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Obrigado por me dar em vida, tudo aquilo que minha poesia criava.
Eu me sinto a deriva, completamente desligada dos meus sentimentos que antes me prendiam a você.
Quando penso em nossa história, sinto que tudo está coberto por uma névoa, como se fosse uma passagem de algum livro que li, e não algo que eu realmente vivi em minha pele.
Talvez porque não consigo conceber a ideia de que joguei tanto tempo e energia fora, observando, ajudando, estendendo minha mão, para não ter nem mesmo uma palavra amiga oferecida em troca.
Foram muito anos em que fui a conselheira, a companheira, a amiga, a namorada, e tudo que recebi em troca foi abandono, alguém que por pura covardia não ficou, alguém que acredita que amor é permanecer enquanto tudo está fácil.
Mas agradeço, agora finalmente aprendi a lição. Nunca devo me dedicar demais para ajudar alguém a crescer, porque no momento em que se tornar grande, o filho da puta ingrato vai ir embora sem nem olhar pra trás, e se sentindo muito bem consigo mesmo.
Precisamos ter consciência de que muitas mulheres morreram para que pudéssemos ficar vivas, termos liberdade de escolher e fazer o que quisermos.
Elza Soares
Não tenho medo da morte porque acho que não vou morrer. Vou virar purpurina. Elza Soares
Uma Manhã de Resiliência e Amor
Ancestralidade
Em uma periferia do Brasil, no dia 16 de julho de 1992, uma costureira, mãe de três filhos, despertava para celebrar a vida de sua única menina. Aquela mãe, uma mulher negra de pele parda e cabelos afro, carregava consigo as marcas de uma história de resistência. Ela foi fruto de um projeto de embranquecimento, das violências do estupro e do abuso que assombraram o Brasil após o sequestro. Uma mulher que transformava as adversidades em força, criando sua família em meio à vulnerabilidade que insistia em bater à porta.
Mãe de Vinícius, de nove anos, Millena, que completava seis, e Vítor, sua caçula, essa mulher estruturou sua vida com coragem, mesmo sem o apoio do pai de seus filhos, que havia partido ao nascimento do último. Naquele dia especial, o aniversário de Millena, ela acordou com um desafio: alimentar a família com os poucos recursos que tinha. Na cozinha, havia apenas quatro bifes — sem garantias para o almoço, e muito menos para o jantar.
Mas, como uma verdadeira rainha africana, ela arquitetava uma estratégia. Quando as crianças acordaram, foram recebidas por um aroma delicioso que vinha da cozinha. Ela os chamou e anunciou com alegria:
“Hoje o café da manhã será especial, em comemoração ao aniversário da Millena. Teremos bife com batatinhas e cebola.”
A euforia tomou conta das crianças, que não imaginavam que aquilo era tudo o que havia para comer. A manhã estava fria de inverno, e o café da manhã foi servido ao ar livre no cimento do quintal. Ali, onde pequena piscina plástica era instalada no verão, era um ponto de diversão da casa. O sol fazia o seu papel aquecer aquela família, naquele momento era celebrado afeto, risos e aconchego. Para Millena, aquele foi um dos dias mais felizes de sua vida e foi um dia inesquecível.
A costureira, com sua excelente administração e visão estratégica, continua o dia como uma verdadeira matriarca. Ela tem um ventre sagrado e fruto da ancestralidade, exercendo tudo o que foi treinado para entregar à sociedade: liderança, coragem e estratégia. Uma rainha africana clássica, administrando seus conflitos.
Com ferramentas e conhecimentos transmitidos pela oralidade e pela escrevivência, exercia o dom da comunicação vestual por meio da costura — nada menos do que arte em movimento. Reconhecida como a melhor costureira do bairro, ela trabalhou intensamente ao longo do dia. Cliente após cliente, reuniu os recursos necessários para transformar o aniversário de Millena em um momento inesquecível.
No fim do dia, a casa foi preenchida com bolo confeitado, docinhos, refrigerante, fotos e até uma roupa nova para aniversariante: uma saia de prega linda, combinada com uma blusa vermelha. Millena estava radiante, com o cabelo em um coque lateral, pronta para comemorar.
Essa história é um retrato da força que pulsa nas mulheres negras do Brasil, especialmente aquelas que lideram seus lares. A matrigestão — liderança, coragem e administração — é evidente e latente nas casas brasileiras, onde muitas famílias são administradas por mulheres negras. Em uma sociedade marcada pelo abandono afetivo, essas mulheres transformam adversidades em momentos de celebrações e resistência, conduzindo suas famílias à sabedoria e ao poder herdados das rainhas africanas.
Milla Alves… A filha da costureira
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