O Nariz Perante os Poetas
Cantem outros os olhos, os cabelos
E mil cousas gentis
Das belas suas: eu de minha amada
Cantar quero o nariz.
NĂŁo sei que fado mĂsero e mesquinho
Ă este do nariz,
Que poeta nenhum em prosa ou verso
CantĂĄ-lo jamais quis.
Os dentes são pérolas,
Os lĂĄbios rubis,
As tranças lustrosas
São laços sutis
Que prendem, que enleiam
Amante feliz;
à colo de garça
A nĂvea cerviz;
Porém ninguém diz
O que Ă© o nariz.
(As faces sĂŁo tintas
De rosa e de liz,
Ou jĂĄ tĂȘm de jambo
Mimoso matiz;
SĂŁo cor de safira
Os olhos gentis
E a cor do nariz
Ninguém vo-la diz.)
Beija-se os cabelos,
E os olhos belos,
E a boca mimosa,
E a face de rosa
De fresco matiz;
E nem um sĂł beijo
Fica de sobejo
Pâro pobre nariz;
Ai! pobre nariz,
Ăs bem infeliz!
Entretanto, â notai a sem-razĂŁo
Do mundo, injusto e vĂŁo: â
Entretanto o nariz Ă© do semblante
O ponto culminante;
No meio das demais feiçÔes do rosto
Erguido Ă© o seu posto,
Bem como um trono, e acima dessa gente
Eleva-se eminente.
Trabalham sempre os olhos; mais ainda
A boca, o queixo, os dentes;
E â mĂseros plebeus â vĂŁo exercendo
OfĂcios diferentes.
Mas o nariz, fidalgo de bom gosto,
Desliza brandamente
Vida voluptuosa entre as delĂcias
De um doce far-niente.
SultĂŁo feliz, em seu divĂŁ sentado
A respirar perfumes,
De bem-aventurado Ăłcio gozando,
NĂŁo tem inveja aos numes.
Para ele produz o rico Oriente
O cedro, a mirra, o incenso;
Para ele meiga Flora de seus cofres
Verte o tesouro imenso.
Amante fiel sua, a mansa aragem
As asas meneando
Anda pâra ele nos vergĂ©is vizinhos
Aromas apanhando.
E tu, pobre nariz, sofres o injusto
SilĂȘncio dos poetas?
Sofres calado? nĂŁo tocaste ainda
Da paciĂȘncia as metas?Nariz, nariz, jĂĄ Ă© tempo
De ecoar o teu queixume;
Pois, se nĂŁo hĂĄ poesia
Que nĂŁo tenha o seu perfume,
Em que o poeta Ă s mĂŁos cheias
Os aromas nĂŁo arrume,
Por que razĂŁo os poetas,
Por que do nariz nĂŁo falam,
Do nariz, pâra quem somente
Esses perfumes se exalam?
Onde, pois, ingratos vates,
AcharĂeis as fragrĂąncias,
Os balsĂąmicos odores,
De que encheis vossas estĂąncias,
Os eflĂșvios, os aromas
Que nos versos espargis;
Onde acharĂeis perfume,
Se nĂŁo houvesse nariz?
Ă vĂłs, que ao nariz negais
Os foros de fidalguia,
Sabei, que se por um erro
NĂŁo hĂĄ nariz na poesia,
Ă por seu fado infeliz,
Mas nĂŁo Ă© porque nĂŁo haja
Poesia no nariz.
Atenção pois aos sons de minha lira,
VĂłs todos, que me ouvis,
De minha bem-amada em versos dâouro
Cantar quero o nariz.
O nariz de meu bem é como... oh! céus!...
Ă como o quĂȘ? por mais que lide e sue,
Nem uma sĂł asneira!...
Que esta musa estĂĄ hoje uma toupeira.
Nem uma idéia
Me sai do casco!...
Ă miserando,
Triste fiasco!!
Se bem me lembra, a BĂblia em qualquer parte
Certo nariz ao LĂbano compara;3
Se tal era o nariz,
De que tamanho não seria a cara?!...E ai de mim! desgraçado,
Se o meu doce bem-amado
VĂȘ seu nariz comparado
A uma erguida montanha:
Com razão e sem tardança,
Com rigores e esquivança,
Tomarå cruel vingança
Por essa injĂșria tamanha.
Pois bem!... Vou arrojar-me pelo vago
Dessas comparaçÔes que a trouxe-mouxe
Do romantismo o gĂȘnio cĂĄ nos trouxe,
Que pâra todas as cousas vĂŁo servindo;
E à fantasia as rédeas sacudindo,
Irei, bem como um cego,
Nas ondas me atirar do vasto pego,
Que as romĂąnticas musas desenvoltas
Costumam navegar a velas soltas.
E assim como o coração,
Sem ter corda, nem cravelha,
Na linguagem dos poetas
A uma harpa se assemelha;
Como as mĂŁos de alva donzela
Parecem cestos de rosas,
E as roupas as mais espessas
SĂŁo em verso vaporosas;
E o corpo de esbelta virgem
Tem feitio de coqueiro,
E sĂł com um beijo se quebra
De tĂŁo franzino e ligeiro;
E como os olhos sĂŁo flechas,
Que os coraçÔes vão varando;
E outras vezes sĂŁo flautas
Que de noite vĂŁo cantando;
Pâra rematar tanta peta
O nariz serĂĄ trombeta...
Trombeta o meu nariz?!! (ouço-a bradando)
Pois meu nariz Ă© trombeta?...
Oh! nĂŁo mais, Sr. poeta,
Com meu nariz sâintrometa.
PerdĂŁo por esta vez, perdĂŁo, senhora!
Eis nova inspiração me assalta agora,
E em honra ao teu nariz
Dos lĂĄbios me arrebenta em chafariz:
O teu nariz, doce amada,
Ă um castelo de amor,
Pelas mãos das próprias graças
Fabricado com primor.
As suas ventas estreitas
SĂŁo como duas seteiras,
Donde ele oculto dispara
Agudas flechas certeiras.
Em que sĂtios te pus, amor, coitado!
Meu Deus, em que perigo?
Se a ninfa espirra, pelos ares saltas,
E em terra dĂĄs contigo.
Estou jĂĄ cansado, desisto da empresa,
Em versos mimosos cantar-te bem quis;
Mas nĂŁo o consente destino perverso,
Que fez-te infeliz;
EstĂĄ decidido, â nĂŁo cabes em verso,
Rebelde nariz.
E hoje tu deves
Te dar por feliz
Se estes versinhos
Brincando te fiz.
                    Bernardo Joaquim da Silva Guimarães, 1858