Férias. Casa. Família. Aquelas seriam basicamente as palavras que resumiram os últimos dois meses para Guido, além do alívio de finalmente poder falar sua língua materna e não atrair olhares confusos das outras pessoas. Era a segunda vez no ano que matava a saudade de sua mãe e suas tias; e, novamente, percebera que elas ficavam mais velhas, enquanto ele não mudara absolutamente nada. As vezes pensava que gostaria de transferir a juventude dele para elas - todas elas. Afinal, eram mais velhas. Precisavam mais do que ele. Outras vezes, gostaria de ter envelhecido junto dos amigos e família. Juventude eterna parecia uma grande virtude, e Guido se sentia grato em certas situações, mas ficava imaginando como seria ter envelhecido junto a Elise e Othelo. Ele se sentia um pouco deslocado… Fisicamente, não era um homem da sua idade, e tampouco era tratado como tal.
Ethereal continuava a mesma. O ambiente familiar, os bancos e jardins, os alunos caminhando pelos corredores; perto da janela, um moreno - talvez latino - conversava aos risos com uma garota que ele não conseguira identificar; do outro lado, uma loira alta passeava ao lado de uma criança, as duas entretidas numa conversa que Guido, conhecendo-as, imaginava ser sobre a vida alheia. O loiro contemplou o local, parte dele feliz por estar de volta, sentou no banco mais próximo e decidiu de concentrar na sua leitura atual até dar o horário de aula.
Diferentemente do que imaginava ocorrer, o homem não perdera seu emprego diretamente. Ao que retornara para os braços da Fada Madrinha, pedindo que ele perdoasse todas as suas falhas de caráter e prometera não mais se aproximar das criaturinhas de Ethereal que possuíam pouca idade para se relacionar com ele, fora recolocado como ajudante do professor substituto. Gemeu com a frase alheia. Ele agora seria um mero ajudante e nada mais do que isso. E mesmo que estivesse irritado por ter sido rebaixado, fora orientado por Elise — que começava a se tornar uma orientadora melhor do que qualquer um imaginou que a mulher pudesse ser assim que aceitara o emprego — a simplesmente aceitar. Uma frase que a outra lhe dera fora que ali, no ambiente escolar, ele não era nada. Urien não era nada além de um professor e deveria se portar como tal. Demorou para que compreendesse — recebendo sermões de algumas pessoas para que esta ideia entrasse em sua mente — e então aceitasse que nada mais era do que um subordinado. Encontrara, também, com aquele rebaixamento de função um tempo que sua mãe acreditou que poderia tirar para com sua filha que fora enviada para Ethereal. Agora havia chegado a hora de apresentar para a madrinha e o padrinho a pequena criatura — não que ele tivesse contado para eles o que pretendia ainda, claro.
Primeiramente, Elise; batendo na porta da sala da conselheira, mas entrando sem qualquer pudor, ele ergueu Valeree acima de sua cabeça, recebendo uma resposta negativa de sua amiga para o ato. Ele riu e o riso de Val indicava que não era de todo ruim aquela brincadeira. ❛ Onde está Guido? ❜ Questionou, imaginando que o homem estaria com Ostergaard ao chegar. Sabia que passara os últimos dias ao lado de seus familiares e que chegara à academia naquela manhã. A procura pelo outro acabou causando um pequeno alvoroço por parte dos dois adultos e do pequeno bebê que estava em seu colo. Acabaram encontrando o homem lendo em um canto reservado — e isso não era tão novo para o professor que cutucou Elise para indicar que o outro estava em um banco, distante de toda a balburdia da academia. A aproximação não fora sorrateira como ele desejava, pois a nova integrante da casa Sjöberg começara com os grunhidos de bebê. ❛ O que você está fazendo por aqui, Guido? Por que não me disse que voltou? Me esqueceu, é? Foi pra casa e esqueceu seu noivo? ❜ Perguntou ao se juntar ao outro no banco. Vez ou outra, ao olhar para Guido, ele se pegava imaginando se não voltara no tempo. O homem não possuía uma aparência que condizia sua idade. Preso no tempo, enquanto Othelo e até mesmo Elise envelheceram, Guido possuía sempre a mesma aparência de quando estavam no último ano de estudo. Era um tanto frustrante para aqueles cuja idade havia chegado e se instalado em cada músculo do corpo. Ou seja, era frustrante para Othelo. ❛ Vejo uma ruga ao redor de seus olhos, professor? ❜
A notícia da volta de Guido havia chegado aos seus ouvidos, todavia, sem saber exatamente o horário e o local em que ele apareceria, Elise optou por aguardar mais informações enquanto trabalhava. Não estava em seus planos atender alunos pelas próximas horas, contudo, podia aproveitar o tempo disponível para organizar papéis, limpar gavetas e remover imperfeições que fugiam aos olhos dos duendes do castelo. Travava uma batalha contra uma mancha no arquivo de metal quando Othelo fez sua entrada triunfal. A resposta natural de Elise, foi balançar a cabeça e abrir a boca para repreendê-lo por quebrar uma regra tão comentada pela conselheira: não tocar na maçaneta daquela porta. Ainda assim, quando pousou seu olhar na pequena Valeree, um sorriso brilhou em seu rosto. Como Othelo conseguira originar uma criatura tão delicada e inocente? O brilho, é claro, desapareceu quando o bebê foi erguido. “Se você derrubar essa criança, eu juro...!” ela ameaçou, aproximando-se para tentar criar uma barreira a prova de acidentes ao redor de Valeree. Uma vida, uma parte do futuro de Iraz, nas mãos do adulto mais irresponsável que Elise conhecia! Desde que teve conhecimento da existência da filha de Othelo, fazia questão de envolver-se no desenvolvimento da menina, mesmo que fosse apenas para garantir que ela não fosse tratada pelo pai como um brinquedo. Foi apenas quando Valeree voltou a ser carregada em uma posição segura que Elise dispôs-se a responder ao amigo. “Deixa eu ver...” começou, vasculhando a bolsa em cima de sua mesa. “Eu acho que ele não está aqui.” Com a ironia deixada no ar, sem expressões caricatas, guardou os materiais de limpeza e saiu castelo afora buscando o amigo recém chegado com Othelo.
E lá estava Guido, sentado em um banco, com a mesma aparência de quase duas décadas atrás. Vez ou outra, a imagem era desconcertante para Elise, que passava a notar mais os sinais na idade que tornavam-se cada vez mais marcantes em seu próprio rosto. “Olha só os meus garotos, quase todos juntos” falou, apoiando uma mão no ombro de cada um. Restava Alex, é claro, mas conseguir um tempo livre com dois de seus amigos de infância já era suficiente para lhe causar o sentimento de nostalgia. Se fizesse esforço, podia ver os anos se passarem naqueles jardins, percorrendo o primeiro contato que tivera com Alex, a primeira cantada que recebera de Othelo e o primeiro beijo apaixonado que trocara com Guido... O tempo havia se passado em um piscar de olhos e, mesmo que o filho de Clara mantesse a mesma maturidade e o viajante mantesse a mesma aparência, Elise sentia seu coração apertar ao reconhecer que a amizade nunca mais seria igual. O grupo, antes tão conhecido pelas personalidades diferentes e pelos atos irresponsáveis na escola, vinha se metamorfoseando e a conselheira temia que um dia isso fosse separá-los. Eventualmente, Othelo se tornaria um rei, Guido aparentaria ter a idade de Valeree... Seria irracional pensar que os obstáculos permitiriam que o laço entre os quatro não enfraquecesse. Elise umedeceu os lábios e tentou afastar pensamentos negativos. “Quando foi a última vez que eu disse que amo vocês?” perguntou, com um sorriso quase melancólico. “Enfim, Guido! Como foi a viagem?”