What have I done to deserve this? {BelialxMichael
Michael estava fascinado. Por mais que já tivesse acontecido de encontrar Belial anteriormente, era a primeira vez que o tinha só para si. Só para si no sentido de estar ali, sentado à sua frente, numa sala onde ninguém os poderia atrapalhar caso começassem a conversar. Certo, já estavam conversando, mas não os assuntos que Michael queria. Não se sentia capaz de zombar por estar no lugar que outrora pertencera a ele. Na verdade o que existia era um orgulho bobo, como uma criança que atinge um level superior num jogo em que só seu irmão mais velho conseguia chegar. Deu uma risada, levantando da mesa e arrastando a cadeira que jazia diante dela, fazendo um barulho descompensado de mateira contra cerâmica, riscando em um cinza sem graça o traçado feito pelos pés do móvel. Sentou-se então de frente com ele, seu olhar vagando pelo rosto do hospedeiro escolhido pelo anjo caído.
— A última vez que nos encontramos foi em mil trezentos e dezesseis. Eleição do papa João XXII. Suspeito que Lúcifer tinha a intenção de sabotar o conclave. Lembra disso? Eu lembro que você me disse oi, na verdade. Mas devo ter gaguejado e não consegui falar mais um murmúrio ininteligível. — Suspirou copiosamente, sequer percebendo o quão assustador soava por lembrar perfeitamente as condições do último encontro que tivera com seu antecessor. Duvidava que ele fosse lembrar, mas não ficaria magoado se fosse o caso. Não era como se a admiração fosse mútua, afinal.
Ignorou com afinco a conversa sobre subordinação. Não se importaria nem um pouco se Belial fosse contra todas as ordens impostas por ele na escola. Não era sempre que encontrava uma criatura tão antiga e que era referencial direto para ele. Belial, o ex General dos exércitos do céu. Soava bem. — Mas me diga, Belial, quais seus planos terrenos atuais? — Perguntou casualmente, como quem interpela um velho amigo de infância na rua. Michael não era um bom exemplo de comunicação pessoa, então era de se esperar que não soubesse como raios tratar alguém que, apesar de ser quem era, continuava sendo inimigo do céu.
A conversa havia tomado um rumo inesperado, por mais que soubesse sobre o outro tudo o que lhe fora permitido descobrir, não esperava receber aquele tipo de tratamento. Eram inimigos, ou melhor, rivais, mas ainda assim era possível classificar aquela interação como amigável. Obviamente, por culpa de toda aquela postura convidativa (e um tanto fanática) do outro, que fazia até mesmo Belial - que não era nenhum rei das boas maneiras quando se tratava de confraternizar com o inimigo - ficar desarmado. Havia relaxado a postura inconscientemente, assumindo algo muito próximo da displicência, ainda havia aquela velha ferida latejando sobre seu orgulho, mas a bem da verdade, todo aquele papo estava massageando seu ego. O que era contraditório, e ainda assim, verdadeiro.
Lembrava-se, não com tantos detalhes, mas lembrava-se. Se tivesse sido ele a relembrar o passado, não teria-o feito com tanta animação. Michael estava mostrando-se muito mais simples do que imaginara ser possível e isso tornava-o mais difícil de se decifrar "Falando desse jeito, faz com que eu me sinta um rockstar. Por favor, diga-me que não pretende arrancar sua própria camisa e pedir para que autografe seus seios" Belial lidava com o desconforto de uma maneira clichê; a pilhéria era seu contra-ataque. E se tivesse de admitir algo naquele momento, diria que ser perscrutado por aquelas orbes azuis era incrivelmente desconfortável, principalmente com o outro estando tão mais próximo do que deveria estar ao se tratar com um Caído.
O tom casual e familiar adotado por Michael causou-lhe calafrios, e foi impossível não arquear as sobrancelhas de forma inquisitiva em resposta. Queria gritar em tom agudo e infantil um grande "Não somos amiguinhos, Miguel, então não me trate como tal" Mas além de temer causar lágrimas ao outro, tinha que zelar por sua imagem pessoal. Não era desejável ter a alcunha de histérico adicionada a tantas outra que já possuía. Reprimiu-se e resignou-se, voltando ao básico, à ironia "Porque sendo tão íntimos quanto somos, é óbvio que eu lhe conte tudo, não é?''
















