James Joyce - Dubliners

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James Joyce - Dubliners
Primeira publicação do conto “The sisters”, na revista The irish homestead, em 13 de agosto de 1904
#jamesjoyce #dubliners #dublinenses #thedead #osmortos
edição batutona de Dubliners, ilustrada por Stephen Crowe
Eu, falo, James e Joyce/
Lendo James e ouvindo Joyce. Eu, falo, James e Joyce.
“Mãe” de Dublinenses/
Quem era a mãe pálida por natureza e inflexível em suas maneiras? Para Joyce, todas. Por trás da palidez feminina não se esconde o brilho ofuscante do falo? O brilho cega, e, na escuridão, a inflexível voz não torna única qualquer mãe? James ouvia o talento da sua e Joyce em sonho a flechou? Rompeu o círculo glacial de suas prendas e lhe ofereceu existência luminosa? James foi o singular bombom Turkish Delight que aplacou seus anseios? Depois desse dia, James Joyce começou a escrever. James, ex-existia. Joyce, surgiu depois, com lápis e borracha na mão, entonando suas histórias. Joyce ajudava James. James era o desejo. Joyce, o gozo. O senhor Kearney representa a possibilidade do par simbólico, a via do desejo e do conto. A letra? James Joyce. Devlin, o gozo ou toda mãe. Comprou vinte e quatro olhos e doze ouvidos para o último concerto. Tentou, em vão, dar som e imagem a sua castração? Ensombrou as letras do programa e conferiu alto custo a seu poder e fama. Gastou o que não tinha e colocou brilho demais à frente do vestido de Kathleen. Kathleen é efeito de letra. Muito talentosa para a música, crê no renascimento da língua irlandesa. A Kathleen dá-se o poder que não se tem. Ela não pode devolver a Holohan a imagem finda de seu corpo manco. Pode dedilhar no piano uma completa série de recitais, mas o valor, da música, ela não tem. Kathleen, oito guinéus e, como efeito, uma apresentação de quatro grandes recitais? Impossible! James Joyce empunhou o ato com seu retrato. A lesa manca de Holohan reencontrou em Fitzpatrick a estrutura dos três espetáculos. Dos quatro guinéus restados devolveu a função ao falo. Devlin gozou e esperneou, mas não quebrou Joyce, nem a palavra. A moeda e o desejo da escrita de James reequilibraram-se no guarda chuva moral de O'Madden Burke. O'Madden Burke e o senhor Kearney deram o tom da narrativa. Respeitados personagens não trocaram uma palavra na trama. A lei não toca o gozo. Entre o real e a imagem, Joyce? Entre o sentido e o simbólico, a escrita de James Joyce?
"Eveline", de James Joyce
Ela sentou-se à janela assistindo à noite invadir a avenida. Sua cabeça descansava contra a cortina e em suas narinas estava o odor de cretonne empoeirado. Ela estava cansada.
Algumas pessoas passavam. O homem da última casa passou a caminho de sua moradia; ela ouviu o ruído seco de seus passos pelo pavimento de concreto e depois o ouviu pisotear o caminho de cinzas antes das novas casas vermelhas. Tempos atrás ali havia um campo no qual eles costumavam brincar todas as noites com os filhos de outras pessoas. Então um homem de Belfast comprou o campo e construiu casas – não como as pequenas casas marrons deles, mas esplêndidas casas de tijolos com telhados brilhantes. As crianças da avenida costumavam brincar juntas naquele campo – os Devines, os Waters, os Dunns; o pequeno Keogh, o aleijado, ele e seus irmãos e irmãs. Ernest, porém, nunca brincava: ele era muito crescido. Seu pai costumava caçá-los pelo campo com sua vara de espinheiro-negro, mas Keogh ficava alerta e avisava os irmãos quando via seu pai chegando. Mesmo assim eles pareciam ter sido bem felizes. O pai dela não era tão mal assim, e, além disso, a mãe dela estava viva. Isso foi há muito tempo; agora Keogh e seus irmãos eram todos crescidos; a mãe dela estava morta. Tizzie Dunn estava morta também, e os Waters voltaram para a Inglaterra. Tudo muda. Agora ela estava indo embora como os outros, ela estava deixando sua casa.
Casa! Ela olhou ao redor do quarto, relembrando todos os objetos familiares dos quais havia tirado o pó uma vez por semana durante tantos anos, pensando de onde diabos vinha toda aquela poeira. Talvez ela nunca mais visse todos aqueles objetos familiares dos quais ela nunca sonhou em separar-se. E ainda assim, durante todos aqueles anos, ela nunca descobriu o nome do padre cuja foto amarelada pendia na parede sob a harmônica quebrada, ao lado das promessas impressas da Beata Margarida Maria Alacoque. O padre havia sido amigo de escola do pai dela. Sempre que mostrava a fotografia para um visitante, ele passava por ela com uma frase casual:
- Ele está em Melbourne agora.
Ela havia consentido em ir embora, em deixar sua casa. Isso era sábio? Ela tentou pesar cada lado da questão. De um jeito ou de outro em sua casa ela tinha teto e comida; ela tinha aqueles que conhecera durante toda a sua vida. Claro que ela tinha de trabalhar duro, tanto na casa quanto no emprego. O que diriam dela nas Lojas quando descobrissem que ela fugira com um rapaz? Eles diriam que ela era uma tola, talvez, e sua vaga seria preenchida através de anúncios. Miss Gavan ficaria satisfeita. Esta sempre contava vantagem sobre ela, especialmente quando havia pessoas ouvindo.
- Miss Hill, você não vê que estas senhoras estão esperando?
- Anime-se, Miss Hill, por favor.
Ela não choraria muitas lágrimas ao deixar as Lojas.
Mas em sua nova casa, em um país distante e desconhecido, não seria assim. Então ela estaria casada – ela, Eveline. As pessoas a tratariam com respeito, então. Ela não seria tratada como sua mãe foi. Até agora, apesar de estar com dezenove anos, ela às vezes se sentia sob o perigo da violência de seu pai. Ela sabia que era isso que causava palpitações nela. Quando eles estavam crescendo, seu pai nunca lhe deu o suporte que dava a Harry ou Ernest porque ela era uma menina; mas depois ele começou a ameaçá-la e dizer que ele só a sustentaria por respeito à mãe falecida. E agora ela não tinha ninguém para protegê-la. Ernest estava morto e Harry, que trabalhava no ramo de decoração de igrejas, estava quase sempre em algum lugar do país. Além disso, a invariável discussão sobre dinheiro nas noites de sábado começou a cansá-la indizivelmente. Ela sempre dava seu salário inteiro – sete xelins – e Harry sempre mandava o quanto podia, mas o problema era conseguir obter algum dinheiro de seu pai. Ele dizia que ela costumava desperdiçar o dinheiro, que ela não tinha cabeça, que não lhe daria o dinheiro que ele conquistara com tanto esforço para que ela o desperdiçasse pela rua, e muitas outras coisas, pois ele geralmente era muito mau aos sábados à noite. No fim ele daria dinheiro a ela e perguntaria se ela tinha a intenção de comprar o jantar de domingo. Então ela teria de apressar-se o quanto podia para fazer o mercado, segurando firmemente em suas mãos a bolsa de couro negro ao abrir caminho no meio da multidão e voltar tarde para casa com sua carga de provisões. Ela tinha muito trabalho para manter a casa e garantir que as duas crianças pequenas deixadas aos seus cuidados iam à escola e se alimentavam regularmente. O trabalho era duro – a vida era dura -, mas agora que estava prestes a deixar tudo ela não achava que a vida era totalmente indesejável.
Ela estava prestes a explorar uma nova vida com Frank. Ele era muito amável, viril e sincero. Ela iria embora com ele no barco da noite para ser sua esposa e morar com ele em Buenos Aires, onde ele tinha uma casa esperando por ela. Como ela se lembrava bem da primeira vez que o viu; ele estava hospedado numa casa na estrada principal, que ela costumava visitar. Parecia que fora há apenas algumas semanas. Ele estava parado no portão com o quepe atrás de sua cabeça e o cabelo caído sobre o rosto de bronze. Então eles se conheceram. Ele costumava encontrá-la fora das Lojas toda semana e a acompanhava até a casa dela. Ele a levou para ver The Bohemian Girl e ela sentiu-se exultante ao sentar-se com ele numa parte diferente do teatro. Ele era demasiado fã de música e cantava um pouco. As pessoas sabiam que ele a cortejava e, quando ele cantava sobre uma moça que amava um marinheiro, ela sentia-se prazerosamente confusa. Ele costumava chamá-la de Poppens para se divertir. Para começar, havia sido uma alegria para ela ter um companheiro, e então ela começou a gostar dele. Ele contava fábulas de países distantes. Ele começara como um garoto de convés por uma libra ao mês num navio da Allan Line que ia para o Canadá. Ele contou a ela os nomes dos navios que ele esteve e os nomes de diferentes serviços. Ele havia navegado pelo Estreito de Magalhães e contou a ela histórias dos terríveis patagônios. Ele havia conseguido uma situação estável em Buenos Aires, ele disse, e havia retornado ao velho continente somente para as férias. Claro que o pai dela havia descoberto o affair e a proibiu de conversar com Frank.
- Eu conheço esses marinheiros, seu pai disse.
Um dia ele discutiu com Frank e, depois disso, ela tinha de encontrar seu amor secretamente.
A noite se aprofundou na avenida. O branco de duas cartas no seu colo cresceu indistintamente. Uma era para Harry; outra era para o seu pai. Ernest foi seu favorito, mas ela gostava de Harry também. Seu pai havia se tornado velho recentemente, ela notou; ele sentiria falta dela. Às vezes ele podia ser bem agradável. Não muito antes, quando ela havia ficado de cama por um dia, ele contou-lhe uma história de fantasmas e fez torradas na fogueira para ela. Outro dia, quando a mãe deles estava viva, todos eles fizeram um piquenique na colina de Howth. Ela se lembrava do pai colocando o capote da mãe dela para fazer as crianças rirem.
Seu tempo estava acabando, mas ela continuava sentada à janela, descansando sua cabeça na cortina, inalando o odor do cretonne empoeirado. Abaixo da avenida ela podia ouvir um órgão de rua tocando. Ela conhecia o ar. O estranho era que isso viria justamente naquela noite para lembrá-la da promessa que ela fizera à sua mãe, a promessa de manter a casa o quanto pudesse. Ela lembrou a última noite da doença de sua mãe; ela estava novamente no quarto escuro do outro lado do hall e ouviu um ar melancólico da Itália que vinha de fora. O tocador de órgão foi mandado embora e ganhou seis moedas. Ela se lembrou de seu pai adentrando orgulhosamente a casa dizendo:
- Malditos italianos! Vindo até aqui!
Ela refletiu sobre a lamentável visão da vida de sua mãe, que viria a dominar todos os seus pensamentos – aquela vida de sacrifícios banais que terminaria em loucura. Ela tremeu ao ouvir novamente a voz de sua mãe dizer constantemente com tola insistência:
- Derevaun Seraun! Derevaun Seraun!*
Ela pôs-se de pé num súbito impulso de terror. Escapar! Ela tinha de escapar! Frank a salvaria. Ele dar-lhe-ia vida, talvez amor também. Mas ela queria viver. Por que ela seria infeliz? Ela tinha direito à felicidade. Frank a tomaria em seus braços, a envolveria em seus braços. Ele a salvaria.
* * *
Ela ficou no meio da multidão oscilante na estação de North Wall. Ele segurava sua mão e ela sabia que ele estava falando com ela, dizendo alguma coisa sobre a passagem de novo e de novo. A estação estava cheia de soldados com bagagens marrons. Pelas amplas portas dos barracões ela viu a massa negra do barco depositada à parede do cais, com suas janelas iluminadas. Ela nada respondia. Ela sentiu sua bochecha pálida e fria e, num labirinto de angústia, ela pediu para que Deus a guiasse, que mostrasse a ela o que era seu dever. O barco soprou um longo e fúnebre assovio na névoa. Se ela fosse, amanhã estaria no mar com Frank, navegando até Buenos Aires. A passagem deles fora reservada. Poderia ela desistir depois de tudo o que ele fizera por ela? Sua angústia despertou uma náusea em seu corpo e ela seguiu andando, movendo os lábios numa prece fervorosa e silenciosa.
Um sino tocou sob sua cabeça. Ela sentiu Frank apertar sua mão.
- Venha!
Todos os mares do mundo caíram sob seu coração. Frank estava se afogando neles; ele a afogaria. Ela segurou a grade de ferro com as duas mãos.
- Venha!
Não! Não! Não! Isso era impossível. Ela agarrou o ferro com furor. Do meio dos mares ela soltou um grito de angústia!
- Eveline! Evvvy!
Ele correu além da barreira e chamou-a para segui-lo. Ele foi ordenado a continuar andando, mas ele ainda a chamava. Ela voltou seu rosto branco para ele; passiva, como um animal desamparado. Seus olhos não deram a ele sinal algum de amor ou adeus ou reconhecimento.
(JOYCE, James. Eveline. In: Dubliners. Glasgow: Granada, 1977.)
*De acordo com o site Irishgaelictranslator.com, Joyce inventou a frase, pois não há tal dizer em gaélico. Alguns acham que ela é uma corruptela do dizer irlandês “Is an deireadh é pian” (o fim do prazer é dor), mas não há consenso.
Roman Muradov illustration
Capa foda pro Dubliners
Dublinenses
Arábia, págs. 28 e 29
Meu coração disparava ao vê-la surgir à porta. Corria para o vestíbulo, apanhava meus livros e seguia-a. Conservava sua figura morena sempre à vista e, ao nos aproximarmos do ponto em que nossos caminhos se separavam apressava o passo e andava à sua frente. Isto repetia-se todas as manhãs. Nunca havia falado com ela, a não ser algumas frases ocasionais e, no entanto, para o meu sangue inebriado seu nome era um apelo irresistível. Sua imagem acompanhava-me mesmo nos lugares menos românticos. Nas noites de sábado, quando minha tia ia fazer compras no mercado, eu precisava acompanhá-la para ajudar com os pacotes. Caminhávamos pelas ruas iluminadas, acotovelando-nos com bêbados e mulheres que pechinchavam, em meio aos impropérios dos trabalhadores, aos gritos dos garotos que montavam guarda às barricas cheias de cabeças de porco e à voz fanhosa dos cantores de rua, que interpretavam uma canção popular sobre O'Donovan Rossa ou uma balada a respeito dos problemas do país. Todos esses ruídos convergiam numa única sensação vital para mim: imaginava conduzir meu cálice incólume, através de uma multidão, de inimigos. Certos momentos, seu nome brotava-me dos lábios em estranhas preces e súplicas que eu mesmo não compreendia. Meus olhos enchiam-se de lágrimas (não saberia dizer a razão) e, às vezes, uma torrente parecia transbordar meu coração e inundar-me o peito. Pouco me preocupava o futuro. Não sabia se falaria ou não com ela e, se o fizesse, de que modo revelaria minha tímida adoração. Meu corpo, porém, era uma harpa cujas cordas vibravam às suas palavras e gestos.
Após a corrida, pág. 47
Jogaram uma partida após a outra, lançando-se audaciosamente na aventura. Beberam à saúde da dama de copas e da dama de ouros, Jimmy sentia vagamente a falta de uma plateia, estavam tão espirituosos! Jogavam alto e os valores começaram a correr. Jimmy não sabia exatamente quem estava ganhando, mas sabia que estava perdendo. E a culpa era sua, pois confundia as cartas com frequência e os outros tinham de calcular os pontos para ele. Eram uns amigos infernais, mas seria bom se resolvessem parar: estava ficando tarde. Alguém levantou um brinde ao iate The Belle of Newport e outro propôs uma grande cartada final.
O piano silenciara. Villona devia ter subido ao convés. Foi um jogo terrível. Antes da última rodada, pararam para erguer um brinde à fortuna. Jimmy compreendeu que a disputa ficara entre Routh e Ségoin. Que emoção! Jimmy também estava emocionado: ia perder, é claro. Quanto havia apostado? Os rapazes puseram-se em pé, gritando e gesticulando, antes de completarem os últimos lances. Routh ganhou. A cabina oscilava com a algazarra dos jovens. Recolheram as cartas. Começaram então a juntar o que haviam ganho. Farley e Jimmy eram os maiores perdedores.
Sabia que pela manhã estaria arrependido mas, naquele instante, contentava-se com o descanso, com o negro estupor que iria descer sobre sua loucura. Com as têmporas latejando, apoiou os cotovelos na mesa e descansou a cabeça entre as mãos. A porta da cabina se abriu e apareceu Villona, numa auréola de luz cinzenta:
- Alvorada, senhores!