Eu não temo a tempestade!
Ela fala uma língua que minha alma compreende.
Enquanto muitos fecham as janelas, eu as abro.
Enquanto muitos procuram abrigo, eu observo o céu se vestir de cinza como quem contempla uma obra de arte.
Há algo de sagrado nas nuvens carregadas, na chuva que cai sem pedir licença, no vento que desalinha certezas e espalha pelo mundo os pensamentos esquecidos.
Tenho fascínio pelas noites profundas, aquelas em que o escuro não assusta, mas acolhe.
No silêncio das sombras encontro abrigo, como se a escuridão conhecesse segredos que a luz jamais foi capaz de guardar.
Amo o frio que toca a pele devagar, o cheiro da terra molhada, o som das gotas desenhando caminhos nas janelas, o céu nublado que esconde o horizonte e transforma o mundo em mistério.
Há beleza na melancolia das tardes cinzentas, na água correndo pelos telhados, nos rios que seguem seu curso sem pressa, nas lembranças que emergem como reflexos
sobre uma superfície tranquila.
E talvez seja por isso que também amo as coisas antigas:
livros com páginas amareladas,
fotografias marcadas pelo tempo,
objetos que carregam histórias em silêncio.
Tudo aquilo que envelheceu sem perder a alma.
Porque existe poesia no que resiste.
Nas tempestades que passam.
Nas pedras moldadas pela água.
Nas memórias guardadas pelo tempo.
Eu não temo a tempestade.
Sou feita de céu nublado e sonhos antigos,
de chuva persistente e noites insones,
de frio sereno e águas profundas.
E quando os trovões ecoam ao longe, não ouço ameaça.
Ouço o chamado de algo familiar, como se o próprio universo sussurrasse:
"Você pertence às coisas que carregam profundidade.
À beleza que não precisa brilhar para existir."