Escrevi muita coisa para o "nosso amor", mas como é possível escrever para o inexistente? Nunca existiu "nosso". Nunca existiu esse amor. Apenas da minha parte. Mas qual é a magia de amar sozinha?

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Escrevi muita coisa para o "nosso amor", mas como é possível escrever para o inexistente? Nunca existiu "nosso". Nunca existiu esse amor. Apenas da minha parte. Mas qual é a magia de amar sozinha?
No meu coração existe um cantinho que guarda as histórias que a boca não conta, um lugarzinho que às vezes é aconchegante, confortável e quentinho. Mas que também pode ser duro, desconfortável e frio. Guarda sorrisos, mas também as lágrimas, cheiros de flores e fedor de poluição, pessoas que vale lembrar e até às que tentaram quebrar ele. Tiveram perdas e recomeços, mas algumas perdas não tem nome e eu não posso retratá-las. E há dores que anunciaram os recomeços, que machucaram para curar, porque nem toda cura é bonita. Esse cantinho ainda tem muito espaço, para tudo que vier. Os inícios, os meios e os fins.
— Maria Eduarda em Relicário dos poetas.
ᒍᗩᑕI
As noites soavam frias e sem brilho, não haviam alegrias ou suavidade quando o Sol se escondia. Apenas ao amanhecer surgia a luz e a esperança de um dia mais leve. Mas que tristeza nos tomava ao pôr do Sol tão lindo, já se escondendo e esperando o breu, lá onde se escondia todos os medos e incertezas. Até aquele dia que a noite brilhou, tão linda quanto as estrelas que ressaltou. Iluminou minha vida de tal forma que nem mesmo eu acreditei, em formas tão belas e puras, aquela luz que fazia a noite ganhar sentido. Os caminhos se tornaram mais claros, os animais se acalmaram e as famílias se uniram à luz da Lua.
Jacy veio para iluminar, trazer vida e o despertar. A beleza dela mudou as noites gélidas e, agora, todos nós somos iluminados por seu brilho natural.
— Pataxó, Merj.
não alimente sentimentos que te machucam. não alimente sentimentos que te machucam. não alimente sentimentos que te machucam. não alimente sentimentos que te machucam. não alimente sentimentos que te machucam. não alimente sentimentos que te machucam. não alimente sentimentos que te machucam. não alimente sentimentos que te machucam. não alimente sentimentos que te machucam. não alimente sentimentos que te machucam.
Às vezes feridas antigas renascem de maneiras inesperadas e eu não consigo fingir ser forte. Os contratempos me deixam vulnerável, quebrando todas as barreiras que demorei para construir ao meu redor. A angústia volta sem avisos e demora para sair, sempre deixa uma bagunça, eu me sinto vazia e com aquela sensação de dor no peito. Mas apesar de tudo, ainda espero por dias tranquilos, os quais me darão uma vida leve, onde a brisa seja fresca e não uma tempestade.
— Maria Eduarda em Relicário dos poetas.
Apesar dos temporais que causei, me sinto aliviada pelo perdão. Eu havia me perdido há um tempo em longos devaneios para achar a paz, mas mal eu sabia que eu deveria mudar antes de tudo. Errei com todos, me reergui e consegui voltar ainda melhor. Quando me vi novamente naquela posição, olhando para cima e sorrindo de verdade, aquele alívio refrescante passou pelo meu peito e me fez respirar melhor. Deixei aquela versão quebrada no fundo do poço e consegui sair por conta própria do abismo que eu mesma havia criado.
— Maria Eduarda em Relicário dos poetas.
A cada novo ciclo, um fragmento do passado me perseguia. Estava acostumada a novas fases, novas pessoas e novas rotinas, mas uma parte de mim sempre parecia ter lembranças que deveriam ter sido esquecidas. E essa parte de mim que insistia em viver do passado sempre fazia meus ciclos serem encurtados, sempre me fazendo ter falsas esperanças ou péssimas escolhas. Até mesmo a finitude de todas as sensações ao meu redor pareciam ter relação com meus ciclos passados e acontecimentos mal resolvidos.
— Maria Eduarda em Relicário dos poetas.
Eu não consegui ler nas entrelinhas e fiz a pior escolha da minha vida. Achava que você melhoraria tudo, mas você chegou como um tornado e desabou tudo o que havia reerguido. Mas com todo esse tempo, a maturidade me fez enxergar coisas antes opacas. Me desencantei do falso conto de fadas que só existia na minha cabeça e finalmente pude me libertar dessa ilusão.
— Maria Eduarda em Relicário dos poetas.
Carrego bagagens de muitos anos, das quais nunca consegui me livrar, é como uma dor de cabeça fraca, mas duradoura. Se reerguer com todas essas lembranças parece quase impossível, é como se eu nunca pudesse superar o meu passado. Apesar de tudo já ter mudado, ainda parece estranhamente familiar. Os risos das crianças no parque, o cheiro de café forte, o canto dos pássaros e aqueles raros momentos de tranquilidade.
— Maria Eduarda em Relicário dos poetas.
Qual seria uma utopia pessoal? Um mundo onde fossemos um casal, andássemos de mãos dadas por ruas calmas, onde eu olhasse o quão linda você fica na luz do pôr do Sol e que eu pudesse sentir seus lábios a qualquer momento. Ou um mundo onde fossemos só duas adolescentes rebeldes que fogem de casa pra passar a noite juntas se divertindo de todas as formas possíveis. Ou em um reino antigo no qual fossemos rivais para o resto do mundo, mas em quatro paredes fossemos as melhores amantes da história. Talvez em uma sociedade mais evoluída, no qual o mundo inteiro saiba que a gente existe e o que nós somos. Em todas as possibilidades, sempre é você.
Tudo passou tão rápido que eu nem tive tempo de me sentir pertencida nos seus braços. Não tivemos tempo de criar raízes, fomos cortados antes mesmo disso. Sem abraços quentes, com cama vazia, sem palavras suficientes e com a mesma melancolia. Foi um trem de carga passando sem destino, caindo na falta de trilho, somos nós que começamos sem motivo e agora tudo que restou foi um gatilho. Você se foi junto com a brisa matinal, sem um “até mais tarde”, como se não fosse nada, você sumiu de mim.
— Maria Eduarda em Relicário dos poetas.
Às vezes o silêncio da casa parece um suspiro do mundo, um intervalo entre o caos e o descanso. Há dias em que esse silêncio me abraça como um cobertor leve, quase um carinho, mas há outros em que ele pesa. Parece gritar com os cantos, ecoar pelos móveis, como se a ausência se tornasse presença, uma presença incômoda, insistente, quase cruel. A casa vazia me traz uma falsa sensação de calma, até me lembrar daquele vazio do abandono. Uma sensação que ainda não aprendi a lidar perfeitamente, porque ainda sinto sua presença no meu dia. É estranho como a memória sabe esconder e mostrar as coisas com tanta precisão. Às vezes, me pego sorrindo para uma lembrança breve, quase invisível, uma risada sua na cozinha, o barulho da água fervendo para o café, o tilintar da colher na xícara. E então tudo quebra. Porque seu café já esfriou na sua xícara favorita. Os jornais continuam chegando, como se você ainda os lesse toda manhã, mas agora só servem para acumular poeira na soleira da porta. Seu terno, aquele que você mais gostava, está desbotado, esquecido no canto do armário. E há teias de aranha na porta do seu quarto, como se o tempo tivesse decidido selar sua ausência com fios delicados e implacáveis. Acalento é uma palavra bonita, às vezes a pronuncio em voz baixa, como se ela pudesse me dar o que promete. Procuro por ele nos livros, nas músicas, até no vento que entra pela janela durante a tarde. Tento transformar sua ausência em saudade mansa, mas é difícil. Mesmo tentando buscar acalento para conseguir algum tipo de felicidade, sua falta parece continuar me perseguindo. Mas sigo, porque a vida, mesmo ferida, insiste em florescer. E, vez ou outra, quando o sol entra em um certo ângulo, quando o silêncio da casa parece menos cruel, penso que talvez um dia a calma deixe de ser falsa e o acalento, enfim, me alcance de verdade.
— Diego e Maria Eduarda em Encontro de poetas.
Ultimamente o desânimo vem me alcançado rápido demais, às vezes no silêncio do meu quarto, ás vezes no barulho da multidão. Ele sempre me acha. Aquela força que tira todo meu equilíbrio e me faz afundar cada vez mais. Nos dias de sol, na chuva ou até em dias nublados, ele sabe exatamente como me afetar por inteira. Ainda não sei como lidar com ele, mas já me acostumei com a sua presença e isso me desmancha cada vez mais. Aquela sensação de que eu poderia dar o meu melhor, mas perdi todo o ânimo e acabei sendo um desastre como sempre. Ele me tira a vontade de falar, de escrever e de conviver com tudo ao meu redor, me fazendo ser uma pessoa que eu não sou e nem me identifico.
— Maria Eduarda em Relicário dos poetas.
Nos dias que eu mais quero poder ouvir o silêncio, é justamente quando o mundo resolve fazer barulho.
Queria poder acordar e ver que tudo isso só foi um pesadelo e eu ainda sou uma criança brilhante. Aquela que os pais se orgulham assistindo as apresentações, que desenha uma família feliz em uma paisagem colorida, que não tem problemas em ser ela mesma, que conversa com todo mundo e que sempre é lembrada. Mas sempre que o despertador toca, percebo que não fujo da realidade. Não sou um orgulho para a família e nem um exemplo, sou um ser humano falho e cheio de erros, não sou bonita como meu grupo de amigas, inteligente ou divertida, não sei lidar com as críticas e choro quando percebo que não consigo mudar, sou uma verdadeira bagunça colorida.
— Merj.
Mesmo no caos ainda tento curar as feridas de tudo que já me dilacerou, mas estranhamente a sua ferida parece não querer ir embora. Você foi embora e deixou tudo em desordem, seu cheiro no meu lençol bagunçado, o quadro incompleto que nunca terminamos de pintar, seu moletom no balde de roupas sujas, os cacos de vidro da última taça que você quebrou e a sensação persistente dos seus beijos na minha pele. E isso tudo ainda consegue soar como agridoce, mesmo que eu negue odiar a marca que você me deixou, a ferida que você fez ainda tem cheiro de baunilha e flor de lótus.
— Maria Eduarda em Relicário dos poetas.
Procurar algo ou alguém para suprir esse meu vazio parece uma corrida sem fim.