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@monologodafuga
nada em mim é calmaria quando muito sou trégua num semblante tranquilo que quase não convence por dentro ainda sou caos
nada em mim é calmaria não sou caminhada no parque não sou manhã de domingo sou fim de tarde de sexta-feira na principal avenida de uma grande cidade eu não sou preguiça e meia hora mais de sono sou acordar atrasada e não achar as chaves de casa e perder o ônibus e derrubar café na camisa branca quando muito sou trégua finjo leveza e distribuo conforto enquanto queimo por dentro
nada em mim é calmaria quando muito sou trégua não me encontro
perdoa o verbo no passado perdoa a visita que não aconteceu perdoa a ficha que não caiu e o adeus que não coube mas tem dia que a vida faz a gente lembrar que a vida é só hoje que é preciso se casar mês que vem ou amanhã que é preciso ligar agora que é preciso colocar a saudade em palavras antes que ela se coloque entre nós
perdoa o tempo que foi curto e o amor que demorou pra ser perdoa as reticências e as distâncias perdoa as máquinas e seus falsos batimentos cardíacos perdoa os deuses e suas esperanças fracas mas é que tem dia que começa e termina sem ninguém saber se deve ou não se diz ou não e a gente acaba confiando num dia seguinte que não vem
perdoa o dia seguinte perdoa os dias todos e segue leve que é preciso perdoar até a morte quando nos rouba de um caminho e não devolve razão ou motivo senão as engrenagens de um ciclo transformando todos os verbos em pretérito imperfeito transformando a voz e os traços e o riso e os abraços em memória segue leve que é preciso perdoar até a morte é preciso perdoar o que não foi
eu queria viajar pra bem longe e ser alguém que ainda não existe eu queria sair sem saber como vou voltar pra casa e me atrasar e dizer não e dizer sim e falar o que eu guardo pra ninguém e emudecer o que compartilho demais eu queria mudar coisas que já se acabaram e as coisas que ainda nem fiz eu queria viajar pra bem longe e conhecer alguém que ainda não existe pra quem eu ainda não existo eu queria viver um mundo fora de mim e de tudo que eu já sei eu queria ir além e conhecer coisas e pessoas e lugares novos coisas que ainda não existem eu queria ir além das palavras mas eu só sei escrever
eu não quero ser um líder eu não quero ser assertivo eu não quero ser o próximo steve jobs eu não busco excelência eu não quero a carreira ideal ou a profissão do futuro eu não quero viver nas horas vagas e ansiar pela sexta-feira e ter vontade de morrer aos domingos e aceitar quinze dias por ano de descanso controlado eu não quero andar por aí todos os dias com medo das minhas artérias se romperem do coração não dar conta com medo de não ter tempo de me aposentar ou visitar o nordeste com medo de não ter tempo de dizer tudo o que eu quero e conhecer o que me escapa e ler todos os livros e terminar aquela série eu não quero viver cada dia como quem nasce e morre com funções morais sociais profissionais e nunca transgride nunca mergulha nunca foge nunca se joga e não sabe o que é voltar a respirar depois de morrer um pouco só pra ter certeza de que ainda não é hora de desistir só pra lembrar que ainda tem mais qual é mesmo a diferença entre estar morta e ser privada de sua vida?
amadeu nunca soube que tinha nome de artista. arte, para ele, era desenhar cada uma das seis letras que lhe davam uma identidade. caprichava o primeiro A, tomava cuidado com a quantidade de ondas do M, o segundo A vinha custoso e o D já puxava um garrancho. terminava escrevendo EU sem perceber a força que tinha saber-se si.
tinha algumas palavras favoritas que formavam frases bonitas, mas não podia tê-las no papel. pensava em muita coisa para dizer, mas não era conversa para se ter com ninguém. era só pra falar com seu deus. não sabia que o nome disso era poesia. não sabia que podia ser escritor sem escrever.
quando sua neta aprendeu as letras na escola, fizeram um combinado: ele colocaria as palavras para fora do peito e a menina rabiscaria no caderno. passavam as horas depois do almoço sentados à mesa da cozinha. amadeu recitando bem devagarinho. amanda eternizando com sua caligrafia lenta e cuidadosa. e no fim de cada poema, ele assinava: A-M-A-D-EU. eu. não dominava as palavras, mas elas eram suas. e com as palavras, ele era. amadeu. artista.
amadeu e amanda escreveram um livro. lá onde eles moravam, ninguém sabia ler as palavras que eles tinham. amanda só conseguiu entregar o livro para o mundo muitos anos depois, com os estudos, as viagens, os ouvidos atentos e os corações abertos que encontrou pelo caminho. amadeu não viveu para ver. partiu sem saber que tinha nome de artista. partiu escritor que não escrevia. partiu poeta analfabeto. partiu sabendo-se si.
toda poesia que tinha para existir já existe tudo que surge de novo e só uma cópia melhorada ou piorada intencional ou não do que outra pessoa já sentiu antes de mim tudo que eu penso ou digo ou escrevo é só uma reciclagem é lembrança refeita do que vazou do peito de alguém
a morte é um número nove entre dez dezoito por minuto centro e noventa nos últimos onze meses sete por cento em relação ao ano passado cinquenta na noite de ontem
a morte é uma estatística de jornal vagabundo achatada entre a alta do dólar e a previsão do tempo esquecida entre amenidades escondida entre anúncios de apartamentos e garotos de programa
a morte é um substantivo feminino de cinco letras e duas sílabas morrer é um verbo que ninguém quer conjugar irregular e intrasitivo irremediável, intragável a morte é ferida aberta num peito nu tatuagem desbotada hematoma que não sara
a morte é um número tão próximo do infinito tão distante da realidade até que nos atinge no peito e derruba alguém próximo a morte é um número incontável e tem dias que o pior da morte é morrer e continuar vivo
primeiro foram as unhas que eu roía até que não houvesse mais unha nenhuma e escondia minhas mãos de criança tão pequenas e já conhecedoras da vergonha para que ninguém soubesse que eu mastigava e cuspia partes de mim que não sentiam nada
depois foi a pele: eu não cabia dentro dela e abria buracos pra ver se escapava se crescia se vazava se me servia eu mordia meus lábios eu mastigava minhas bochechas arrancava minhas feridas da cabeça das pernas do rosto tirando pedaços até que houvesse sangue ou dor mas a dor nunca veio eu nunca soube a hora de parar
eu me convenci de que ferir era necessário só pra me sentir viva só pra ver se eu cabia na pele nova que surgia mesmo sabendo que no fim eu destruiria outra vez tornando minhas cicatrizes visíveis permanentes exibindo por aí em cores e texturas e manchas tudo que não achou lugar dentro de mim
“você nem parece viado” ela diz como quem me protege daquilo que me encara no espelho como quem me perdoa por um defeito interno se a embalagem estiver intacta como quem me poupa do sangue que passeia debaixo da minha pele e do coração que bate quase calado - uma parte de mim se desfaz quase agradece o elogio que me ofende que me diminui que me corrige que me encaixa no que não sou que torna suportável olhar pra mim e não me ver - não me transforme no aceitável não amenize minha resistência não me perdoe por existir e nunca jamais me defenda de quem eu sou
Monólogo da Fuga
notas
Luana
"meu filho tá morto, eles falou" e morto está cada menino da periferia que ousa chegar aos 16 que tem a coragem de sobreviver todos os dias apesar do crack apesar da farda apesar da bala apesar das passagens todas que não levam a lugar nenhum
tem gente que já morreu tantas vezes que não economiza mais seus socos de resposta vão ter que me matar antes de ver minha cabeça baixa vão ter que me apagar se quiserem me ver no chão porque mais fundo esse poço não fica e eu já sei que pertenço à superfície engolindo o choro engolindo o ódio engolindo as lágrimas e a saliva e as palavras que já não expressam nossos gritos
porque viver é um exercício diário cheio de obstáculos na sensação de morte que é lavar o sangue da calçada mais uma vez de uma filha ou um irmão que não volta para o jantar da bala perdida de vocês que encontrou a cabeça de alguém que era mãe que era companheira que era mulher que era lésbica dos seus punhos fechados marcados para sempre na pele escura de Luana vomitando suas entranhas rasgando as feridas de uma vida toda sem revide sem voz sem vez
a vez de Luana não chegou e o filho dela talvez chegue aos 16 quebrando a profecia de um pm quebrando o pacto de sobrevivência do morro daí pra frente é mais um menino sem mãe e crime de policial não entra em estatística o ódio que cresce não vira número em jornal que ignora a guerra dos pés descalços ganha nota de rodapé "mulher morre após suspeita de agressão em abordagem" e depois vira banheiro de cachorro de colo fechando um ciclo que ainda sangra e recomeça todos os dias
chuva
pena verde disse que ia mandar limpeza que ia molhar os filhos querendo ou não e depois tudo ia clarear tem uma tempestade aqui e o peito aperta nas raízes úmidas do que eu me tornei que venha água deixa molhar que se for tempo pra enchentes eu aprendo a nadar
minha janela dá pra outra janela de um prédio que dá pra outro prédio tudo que eu vejo daqui são pequenos quadrados de rotinas achatadas emolduradas de alumínio e gesso encaixadas em buracos amarradas em esperas - todas as vidas são pequenas mortes esperando nascer alguma coisa interessante de uma janela que dá pra outra janela de um prédio que dá pra outro prédio de cimento e de gente de tijolo e de alma - são histórias de pedra sobre pedra sobre pedra de janelas e prédios de vidas e mortes
Monólogo da Fuga
(des)apego
com a tesoura nas mãos sou um perigo me desfaço de cabelos e sonhos corto pontas e crio novas raízes digo adeus ao que já não me acrescenta
com a tesoura nas mãos eu me reinvento desfaço do que já não sou: são curtos os fios do apego
eu não soube me prevenir de você eu não soube economizar meus lugares poupar meus gostos conter meus gestos não pude esconder minhas vontades ou fingir minhas reticências eu me doei pela nossa causa até descobrir que a causa era só minha - talvez eu saiba evitar desastres futuros talvez eu guarde meus anseios e afogue minhas urgências e tudo vira aprendizado e tudo segue o que é uma pena porque calculo minhas entregas e pondero minhas vertigens agora me previno sem saber mãos vazias para quem chegar o peito escasso de primeiras vezes os lugares tão cheios de ninguém gestos e gostos ponderados as vontades pela metade as reticências fingidas em cada diálogo que inicio sem causa sem graça sem entrega sem mim
Monólogo da Fuga
mariana chegou ao mar e se desfez se partiu em tantos pedaços pequenos de comoção e veneno de matéria e desilusão de desesperança que o ar preso no peito jamais virou suspiro e as ondas se coloriram de sua tristeza - mariana não conteve seus limites mariana se abriu num rio de lama mariana guardava tanta sujeira tanto desassossego tanto aperto no coração que as paredes não aguentaram: mariana se inundou mariana virou mar
Monólogo da Fuga