Alison Van-Pelt Large Horse Head, 2022 Oil on canvas
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Alison Van-Pelt Large Horse Head, 2022 Oil on canvas
Orpheus with the lyre (Pierre Amédée Marcel-Beronneau, 1869 - 1937)
O teu presente espera, como uma flor ainda em botão, pelas tuas futuras rugas. Há marcas em nós que existem, já inteiras naquilo que serão, como se o tempo apenas lhes desse passagem. E ele cumpre o seu dever com discrição. As emoções, no entanto, permanecem, não como promessas, mas como evidências, deixando seus vestígios na sucessão dos instantes.
O teu olhar sereno, reflexo do céu – não por semelhança, mas por excesso -, não anuncia entrada em meu coração, encontra-o já aberto, como o calor que invade antes do toque. Nele, perco-me numa lucidez intuitiva na qual o compreendo sem saber exatamente o quê. E é nesse perder-me que o algo se organiza dentro de mim. No espaço do teu abraço deixo de ser excesso e me permito observar. Então, o que em mim era ruído torna-se intervalo, uma pausa respirável entre tua história e a minha.
Cada passo ao teu lado não é avanço, mas consciência. O amor, quando existe, não se repete ou se explica; reconhece-se, como uma atenção inesperada ao chão sob os pés. Há sentidos que nascem do sentir, e nomes que aprendemos apenas para tocar aquilo que nunca foi dito. E o que nunca foi dito, por vezes, permanece inteiro como o é. Porque há palavras que o tempo dispersa, sentimentos que vêm e se ausentam de nós, mas há presenças que se mantêm sem necessidade de tradução.
Em teus olhos, faço morada. Não por apego, mas por reconhecimento. Os dias, ao passarem por eles, aprendem a esperar; uma forma contida, quase imperceptível, de sonho. Se o tempo ao teu lado for um lugar, que seja então abrigo. Não como sonho, mas como vestígio. Que guarde, com cuidado, aquilo que as minhas mãos aprendem do teu cheiro. Porque no teu olhar, o mundo consente a cor e nele aceita existir; na tua quietude compreendo, sem espanto, aquilo a que chamam amor.
Egon Schiele, Sunflowers
Mar Becker.
Sabes que rejeito despedidas, mas fazes questão dos últimos instantes... sirvo-me desta solidão amigável, em memória às tuas maçãs.
Carrego a certeza sobre o tempo que atravessa este corpo, deitado na realidade, sem tornar a adormecer, vulnerável aos próprios sentidos, em busca de algo que comprove a possibilidade de algumas pessoas cruzarem nossas vidas e deixarem-se nelas a tal ponto que não pareça absurda a ideia de pertencimento.
Já não anseio pelo palpitar engasgado do peito, mas tua ausência é o lembrete de que a vida não passou senão pelo tempo. Para mim, pensar nisso é sentir um nó na boca do estômago; é sacudir a poeira das palavras adoecidas, que fazem alguma bagunça quando caem todas juntas e se misturam às melodias tão nossas que seria incapaz de admitir.
Após a última taça de vinho, encaro a dócil e súbita sensação de correr incessantemente das últimas palavras; de viver estas noites sem data nem horas marcadas, retida em notas repetidas, outrora inacabadas.
Há muito não apreciava a chuva de dentro de casa; ouvia as gotas caindo agressivamente do lado de fora e sentia o frio aproximando-se como um abraço, no sabor morno do café. Hoje, ela não é a conclusão, e sim a melodia tocando ao fundo. Assim, posso ouvir minha própria voz e, finalmente, trazê-lo gentilmente para esta nota.
Não poderia dar crédito ao vinho à minha disposição. Sinto o frio deixar minhas mãos, e um estupor de embriaguez se instala. A névoa do presente atravessa a tela do computador... minha sombra nunca envelheceu, mas estou aqui, após sete anos, escrevendo sobre você.
The Room, Marie Muravski.
Não existe palavra que expresse o que eras sem que em mim se abram cicatrizes. Nenhum toque me alcança sem trazer a lembrança de uma dor antiga, como se aquelas mãos ainda me arranhassem a pele. Caminho sem luz. Não há sol que se detenha sobre mim para aquecer o que resta. Tudo se envolve às sombras e nelas se recolhem todas as palavras.
Cada passo é um enfrentamento, e o confronto se faz gesto, como uma onda que avança e me arrasta para a escuridão. Avançar é apenas aceitar que estamos expostos pela fome, pela espera de um olhar que compreenda. Teus olhos me revelam em segredo. Temo o toque pela falta do teu, e sinto ira da tua verdade pela ausência da minha. Meu fôlego é curto. As lágrimas cessam, mas resiste um profundo lamento, como se algo tivesse partido de mim sem jamais ter sido nomeado.
— Edimilson de Almeida Pereira, no livro “Relva”. Belo Horizonte Mazza Sans Chapeau, 2015.
Nikolai Astrup (Norwegian,1880-1928)
A Morning in March, 1920
Oil on canvas
*soft abyss [fragile embrace of the void], Abstractjity (2025)
A realidade é um espelho turvo entre o sentir e o compreender. Compreender é sempre desfazer o encanto – deixar o sonho morrer aos poucos. O que desejo, por vezes, temo: sombra do que sou, vestígio de um sonho.
Não há um limiar entre a realidade e a lente desfocada pelo desejo – o de possuir algo que transforme até a mais cruel necessidade de amar.
Os sonhos existem para sustentar o vazio; por isso, alimentamo-los de possibilidades. A imaginação é o que nos salva do silêncio, mas também o que o prolonga. Uma possibilidade flutuante diante da névoa do presente: dá forma ao nada e, ainda assim, o nada permanece em nós.
Com o passar do tempo, há qualquer coisa que insiste em durar, mesmo depois que o rosto se apaga. O pensamento antecede o sono como quem chega antes do próprio corpo – e o sonho, quando vem, já me encontra cansada de pensar. Há uma doçura em atribuir sentido àquilo que carece de direção.
Mas se um dia não formos nós a narrar a nossa própria incerteza, talvez já não saibamos quem fomos. Tudo o que foi gracioso terá perdido o brilho da ilusão, e nós, cansados de imaginar, seremos apenas o eco do que outrora sonhamos.
A verdade do outro soa como um delírio – uma aceitação do sonho. E aceitar a palavra como sentença para o que sentimos é perder o equilíbrio entre a realidade e o sonho que a sustenta.
Então o sonho, desperto, se desfaz devagar, como as palavras que profiro sem saber se, de fato, são minhas. Entre a realidade e o desejo há apenas um sopro: o instante em que o coração crê. Depois, tudo se apaga; a realidade não entrega e resta apenas o pensamento, silencioso, a contemplar o próprio abismo...
Se acaso houver uma saída para esta insustentável condição de existir entre o sentir e o compreender, talvez a vida ganhe outra cor, não mais viva, apenas diferente.
Há em mim um modo estranho de sentir o amor, como quem observa de longe um rio sereno que corre dentro do peito. Não o toco, apenas o penso; e, pensando, logo o perco.
As promessas quebram-se antes de nascer, mas os pés permanecem firmes, não por força, mas por hábito. É o chão que me sustenta, porque nada mais o faz. Amar, talvez, seja aceitar este engano com ternura: dar-se ao insustentável com a lucidez de compreender que o amor não se ancora.
Porque o coração, após o pensamento, é já outro; e o que ama não é o que existe, mas a possibilidade do existir.
A Cadeira de Balanço
Parecia estar enferrujada. A cada ida e vinda, a cadeira emitia um som metálico, idêntico ao ranger de uma dobradiça oxidada, como se o tempo tivesse impregnado nela sua própria trilha sonora. O balanço avançava só para, inevitavelmente, retornar. Nessa repetição, a tarde envelhecia junto às memórias.
Ela adorava sentir a brisa da tarde acariciando seus cabelos enevoados; com os olhos semicerrados, deixava-se levar não só pelo embalo da cadeira, mas pelas lembranças que vinham e iam, tal como o conhecia. A luz do sol atravessava as janelas, filtrada pelas cortinas, desenhando formas geométricas nos arranjos de camélias meticulosamente posicionados – as mesmas camélias, a mesma mesa de centro, o mesmo chão de cerâmica envelhecido. Tudo ali resistia ao tempo, mas não escapava do desgaste.
Ao abrir os olhos, surpreendeu-se com a lembrança dele ocupando a poltrona. Era sempre assim: ele voltava, mas apenas em pensamento, como costumava ser. A música que tocava ao longe, no rádio – suave, insistente –, parecia puxá-lo de volta de algum canto da memória. E, com ele, vinham também as sensações: o calor da saudade, o vento morno que atravessava a sala como se acompanhasse sua passagem. Ela envelhecera; ele, não, porque lembrança não envelhece, apenas se repete.
Ela o observava pela lente cruel do tempo, com um sorriso maduro, talvez conformado. Ele sempre fora o mesmo: ia, voltava e insistia com cuidado e distância, mas sem romper o ciclo, como quem tenta conter o tempo entre os dedos, nos textos, nas melodias. E ela ficava ali, balançando. Como a cadeira, resistindo; como o amor, aguardando. Como a dor, nunca partia de todo.
E o tempo passou.
Num ímpeto, despertou. Já não estava mais na cadeira de balanço. Era ela agora quem ocupava a poltrona.
Mas o ranger da cadeira permanecia, ecoando no canto da sala.
Sozinha, se despedia.
*Floating Orange-Head, Leiko Ikemura (2007).
Michael Banning, Light at the Top of the Stairs, 2024, Oil on canvas over panel
Landing on Silver Island, III/22
queria/obsidiana
escrever-te como uma primeira essência com a precisão cirúrgica da obsidiana cortar-te de algum vulcão – meu peito deslocar as massas de ar que nos pesam e menos nos libertam quando a meta é o destino iluminar uma ideia de leveza se te escrevo aquecer o peito sem me cortar e fugir da rigidez do que nos rodeia afinal as palavras pesam mais em países frios não me abandonar às evidências tudo muda meus braços recebem e dão cortar se preciso for esta precisão cirúrgica da solidão não te perco sobreviver é um engano amar é o propósito
Yayoi Kusama, The Sea at Evening Glow (1988)
Fallen stars
simon faithfull