. O prédio ainda é uma casca de cimento sem estrutura. Acima de nós, uma teia de vigas e cordas se emaranham, tornando tudo ainda mais sufocante.
O Homenzinho se põe na minha frente, retirando as mãos das costas. Atrás de si há um imenso vão no formato de uma janela coberta por lonas. Ele retira a mão das costas e revela com o que me ameaçara: um rádio comunicador.
Vrrrrrrr.
O Homenzinho sobe no parapeito da janela e se senta, me encarando com um prazer sobrenatural.
Vrrrrrr.
Minha garganta até tenta soltar um grito de negação, mas a velocidade do som nunca supera a velocidade do medo.
Vrrrrrrrr.
Eu não vejo a trajetória do Homenzinho até seis ou sete andares abaixo. Minha única atenção é no drone que paira há metros à frente da janela, no instante em que meus braços tentam agarrar inutilmente o ar.
















