em uma segunda de fevereiro, liguei pra minha mãe no meio da tarde, angustiada: "mãe, posso deixar as meninas pra dormir com você hoje?" e como quem nunca nega esse pedido, ela me disse: "óbvio".
saí do trabalho dizendo que chegaria tarde na terça, pedi pra babá arrumar as meninas e as deixei na minha mãe. num silêncio sepulcral interno, externamente elas foram berrando no caminho.
hoje precisava ser o fim. e respirava fundo, mas meu peito batia descoordenado. "vim mais cedo, tou te esperando em casa. cê vai demorar?", eu falei assim que ele atendeu. "ué? não. tou chegando. não entendi. eu achei que tinha que chegar as 18h pra ficar com as crianças."; "hmm, as crianças tão na minha mãe. aqui a gente conversa.", me limitei a responder.
de banho tomado e com meu bom e velho short jeans, sentei da cabeceira da cama e fiz algumas anotações objetivas pra conversa. lembrei das conversas de separação, no exato mesmo lugar. quis chorar, me contive. segui tentando controlar a respiração. fiz algumas orações. ele chegou, se assustou com o silêncio, me deu um beijo na testa e sentou na minha frente tirando o sapato e camisa social.
-não consigo mais continuar assim. seguindo rotina, cumprindo tabela e dando check na agenda. despachei as meninas, precisamos conversar.
-fez bem. eu quero te ouvir. você quer separar?
-eu quero te ouvir também. acho que a gente precisa se perguntar algumas coisas. (ele pegou minhas duas mãos e segurou, olhando bem no fundo do meu olho. eu engoli o choro outra vez) por que cê acha que a gente ainda tá aqui?
-a gente eu não sei, mas eu tou aqui porque amo você, porque nós somos melhores juntos e porque te acho gostosa pra caralho.
-é, acho que a gente tá aqui pelos mesmos motivos. mas você quer interromper a conversa pra transar e eu queria resolver isso de vez.
-linda, o que você quer? especificamente.
-pedir perdão, colo e abraços apertados que vão me livrar da exaustão do dia. e queria que você quisesse me ajudar.