Múltiplas Identidades agora tem um site próprio – e ele está no ar.
Querides,
É com imenso carinho (e um pouquinho de nervosismo gostoso) que compartilho: a Múltiplas Identidades agora pulsa em um espaço só seu, totalmente independente, desenvolvido com atenção manual — literalmente, do zero, diretamente do celular — e com o cuidado de quem entende que cada detalhe comunica.
Esse site nasce como um abrigo para nossas conversas, reflexões, memórias gráficas e afetos compartilhados ao longo dos anos. Um lugar para existir com mais liberdade, sem silenciamentos algorítmicos ou censura velada.
Website sobre diversidades, identidades e dissidências. Explore tópicos como não-binariedade, amatonormatividade, exorsexismo, inclusão de g
O que você vai encontrar por lá?
✦ Publicações aprofundadas e acessíveis
Textos originais que exploram temas como não-binariedade, amatonormatividade, exorsexismo, neolinguagem, dissidências e identidade com uma linguagem clara, mas nunca simplista — pensados para informar, provocar e acolher.
✦ Um arquivo visual completo
Nosso acervo de postagens gráficas (memes, carrosséis, vídeos, quadrinhos traduzidos) agora está organizado em um feed leve e contínuo, com legendas, contexto e acessibilidade.
✦ FAQ detalhado
Uma seção dedicada às dúvidas mais frequentes sobre gênero, orientação, linguagem e expressão, elaborada com cuidado para ser didática, mas sem cair na superficialidade.
✦ Recursos em construção
A Carteirinha do Orgulho, por exemplo, é um projeto interativo que está em andamento e promete ser uma forma divertida e simbólica de afirmar quem somos.
✦ Estética e experiência pensadas com carinho
Visual limpo e responsivo, cores suaves e contrastantes, fontes legíveis e uma navegação fluida — tudo desenhado para acolher, inclusive em conexões e dispositivos modestos.
✦ Um espaço vivo, e nosso
Esse site não é um portfólio estático. É um protótipo contínuo, um campo fértil onde ideias e identidades florescem. Atualizações virão com o tempo, de acordo com o que for sendo possível cultivar.
Por que criar um site próprio?
Plataformas como o Instagram têm se tornado cada vez mais inóspitas para projetos como este. A lógica de alcance, punições invisíveis e a negligência com pautas de gênero tornam urgente a busca por outros caminhos. Esse site é um passo firme na construção de espaços digitais verdadeiramente nossos — com autonomia, dignidade e permanência.
A antiga página no Instagram permanecerá visível por um tempo, mas não será mais atualizada. Todo o conteúdo relevante será migrado para o novo site, e ali é onde o projeto continuará vivo, respirando novas formas.
Este é só o começo.
Criar um site inteiro manualmente, do zero, pelo celular, foi uma jornada desafiadora — mas absolutamente recompensadora. E ainda há muito por vir.
Se você já fez parte do projeto de alguma forma, mesmo que silenciosamente, sinta-se acolhide nessa nova fase. O espaço é seu também. Visite, explore, leia, critique, compartilhe. Vamos seguir juntes. 💕
Ferramenta para testar e compartilhar conjuntos de linguagem no formato do sistema APF (artigo, pronome e final de palavra), incluindo supor
A Yvies, do Tumblr/site @multiplasidentidades, generosamente ofereceu seu tempo e conhecimento para escrever o código da página linkada acima (cujo código fonte está disponível aqui), a qual permite testar e compartilhar conjuntos de linguagem personalizados, se adaptando até a elementos como "qlqr." e "-" ou a irregularidades como a utilização de "otimé" ao invés de "ótimé" ou de "um" ao invés de "umo".
Há várias frases diferentes, as quais rotacionam ao clicar na opção de alternar frases.
Também há um menu com mais explicações tanto sobre a aplicação quanto sobre conjuntos de linguagem num geral, para quem se interessar.
Comunidades e espaços NHINCQ+ inclusives de orientações, identidades de gênero e conjuntos de linguagem incomuns
[Título: Comunidades e espaços NHINCQ+ inclusives de orientações, identidades de gênero e conjuntos de linguagem incomuns]
(NHINCQ+ = Não-Hétero, Intersexo, Não-Cis, Queer e afins. É uma sigla feita com o mesmo objetivo que MOGAI, de incluir identidades da sigla LGBTQIAPN+ de forma resumida, pronunciável e que não prioriza certas identidades acima das outras. Pronuncia-se "nhin-quê-mais": ɲin̪-ke-mais ou ɲin̪-ke-maiʃ, dependendo do sotaque, no alfabeto fonético internacional.)
O Orientando às vezes ganha alguma atenção de pessoas lusófonas no dito "MOGAI Tumblr", que muitas vezes entram em contato com o assunto por vias anglófonas e não acham que existem espaços inclusivos do assunto na língua portuguesa. Esta publicação pretende introduzir a alguns desses espaços.
Orientando.org foi ao ar em maio de 2016. A proposta foi justamente trazer temas como orientações, identidades de gênero e linguagem de uma perspectiva inclusiva de pessoas com experiências mais incomuns. A ideia era construir uma equipe com o passar do tempo, mas as pessoas que se aproximaram do projeto ou decidiram fazer os próprios ou sumiram, e minha esposa (com quem comecei o site) ajuda mais com a parte técnica, então a maior parte do que está lá são produções minhas. Grupo de Matrix oficial disponível em #orientando:em.amplifi.casa.
O fórum do Orientando também foi ao ar em 2016. A ideia é ter um lugar livre de conexões com redes sociais onde é possível discutir questões NHINCQ+ e contribuir com o site. Quem quiser sugerir termos a serem incluídos em listas ou adições para páginas pode fazer isso por lá.
Colorid.es é uma rede social focada em pessoas NHINCQ+ que existe desde 2018, a qual permite publicações de até 2400 caracteres, sequências de postagens onde uma está ligada à outra, inclusão de avisos de conteúdo embutidos, uso de emojis personalizados colocados pela administração e etc. É uma rede social federada, isto é, é possível se comunicar com outros sites usando o mesmo protocolo, mas a ideia é ter essa vantagem de poder se comunicar com comunidades alheias enquanto temos uma moderação que não permite que discursos de ódio sejam disseminados.
Ajuda NHINCQ+ tem uma equipe um pouco mais ampla do que praticamente só eu, e a ideia é ser principalmente um formato de "ask blog", mas fora do Tumblr. (Também estamos abertes a pessoas novas na equipe via Matrix ou Discord, favor enviar uma dessas formas de contato pra cá caso haja interesse.)
r/neolinguagem foi uma iniciativa criada por mim neste ano. É para ser um subreddit dedicado a falar sobre neolinguagem (na língua portuguesa ou em outras) e sobre linguagem pessoal num geral.
Qósmiques é uma iniciativa criada por mim e por Oltiel ( @oltiel ). Fazemos eventos em São Paulo ou online. Mais especificamente, temos como atividades regulares um grupo de apoio/compartilhamento para organizadóries/ativistas/artistas/etc. queer (o que inclui blogueires e pessoas interessadas em cunhar/compartilhar termos) e um encontro mensal de pessoas não-binárias em São Paulo.
Tenho um canal do YouTube com alguns materiais, Variedades não-binárias & etc.
Também posso recomendar estas publicações online fora do Tumblr não curadas por mim:
Blogue Alternative é de Oltiel, a pessoa aporagênero que cunhou o termo outerine. Contém vários textos sobre questões consideradas polêmicas na comunidade, de forma que defende diversidade de linguagem e de termos.
Múltiplas Identidades é um dos sites da Yvies, uma travesti que puxou bastante do Orientando em suas publicações, embora hoje em dia faça textos mais voltados para desmentir certas suposições. Ely também tem outros sites e projetos.
sorry juxie e Xenofiction são mais blogs que partem de perspectivas não-binárias e a favor da diversidade identitária.
Existem também outros espaços comunitários nos quais confio o suficiente como pessoa xenogênero, assexual, arofluxo e poliorientada que só aceita tratamentos dentro da neolinguagem. Dito isso, são mais espaços que toleram essas identidades do que espaços onde tais identidades são valorizadas, então como a publicação já está grande, não vejo a necessidade de listar tais grupos neste momento.
É curioso como ainda tem gente tratando o Papa Francisco como se ele fosse uma figura revolucionária dentro da Igreja, quando na prática ele seguia firmemente as bases mais conservadoras do Vaticano. Atrás do verniz de fala mansa e gestos simbólicos, ele tratava conceitos cisdissidentes como “colonização ideológica”, recusava qualquer reconhecimento digno de casais homoafetivos e encarava cirurgias que afirmassem a identidade de alguém como uma afronta à “dignidade humana”. Quando o assunto era aborto ou o papel das mulheres na Igreja, a rigidez era total — não havia diálogo, só portões fechados. E pra coroar, ele dizia respeitar os povos indígenas enquanto reafirmava que a missão da Igreja era evangelizá-los, o que na prática continuava sendo o velho projeto de dominação em forma de salvação. A real é que não havia nada de progressista nisso — era só mais do mesmo.
An argument often used to support the idea that someone's heterodissident orientation is innate is the observation of sexual behaviors among animals determined as the same sex. Although it's undeniable that such behaviors have been documented across various species, this comparison ignores the complexity of human cognition. Animals don’t have the ability to form abstract concepts about sexuality or identity in the same way humans do. For example, cats stipulated as male may engage in sexual interactions with others, but this usually happens as part of dominance behaviors or to establish social hierarchies, not necessarily due to genuine sexual attraction. Using these behaviors as a justification for heterodissidence is not only inadequate but also reductive, as it ignores the depth of human experience, which results from a complex process of social, cognitive, and cultural construction.
You simply cannot expect intersex people to constantly center perisex feelings and ignorance in their discussion. Yes, the H slur is an actual slur, even when used to describe intersex and cosexed animals. Yes, intersex people are oppressed. Yes, they're often medically abused, not "given treatment denied to trans people". No, they're not "biologically nonbinary" and yes, they can be any gender just like perisex people. Many "treatments" for intersex variants hinge upon not what is best for the person's body and needs but what will make them appear perisex. To imply any of this is false is intersexist and to try to center your own worldview and feelings in a conversation about someone else's lived experiences is selfish and equally bigoted. If you are not intersex, the discussion is not and cannot be expected to be about your opinions and worldviews.
Um texto sobre independência (ao menos parcial) de redes comerciais e sua intersecção com valores queer.
Talvez quem tenha lido o texto tenha percebido que eu não mencionei o Tumblr nem como plataforma de blog e nem como rede social convencional. Esta foi uma decisão proposital.
Tumblr é peculiar em relação a essa divisão: é uma plataforma que permite algumas personalizações e categorizações (por exemplo, é possível pesquisar só por uma tag em um blog específico ou fazer páginas compilando recursos), mas também é uma rede social comercial.
Já vimos alguns passos que me deixam desconfiade em relação ao Tumblr: há incentivos maiores para fazer conta/baixar o aplicativo do que haviam anteriormente, e acho possível que, no futuro, a plataforma tente bloquear completamente acesso a blogs pra quem não tem conta, caso isso dê mais lucro. As opções de personalização também estão diminuindo com o passar do tempo.
Tumblr também é uma companhia que passou por múltiplas empresas, e não é impossível que seja vendida novamente. Enquanto isso, projetos como Dreamwidth e Neocities possuem ao menos algum comprometimento com não serem produtos à venda.
Acho que, pra quem quer disponibilizar informações (sobre um certo grupo de identidades, como listas de bandeiras, como listas de links, etc.), um formato de site estático ou de wiki pode ser mais apropriado e fácil de navegar do que tags. Isso não significa que postagens não possam ser feitas no Tumblr sobre essas coisas, mas, se a intenção não é só priorizar o que é recente, pode ser interessante ter ao menos a opção de visualizar as informações em outro formato.
Avisos de conteúdo: cissexismo (transmisia, maldenominação), exorsexismo (reducionismo de gênero, monogenerismo), opressão horizontal/lateral e esteriótipos. Significados aqui.
A controvérsia envolvendo o youtuber Raluca no ano passado trouxe à tona diversas questões relacionadas à identidade de gênero e à ignorância sobre, além de um forte componente de transmisia. Iremos abordar todas essas questões na postagem, destacando como a identidade do Raluca foi debatida, e como a falta de compreensão se manifestaram nesse contexto.
Parte I: Esclarecimentos iniciais.
Antes de entrar nos detalhes, é importante ressaltar que Raluca cometeu ações questionáveis durante essa saga, mas o foco aqui será exclusivamente em sua identidade de gênero. Tudo o que será apresentado aqui se baseia em lembranças desses acontecimentos, sem citar fontes específicas, porque muitos dos vídeos e conteúdos foram apagados. Além disso, somente Raluca pode determinar sua identidade de gênero. Portanto, o assunto não será abordado com suposições ou inferências transmisíacas, só com as falas de Raluca como referência.
Parte II: Identidade de gênero de Raluca.
Raluca se identificava como andrógino, utilizando o nome "Raluca" e o conjunto de linguagem "o/ele/o". Muites o viam como femboy devido à sua aparência e escolha de linguagem pessoal, o que reflete a dificuldade que a sociedade tem em dissociar expressão de gênero da identidade de gênero. Ele, em várias ocasiões, recusou-se a revelar seu sexo, explicando que isso o fazia sentir-se mais seguro. No entanto, sua identidade era constantemente questionada e reduzida a suposições.
Parte III: A saga e a revelação do nome de registro.
A história se intensificou quando Jean L. errou o conjunto de linguagem de Raluca e, após uma troca de ofensas, revelou o nome de registro de Raluca, que era tipicamente feminino. Isso levou a uma onda de pessoas usando "a/ela/a" para se referir a Raluca, baseando-se apenas no nome revelado, ignorando completamente a sua identidade de gênero e a linguagem que ele preferia. Essa atitude revela uma profunda falta de respeito e compreensão sobre a autodeterminação de gênero.
Parte IV: A flexibilidade na linguagem de Raluca e os limites.
Raluca permitia que algumas pessoas usassem o conjunto de linguagem a/ela/a ao se referir a ele, porém isso vinha com nuances importantes. Por exemplo, Gin, que tinha uma relação romântica próxima com Raluca, podia chamá-lo de a/ela/a em situações privadas. No entanto, Raluca deixou claro que, em público, deveria ser referido por o/ele/o. Após o término do relacionamento, Raluca pontuou que não permitiria mais que Gin o chamasse por a/ela/a, enfatizando a importância do respeito às suas preferências linguísticas.
Durante o relacionamento, Gin chegou a referir-se a Raluca como “a mulher da vida dele” em um momento que causou desconforto em Raluca, que expressou sentir-se agoniado ao ser chamado por a/ela/a. Curiosamente, a mãe de Raluca também o chamava por a/ela/a, o que levou algumas pessoas a justificarem o uso desse conjunto de linguagem para Raluca, independentemente do contexto.
Problemas levantados:
a) Gin não deveria referir-se a Raluca como "mulher" na frente de outras pessoas, especialmente se Raluca havia deixado claro que, em público, preferia ser chamado por o/ele/o. Isso demonstra uma falta de consideração por instruções explícitas sobre como ele desejava ser tratado em diferentes contextos.
b) A linguagem que uma pessoa permite em contextos privados não pode ser generalizada para outros cenários. Raluca pode ter conjuntos de linguagem específicos para certas pessoas ou situações, e isso não significa que esses conjuntos sejam apropriados em qualquer circunstância.
c) O fato de alguém permitir o uso de certos elementos gramaticais ou termos não implica automaticamente que esse uso seja respeitoso ou desejado. As pessoas podem ceder em suas preferências linguísticas por diversos motivos, como evitar conflitos ou não querer ser vistas como insistentes ou "chatas". Respeitar as preferências de linguagem de alguém requer consideração do contexto e dos desejos explícitos.
Parte V: Confusões sobre orientação e identidade de gênero.
A discussão também envolveu confusões entre orientação e identidade de gênero. Raluca tentou, de maneira problemática, negar a orientação bi de Jean, argumentando que a orientação estava relacionada à genitália, reforçando um entendimento limitado e exibindo concepções rígidas de gênero e orientação.
Parte VI: Discurso transmisíaco.
Um dos momentos mais críticos da saga foi quando o youtuber Jean L. fez uma declaração extremamente nociva, invalidando a identidade de Raluca e reforçando estereótipos. A fala reforçou a ideia de que gênero está inerentemente ligado a genitálias, o que é uma visão ultrapassada e prejudicial. Embora o youtuber tenha reconhecido o erro, removido o trecho do vídeo e se desculpado, a declaração já havia causado danos.
Parte VII: A resposta de Raluca.
Raluca postou um vídeo no qual afirmou: “Sim, meu nome é [usaremos "Ana" por respeito] e sou biologicamente mulher”, e ele comentou que estava sendo alvo de ataques "transfóbicos". Algumas pessoas usaram essas declarações para argumentar que Raluca estaria se aproveitando de questões LGBTQIAPN+ para se promover ou que ele não poderia sofrer "transfobia".
Problemas levantados:
a) Embora Raluca tenha usado o nome "Ana", que é seu nome de registro, isso pode ser considerado imprudente, pois reforça uma identidade que ele não abraça plenamente. Ele poderia ter esclarecido previamente que não deseja ser chamado por esse nome, a fim de evitar confusões.
b) A expressão "biologicamente mulher" é problemática, pois simplifica e reduz a complexidade da identidade de gênero a termos biologicistas, o que pode reforçar estereótipos e preconceitos. Além disso, o uso do termo "transfobia" pode ser impreciso ou mal interpretado, dependendo do contexto.
c) Falar sobre os ataques transfóbicos que sofreu não significa que Raluca esteja se promovendo à custa da comunidade LGBTQIAPN+. Qualquer pessoa tem o direito de expor as violências e discriminações que enfrenta, especialmente em um contexto que envolve opressões de gênero.
d) Negar a identidade do Raluca como trans é problemático, pois mesmo que Raluca não se identifique como tal, ele ainda pode ser alvo de ataques transfóbicos, considerando as complexidades de sua identidade de gênero e a maneira como ele é percebido socialmente.
Parte VIII: Remover o útero.
Embora essa parte não siga a ordem cronológica, ela torna-se fundamental para entender o contexto. No início, Raluca disse em uma chamada com Jean L. que queria remover o útero, mas editou essa parte ao publicar o vídeo. Isso é relevante porque indica insatisfação com as suas características sexuais, algo comum entre pessoas não cis. No entanto, muitas pessoas que afirmam que Raluca é uma mulher ignoram esse fato, usando o argumento de que ele “tem tudo de uma mulher” apenas para atrair atenção.
Parte IX: A entrevista com Raluca
Em uma entrevista recente comigo, Yvies, dona do projeto Múltiplas Identidades, Raluca compartilhou reflexões sobre sua jornada com identidade de gênero. Ele mencionou que, no passado, chegou a cogitar a possibilidade de ser um homem trans e até considerou tomar testosterona, mas, com o tempo, percebeu que não se identificava como homem. Raluca explicou que a escolha pelo conjunto de linguagem "o/ele/o" era mais confortável para ele, especialmente porque se via em conflito com a imposição de um papel feminino, frequentemente associado à fragilidade. Segundo Raluca, sua luta estava mais centrada em rejeitar a vulnerabilidade que a sociedade atribui à feminilidade do que em se identificar como homem em si.
Raluca também falou sobre seu processo de aceitação de sua feminilidade, reconhecendo que ser forte não é uma característica exclusiva da masculinidade. Ele refletiu sobre sua busca por equilíbrio entre masculino e feminino, algo que se manifesta em sua expressão de gênero andrógina. Usar tanto roupas tipicamente masculinas quanto femininas e a prática de utilizar binder diariamente refletem essa dualidade que ele abraçou, mesclando as duas qualidades de gênero em harmonia. Raluca destacou que se vê como "um ser humano" acima de qualquer classificação rígida de gênero, recusando-se a ser categorizado estritamente como homem ou mulher.
Parte X: Raluca é trans?
Depois do vídeo mencionado na Parte VII, o caso do Raluca ganhou notoriedade, levando vários canais de pessoas trans binárias a comentarem sobre o caso de formas exorsexistas, ignorando a possibilidade de Raluca ser não-binário. Em uma captura de tela antiga é mostrado Raluca dizendo que não era nem homem trans nem mulher trans, mas isso não excluia a possibilidade de ele ser trans. Além disso, algumas pessoas defendem que "andrógeno" não é um gênero, mas apenas uma forma de apresentação ou estilo. O fato de uma pessoa trans ter dito que Raluca era homem trans também foi contestado, já que descobriu-se que o Instagram de Raluca era controlado por outra pessoa, levantando dúvidas sobre a autenticidade dessa resposta. Essa parece ser a única vez em que Raluca se identificou como homem.
Problemas levantados:
a) "Andrógeno" não se limita apenas à expressão ou estilo. Embora o termo mais adequado seja "andrógine", no Brasil, "andrógeno" é frequentemente usado para se referir ao gênero andrógine, e essa distinção é essencial para uma compreensão mais precisa.
Parte XI: Raluca é andrógino
Raluca sempre se identificou como andrógino, e durante a saga, essa identidade foi reafirmada em conversas vazadas. Em uma dessas conversas, ele expressou o desejo de usar roupas que considera masculinas, mas se sentiu limitado por expectativas de seu público. Isso sugere que sua escolha de vestuário pode ser influenciada por fatores externos, mais do que por sua própria identidade.
Ao se identificar como andrógino, Raluca menciona uma sensação de estar entre homem e mulher, ou uma mescla de mulher e homem. Embora as suas reflexões possam não ser profundamente elaboradas, suas afirmações estão em sintonia com a identidade andrógina. Ele também fez um vídeo sobre rejeitar a feminilidade, mas o conteúdo foi apagado. No entanto, ao longo dos anos, Raluca demonstrou de maneira consistente que se identifica como andrógino.
Parte XII: Modalidade de gênero de Raluca
Raluca nunca declarou explicitamente sua modalidade de gênero. Embora tenha se identificado como homem trans em um momento, ele parece confuso sobre o que significa ser trans e nunca afirmou ser cis. É possível que Raluca não conheça ou não se sinta confortável em reivindicar uma modalidade de gênero específica, como isogênero ou somente não-binário. Ele nunca afirmou nem negou ser não-binário, apenas disse não ter gênero, enquanto a identidade andrógina poderia se encaixar nessa definição. A falta de clareza torna difícil determinar sua modalidade de gênero.
Para aquelus que desejam explorar mais sobre essa temática, convido a visitar meu Instagram, onde também compartilhei esse texto. Agradeço especialmente a minhe amigue Aloi, cuja pesquisa foi essencial para que eu pudesse revisar e adequar este conteúdo. Que continuemos a promover diálogos respeitosos e informados sobre as diversas identidades de gênero, contribuindo para uma sociedade justa e inclusiva!
Acha que o termo boycetrava pode existir? Sou AMAB-V menino transfem mas n quero ofender a comunidade travesti por ter um identidade homem
Oi! Peço desculpas pela demora na resposta. Recebi sua pergunta há três semanas e, como estava afastada desses assuntos, só a vi hoje. Sua pergunta é bem interessante, mas percebo algumas possíveis contradições nas identidades que você mencionou, então gostaria de entender melhor.
Você foi designado homem ao nascimento (DHAN) e é altersexo, com o desejo de ter uma vagina, certo? No entanto, você também mencionou ser transfeminino, o que me deixou um pouco confusa, já que o termo transfeminino normalmente se refere a pessoas designadas homem ao nascimento cuja identidade tem alguma conexão com feminilidade ou ser mulher. Parece que sua identidade transfeminina pode estar relacionada ao desejo de ter uma vagina, mas isso pode gerar uma contradição, porque boycetas, por exemplo, desafiam a ideia de que vagina significa "mulher" e pênis significa "homem".
Minha dúvida é: como você está conectando a ideia de ser transfeminino com ser altersexo e possivelmente m-altguina (um termo para homens designados homem ao nascimento que prefeririam ter uma vagina)? Estou correta ao supor que você vincula essa característica à feminilidade?
Com base na sua resposta à segunda pergunta, se você associar a vagina à feminilidade, minha resposta seria que utilizar boyceta junto com travesti seria incoerente com o que o termo boyceta propõe: desafiar categorias tradicionais de sexo.
Além disso, reivindicações das travestis por feminilidade ao longo dos anos indicam que mesclar isso com identidades associadas aos conceitos de ser homem e/ou de masculinidade é desrespeitoso. A situação seria diferente se você tivesse várias identidades distintas, incluindo travesti, com outras características de gênero separadas, pois neste caso, travesti não estaria sendo diretamente associada aos conceitos de ser homem e/ou de masculinidade, mas como parte das suas experiências.
Entender melhor esses pontos pode ajudar a responder sua pergunta de forma mais precisa e respeitosa.
Aviso de conteúdo: menção a genitálias/características sexuais e disforia sexual.
Altersexo foi criado para ser utilizado em grande parte, mas não exclusivamente, para personagens fictícies, descrevendo corpos com partes que não são normalmente presentes em homo sapiens, ou, no caso de indivíduos reais utilizando altersexo como identificação pessoal, aqueles cujos planos para seus corpos, ou noção de seus "verdadeiros" corpos, se encaixam em altersexo.
Altersexo é um termo abrangente composto por "alter," que significa "diferente" ou "outra possibilidade," e "sexo," que se refere às características sexuais fisiológicas primárias e secundárias. Esse termo também pode designar sexos que não são nem perissexo nem intersexo, especialmente para aquelus que passam por terapia hormonal ou cirurgia de redesignação sexual. Para essas pessoas, o termo intersexo pode não ser apropriado.
O termo foi cunhado por indivíduos trans e intersexo para os seguintes propósitos:
1. Diferenciação de termos: Para lidar com o uso inadequado de intersexo ao descrever pessoas e personagens que não são realmente intersexo, mas também não são perissexo. Isso inclui corpos que não se conformam aos padrões binários de sexo, mas não são assim devido a variações intersexo. Pode ser resultado de transição sexual, existência de um sexo fictício/impossível, habilidade de mudar de forma para alterar características sexuais, ou possuir um sexo "alienígena" que não é encontrado em humanes mas pode ser encontrado em outras espécies.
2. Termo não-sexualizado: Para proporcionar um termo que não seja sexualizado ou ofensivo para sexos fictícios ou transicionados, em oposição a termos estigmatizados e sexualizados como "herm" (abreviação de hermafrodita, um termo ofensivo para pessoas com características sexuais intersexo), "cuntboy" (um termo vulgar para pessoas designadas homem ao nascer que adotam uma identidade feminina ou possuem características femininas), "dickgirl" (um termo vulgar para pessoas designadas mulher ao nascer que adotam uma identidade masculina ou possuem características masculinas), e "futa" (abreviação de futanari, um termo japonês relacionado a personagens com características intersexo e geralmente sexualizados), que são populares atualmente e considerados transmisíacos e diadistas.
Altersexo não implica nenhuma característica sexual específica, permitindo a privacidade da pessoa altersexo e evitando reduzir indivíduos à sua genitália. Isso também visa reduzir a fetichização de pessoas intersexo e cisdissidentes na arte e na ficção, fornecendo um descritor neutro útil para personagens e indivíduos que são altersexo.
Para esclarecimento, altersexo refere-se a qualquer sexo que não seja perissexo nem uma variação intersexo. Por exemplo, ume personagem com Síndrome de Klinefelter seria intersexo, não altersexo. Indivíduos ou personagens altersexo não são assim devido a qualquer variação intersexo. Aquelus que passaram por terapia hormonal ou procedimentos cirúrgicos que afetam suas características sexuais, bem como aquelus com disforia dessa natureza ou uma identidade interna que se assemelha a isso, também seriam altersexo. Esse termo pode descrever tanto um corpo físico quanto uma identidade sexual interna, ou ambes, e aquelus que não podem fazer cirurgia ou hormônios, mas têm uma ideia interna de seu sexo que não é fisicamente possível, ainda devem ser respeitades como altersexo.
Importância de termos complementares
O termo altersexo pode coexistir com outras identidades sexuais, como angenital (alguém que não quer ter genitália) e salmaciano (alguém que quer ter tanto pênis quanto vagina funcionais). Ele serve como um termo complementar para descrever estados sexuais que não se enquadram nos binários tradicionais de perissexo e intersexo.
Significado das cores da bandeira altersexo
O termo foi cunhado por farorenightclaw e a bandeira desenhada por pastelmemer.
- Verde Menta: Representa abundância, indicando corpos com abundância de características sexuais e a variedade de possibilidades dos corpos altersexo. Está associado a identidades altersexo específicas, como agenital e salmaciano.
- Azul: Representa fluidez, simbolizando corpos com características sexuais fluidas.
- Branco: Representa transcendência, simbolizando corpos sem características sexuais.
- Roxo: Representa a natureza alternativa e não tradicional dos corpos altersexo.
- Rosa avermelhado: Representa características sexuais.
Altersexo é um termo importante para descrever identidades sexuais que não se encaixam nos binários tradicionais de perissexo e intersexo, proporcionando uma linguagem inclusiva e não estigmatizada para personagens fictícies e indivíduos reais que veem seus corpos ou identidades sexuais de maneira única. É um passo significativo na luta contra a fetichização e discriminação de pessoas intersexo, trans etc.
Aprecio a diversidade e a inclusão de pessoas com diferentes etnias, gêneros, orientações, etc., ocupando posições que antes lhes eram negadas. No entanto, é frustrante quando isso se torna a única coisa que percebem nessas pessoas. As características são frequentemente destacadas em detrimento de suas realizações individuais, e suas conquistas pessoais são ofuscadas pela ênfase excessiva em suas identidades.
Recentemente, estava lendo sobre Erika Hilton e percebi que a maioria das informações sobre ela enfatizavam que ela era a primeira travesti a ocupar sua posição, em vez de focar em suas realizações e trajetória profissional. É emocionante ela ser vereadora em São Paulo e uma das mulheres/travestis mais poderosas do Brasil, mas três das cinco frases sobre ela destacavam que ela era a primeira mulher transgênero nesse cargo, "abalando uma indústria dominada por pessoas cisgênero." Apenas uma dessas frases falava sobre o que o cargo realmente significa.
Isso é desrespeitoso, pois reduz a complexidade e as conquistas individuais a uma única característica de identidade. Eu queria ler sobre ela como indivíduo, não simplesmente como representante do gênero mulher/travesti ou da comunidade trans. Queria saber quem ela é, como ela trilhou sua carreira, quais foram suas conquistas e como ela as alcançou. Não apenas "Ela é uma travesti ou mulher trans e trabalha na política. Já dissemos que ela é travesti? Ela é trans, t-r-a-v-e-s-t-i."
Num mundo ideal, onde todes são inerentemente respeitades em sua diversidade, não seria necessário uma comunidade LGBTQIAPN+. Porém, a existência dessa comunidade reflete o fato de ainda não estarmos nesse cenário ideal de respeito universal. Apesar de ser uma visão utópica, o maior desejo de todas as pessoas dentro desta comunidade é de que um dia não seja mais necessário existir ela, porque indicaria que alcançamos a verdadeira aceitação e igualdade!
Erika Hilton, além de ser uma pioneira como travesti em uma posição de poder, possui uma trajetória repleta de conquistas significativas que merecem destaque. Ela tem lutado incansavelmente pelos direitos humanos, pela igualdade de gênero e pela visibilidade da comunidade LGBTQIAPN+. Erika tem promovido políticas públicas que buscam a inclusão social e a justiça para grupos historicamente marginalizados. Ela foi eleita com uma das maiores votações para a Câmara Municipal de São Paulo, um feito notável que demonstra o reconhecimento de seu trabalho e dedicação. Sua atuação é marcada pela defesa dos direitos das mulheres, das pessoas negras, das populações periféricas e, claro, da comunidade trans.
Portanto, é fundamental que o jornalismo e a mídia reconheçam e celebrem essas realizações em vez de apenas ressaltarem sua identidade de gênero. A verdadeira inclusão e respeito passam por reconhecer a totalidade do indivíduo e suas contribuições para a sociedade, indo além dos rótulos superficiais. Somente assim podemos avançar rumo a uma sociedade que valoriza a diversidade de maneira plena e justa.
This refers to linguistic exorsexism, and other forms of linguistic discrimination tied to exipronoun supremacism and language-adjacent genderedness, such as honorifics or heteronyms and homonyms
Exipronoun: existing personal pronoun (she, he, they); conventional pronouns (she, he); sometimes including it/its or one/one's (with apostrophe before the S letter, so excluding ones and ones').
Exilanguage: existing gendered language (queen, father, guy, laywoman, etc.).
Typical examples of exilinguistic prejudices:
Assuming he or she based on external bodily traits or gender presentation;
Requiring auxiliary pronouns for neopronoun users
Defaulting he/she multipronominal people as they/them users intentionally only, after knowing their pronouns (when in singular)
Shaming pronoun non-conforming (PNC) people for their pronoun nonconformity
Equating grammatical gender with identitarian gender (gender identity)
Genericism, pronominal conformism or dichotomy, etc. are all forms of exilinguism.
Term probably coined within @orientandoorg or among @multiplasidentidades.
Concordo com @orientandoorg. A ausência de uma fonte específica para a cunhagem dos termos sugere que eles podem ter se originado de maneira orgânica entre diferentes comunidades que discutem justiça social e inclusão linguística, incluindo possivelmente o ambiente digital. Portanto, é importante reconhecer que a origem exata ainda pode ser indefinida e que essas discussões são contínuas e colaborativas entre vários grupos e indivíduos.
É comum ver memes que utilizam tesouras como uma metáfora para o sexo entre casais sáficos. Apesar de parecer uma piada inocente e engraçada, esses memes reforçam estereótipos físicos e perpetuam sistemas opressivos como o discissexismo.
No contexto dos memes sobre relacionamentos sáficos, o uso da tesoura para representar a sexualidade entre pessoas sáficas reforça a ideia de que sexo só é válido ou compreensível se envolve genitais específicos. Essa visão reducionista nega a complexidade e a variedade das experiências sexuais das pessoas sáficas, limitando sua sexualidade a um único ato ou característica sexual.
Além disso, essa representação pode invisibilizar outras formas de intimidade e prazer que não envolvem genitália, perpetuando a ideia de que certos corpos e práticas são menos válidos ou autênticos. Isso se alinha com transmisia, que é a discriminação contra pessoas trans, muitas vezes com base na sua genitália ou nas expectativas sobre seu corpo e comportamento sexual. Esses memes podem reforçar a exclusão e a marginalização das pessoas trans e não-binárias, cuja sexualidade e identidade já são frequentemente invalidadas ou fetichizadas.
Esses tipos de memes não só perpetuam ideias limitadas sobre sexualidade e corporalidade, mas também contribuem com a perpetuação de sistemas opressivos que restringem a liberdade e a diversidade das experiências humanas. Ao fazer humor às custas de estereótipos e simplificações, acabamos reforçando normas heterocisnormativas e perissexistas que excluem e marginalizam as experiências das pessoas LGBTQIAPN+.
Portanto, é essencial refletir sobre o impacto desses memes e buscar formas de humor que celebrem a diversidade e a complexidade das experiências humanas sem reforçar opressões. O reconhecimento e a crítica dessas práticas são passos importantes para a construção de uma sociedade mais inclusiva e respeitosa.
Referência: Causa/origem do exorsexismo: a thread.
O exorsexismo, um subtipo de cissexismo, refere-se ao sistema que oprime pessoas não-binárias. Para compreender plenamente o exorsexismo, é essencial analisar suas origens históricas e estruturais. Esse sistema opressivo não apenas marginaliza identidades não-binárias, mas também reforça normas de gênero rígidas e tradicionais que têm raízes profundas na história da humanidade.
Origens históricas e estruturais
Por séculos, a sociedade impôs normas rígidas de gênero, perpetuando a ideia de que homens e mulheres possuem características fixas e imutáveis. Essa mentalidade discriminatória marginaliza e silencia as identidades não-binárias, negando-lhes espaço para existir e serem reconhecidas plenamente. A opressão de identidades não-binárias não é recente. Quando indivíduos europeus chegaram às Américas, encontraram comunidades indígenas com sistemas de gênero triplos, quádruplos e até quíntuplos. Essas organizações sociais foram brutalmente oprimidas, pois a elite europeia impôs seus próprios papéis sociais de gênero para facilitar a exploração e colonização.
O sistema sexo-gênero, que conceitua os indivíduos como “homem” e “mulher”, foi concebido com o objetivo de justificar determinadas explorações. Nesse sistema, o homem (branco, rico) ocupava o topo da hierarquia, com a mulher abaixo. Os papéis sociais de gênero obrigam as pessoas a se adequarem a um padrão, fazendo com que alguns indivíduos desenvolvam aversão a tudo que é diferente. A elite europeia garantiu que esse padrão fosse seguido em todas as suas colônias, pois a separação e desunião da classe explorada dificultava o processo de consciência e radicalização da mesma.
Exorsexismo no contexto atual
Atualmente, essas questões ajudam a manter estruturas de poder que perpetuam a opressão e exploração da classe trabalhadora como um todo, onde cada grupo minoritário é explorado com peculiaridades. No contexto exorsexista, essas explorações se referem ao reforço do binarismo de gênero. Esse binarismo se reflete na distribuição de papéis de gênero na sociedade, criando expectativas rígidas que marginalizam e excluem pessoas não-binárias. A divisão rígida do gênero é reforçada por instituições sociais como a família, educação, mídia e religião, perpetuando normas e estereótipos que encaixam os indivíduos em categorias restritas de acordo com seu sexo atribuído no nascimento.
O binarismo de gênero é utilizado para justificar desigualdades de gênero no sistema capitalista, através da desigualdade salarial, desvalorização do trabalho doméstico, limitação na carreira profissional, fermentação da cultura do estupro, discriminação com base em gênero, entre outros. A divisão rígida entre homem e mulher, masculino e feminino cria expectativas sociais que limitam a liberdade de expressão e perpetuam desigualdades, criando um ambiente hostil para qualquer expressão de gênero fora do padrão estabelecido. Pessoas não-binárias enfrentam desafios adicionais, sendo invalidadas, excluídas, marginalizadas e maltratadas.
O capitalismo lucra e controla os corpos das pessoas por meio de indústrias como a farmacêutica, que explora a medicalização de questões relacionadas à identidade de gênero e expressão. Pessoas não-binárias podem enfrentar barreiras ao acessar tratamentos de saúde adequados, reforçando a dependência de soluções médicas para se enquadrarem em padrões impostos. Outra forma de controle está relacionada ao acesso à reprodução e planejamento familiar, com políticas que restringem o acesso a cuidados de saúde reprodutiva com base em normas de gênero impostas.
A persistência além do capitalismo
A hierarquia de gênero, o patriarcado e as opressões de gênero são fenômenos que transcendem as fronteiras do tempo e do sistema econômico. Embora o capitalismo possa se beneficiar, amplificar e perpetuar essas formas de opressão devido à sua busca incessante por lucro e controle, sua queda não garantiria automaticamente o fim das desigualdades de gênero.
O patriarcado, como sistema social, político e cultural, estabelece uma estrutura de poder que coloca os homens no topo e as mulheres em uma posição de subordinação, reforçando estereótipos de gênero e limitando o acesso das mulheres ao poder, recursos e oportunidades, enquanto desconsidera outras identidades de gênero. Essa dinâmica não é uma criação do capitalismo, pois exemplos históricos de sociedades antigas, como a Grécia e Roma, demonstram a subjugação sistemática das mulheres, independentemente do sistema econômico em vigor.
Além disso, o patriarcado não se limita apenas à dicotomia homem e mulher, mas também inclui (ou melhor, exclui) pessoas não-binárias e com identidades de gênero que não se enquadram nos padrões culturalmente estabelecidos. Culturas indígenas na Índia e nas Américas, por exemplo, têm histórias de identidades de gênero não conformistas, como hijras e pessoas dois espíritos, que foram historicamente reconhecidas e respeitadas antes da colonização europeia. No entanto, essas identidades foram suprimidas ou ignoradas dentro do contexto eurocêntrico.
Conclusão
Para alcançar uma verdadeira igualdade de gênero, é necessário um esforço contínuo para desmantelar não apenas as estruturas econômicas opressivas, mas também as normas culturais e sociais que perpetuam o patriarcado e as hierarquias de gênero em todas as esferas da vida. Isso requer uma abordagem holística que reconheça e valorize a diversidade de experiências de gênero em todas as culturas e contextos históricos. A queda do capitalismo por si só não erradicaria automaticamente as dinâmicas de opressão de gênero e do patriarcado, sendo necessário um esforço contínuo para desafiar e transformar as normas de gênero e as relações de poder existentes. A verdadeira emancipação requer a construção de uma sociedade que valorize todas as identidades de gênero e que seja livre de todas as formas de opressão e desigualdade.
Pessoas transmasculinas são aquelas que foram designadas mulheres ao nascer, mas cujas identidades possuem alguma relação com ser homem e/ou com masculinidade. Boyceta é parte dessa ampla categoria, mas com características específicas que a distingue.
Uma das características mais notáveis é a aceitação e ressignificação de características sexuais congênitas. Ao contrário de algumas narrativas transmasculinas que buscam a remoção ou alteração de características sexuais consideradas femininas, boycetas escolhem por reconhecer e subverter essas características, transformando esses aspectos corporais como parte de sua masculinidade ou transmasculinidade. Em resumo, aceitam suas bucetas como masculinas; de homens.
No contexto brasileiro, a identidade boyceta tem uma importância cultural e social significativa. Ela oferece uma alternativa às narrativas cisnormativas sobre sexo/gênero, promovendo uma perspectiva mais inclusiva e diversificada da experiência humana. Ao ressignificar características sexuais e desafiar normas estabelecidas, a identidade boyceta abre espaço para uma maior aceitação e compreensão das múltiplas formas de existir.
Como todas as identidades que desafiam o status quo, a identidade boyceta enfrenta uma série de desafios. Ataques e preconceito são realidades frequentes. O rapper Jupi77er concedeu uma entrevista ao podcast "Entre Amigues", e uma das várias pautas discutidas por ele foi sobre sua identidade de gênero em que ele conta sobre ser boyceta. Ao falar sobre sua identidade de gênero como boyceta, ele virou alvo de discursos de ódio e viu seu rosto estampado em perfis de representantes da extrema direita.
O termo boyceta teria surgido oficialmente em 2020, mas veio de processos mais antigos de autorreconhecimento. A autoria da concepção da identidade de gênero é dada a Roberto Chaska Inácio, um boyceta indígena e PCD ligado à cena rap paulistana — o nascimento do termo, inclusive, acontece na Batalha Dominação, um evento protagonizado por pessoas cisdissidentes, que ocorre no centro da capital paulista.
A bandeira mais popular da identidade boyceta no contexto brasileiro foi criada em 17 de março de 2024 por Key Zimmer. Os significados para as cores da bandeira são azul para representar a transmasculinidade, sendo a transição do azul brilhante para azul claro a conexão entre gênero e corpo físico, destacando a interação entre esses dois aspectos. O rosa simboliza as características; corpo de cada pessoa transmasculina e boyceta, reconhecendo a diversidade e a individualidade dentro dessa identidade. O roxo representa não-binariedade, indicando que a identidade boyceta está além do binário de gênero ocidental.
A flor de Clitória (de "clitóris") é utilizada como símbolo na bandeira, remetendo ao natural, belo. Como também por conta da associação das flores desta videira com a anatomia de uma vulva. Outro símbolo, que é levemente diferente do símbolo masculino tradicional, evidencia a unicidade e o "arco de possibilidades" que a identidade representa. A escolha da flor Clitória enfatiza a aceitação e subversão das características sexuais congênitas, um dos pilares dessa identidade.
Temos que entender que a visibilidade LGBTQIAPN+ têm se expandido significativamente, refletindo a diversidade de expressões. Um exemplo claro disso é a representação tanto nas paradas do orgulho, com suas cores vibrantes e expressões festivas, quanto nos contextos cotidianos das comunidades periféricas, como as favelas.
Estereótipos relacionados à sexualidade existem e têm um impacto considerável e podem reduzir nossa comunidade a características superficiais ou comportamentos estigmatizados. Por exemplo, existe a ideia coletiva de que todas as pessoas LGBTQIAPN+ devam se enquadrar em certas normas de expressão de gênero ou estilo de vida, desconsiderando a variedade de formas como essas identidades se manifestam.
Esses estereótipos não apenas limitam a percepção pública sobre as pessoas LGBTQIAPN+, mas também podem se internalizar nas próprias comunidades, gerando expectativas restritivas sobre como "devem" ser ou agir. Isso pode levar a pressões adicionais, afetando a saúde mental e o bem-estar de indivíduos que não se veem representados nesses moldes estreitos.
Ao mesmo tempo, é importante afirmar que reconhecer a existência desses estereótipos não implica aceitá-los como verdades imutáveis ou essenciais. Pelo contrário, é essencial desafiar essas construções sociais e trabalhar para desconstruir elas. Os estereótipos não devem ser colocados num pedestal, como se fossem partes essenciais e inalteráveis das identidades LGBTQIAPN+. A diversidade dentro da comunidade é vasta, e a expressão dessas identidades deve ser livre de imposições externas ou internas.
A realidade das pessoas LGBTQIAPN+ nas favelas exemplifica essa diversidade e a necessidade de ampliar nossa noção das vivências LGBTQIAPN+. Nas favelas, essas pessoas navegam por um complexo conjunto de desafios, muitas vezes elas encontram formas únicas de expressar suas identidades.
A presença dessas pessoas tanto nas paradas do orgulho quanto nos espaços comunitários do dia a dia ressalta que ser LGBTQIAPN+ não está restrito a um único cenário ou modo de vida. Em suma, enquanto os estereótipos sobre sexualidade continuam a ter um impacto significativo, é vital desafiar e desconstruir essas noções, promovendo uma visão mais inclusiva e abrangente das identidades LGBTQIAPN+.
Boycetas se situam dentro do universo transmasculino.
Pessoas transmasculinas são aquelas que foram designadas como mulher ao nascer, mas cujas identidades possuem alguma relação com ser homem e/ou com masculinidade. Boyceta, portanto, é uma parte dessa ampla categoria, mas com características específicas que a diferenciam disso.
Uma das características mais notáveis des boycetas é a aceitação e ressignificação de características sexuais congênitas. Isso significa que, ao contrário de algumas narrativas transmasculinas que buscam a remoção ou alteração de características sexuais consideradas femininas, as pessoas boyceta optam por aceitar e ressignificar essas características. Elas transformam esses aspectos do corpo em parte de sua identidade masculina ou transmasculina, criando um novo entendimento e expressão de masculinidade. Em resumo, aceitam suas bucetas como masculinas, de homens.
No contexto brasileiro, a identidade boyceta tem uma importância cultural e social significativa. Ela oferece uma alternativa às narrativas dominantes sobre gênero e sexualidade, promovendo uma visão mais inclusiva e diversificada da experiência humana. Ao ressignificar características sexuais e desafiar normas estabelecidas, a identidade boyceta abre espaço para uma maior aceitação e compreensão das múltiplas formas de ser e existir.
Como todas as identidades que desafiam o status quo, a identidade boyceta enfrenta uma série de desafios. Ataques, preconceitos e violência são realidades frequentes. No entanto, a resistência e a resiliência dessas pessoas são igualmente notáveis. Movimentos de apoio e solidariedade são essenciais para combater o ódio e promover o respeito e a aceitação. Em resumo, a identidade boyceta é uma expressão transmasculina única que lida com a marginalização e a ressignificação de características sexuais congênitas.