“Ele sorriu de forma compreensiva – muito mais do que compreensiva. Era um daqueles raros sorrisos com o ar de eterno consolo, do tipo que você só encontra umas quatro ou cinco vezes na vida. Parecia encarar a eternidade do mundo inteiro por um instante, e então se concentrava em você com uma irresistível tendência a seu favor. Parecia compreendê-lo até o ponto em que você desejava ser compreendido, confiar o tanto que você gostaria que confiar em si mesmo, e assegurá-lo de haver transmitido exatamente a impressão que, em seu melhor momento, você desejaria passar.” O dono do sorriso, descrito minuciosamente pelo escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald, é Jay Gatsby, o misterioso bilionário de West Egg, Long Island. No trecho acima, retirado do livro O Grande Gatsby, Nick Carraway, aspirante à romancista e acionista da Bolsa de Valores de Nova York, relata suas impressões após o primeiro encontro com o protagonista. Lançada este ano, a adaptação do diretor australiano Baz Luhrmann homenageia o trabalho de Fitzgerald reproduzindo, quase integralmente, suas palavras, inclusive as proferidas por Carraway como narrador. A literatura somada ao desempenho de atores como Tobey Maguire, Leonardo DiCaprio e Joel Edgerton resumem os elogios que tenho sobre o longa. Infelizmente. Erros grotescos de continuidade, abuso de recursos visuais e a descaracterização demasiada da Era do Jazz na trilha sonora do filme inviabilizam a reverência ao clássico literário.
Gatsbys
Há quase 40 anos, Francis Ford Coppola e Jack Clayton também se aventuravam na reprodução da história de Jay Gatsby e Daisy Buchanan, interpretados por Robert Redford e Mia Farrow. Na época, a produção também não agradou aos críticos. Em termos comparativos, a última versão de Daisy Buchanan, que, convenhamos, possui variações tão chocantes quanto os tons de branco na palheta de cores, foi agraciada com os traços de Carey Mulligan para fins comerciais. Os poucos esboços de emoção da personagem (suspiros, olhares apaixonados e juras de amor declaradas em forma de conversas triviais) são compactados no trailer para enganar os desavisados, que acreditam essa seja uma grande mulher, não apenas em fantasia.
Gatsby e o playboy Tom Buchanan, vividos por Leonardo DiCaprio e Joel Edgerton, respectivamente, são responsáveis por evitar que espectador desista da trama antes do final das duas horas e meia de produção. Neste momento, aproveito para ressaltar a genialidade de ambos os atores, que exploraram as facetas menos evidentes das personalidades criadas por Fitzgerald. Em minha opinião, mais do que o sensível e inseguro Gatsby e do que o ingênuo e leviano narrador de Tobey Maguire, o destaque é Joel Edgerton, que encontrou o ponto de equilíbrio entre a arrogância e prepotência da alta sociedade nova-iorquina da década de 1920 e o carisma do cafajeste e destemperado Tom Buchanan.








