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Se a melancolia é um estado de devaneio, vago e difuso, que jamais atinge uma profundidade e uma concentração intensa, a tristeza apresenta, por outro lado, uma seriedade cerrada e uma dolorosa interiorização. Pode-se estar triste em qualquer lugar; enquanto os espaços abertos privilegiam a melancolia, os espaços fechados intensificam a tristeza. O caráter de concentração da tristeza se deve ao fato de ela nascer quase sempre por um determinado motivo, ao passo que, no que toca à melancolia, ninguém jamais identificou um fator determinante externo na consciência. Sei por que estou triste, mas não sei por que estou melancólico.
Emil Cioran. (via recomendar)
Na noite terrível, substância natural de todas as noites, na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites, relembro, velando em modorra incômoda, relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida. Relembro, e uma angústia espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo. O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver! Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão. Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte. Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures, na ilusão do espaço e do tempo, na falsidade do decorrer. Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei; o que só agora vejo que deveria ter feito, o que só agora claramente vejo que deveria ter sido — isso é que é morto para além de todos os Deuses, isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver… Se em certa altura tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita; se em certo momento tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim; se em certa conversa tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro — se tudo isso tivesse sido assim, seria outro hoje, e talvez o universo inteiro seria insensivelmente levado a ser outro também. Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido, não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo; mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse; mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas, claras, inevitáveis, naturais, a conversa fechada concludentemente, a matéria toda resolvida… mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói. O que falhei deveras não tem esperança nenhuma em sistema metafísico nenhum. Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei. Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar? Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver. Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos. Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca como uma verdade de que não partilho, e lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível pra mim.
Fernando Pessoa. (via recomendar)
Henri Fantin-Latour, Cherries, 1883 (source).
eu te amo nessas horas inquietas. meus pés transitam entre a cabeceira e a parede, o pensamento se esvai com os dedos nos lábios. gosto desse após silencioso, a calmaria da cena, os sons amenos da rua. o dia hoje correu no espreguiçar. quis permanecer entre os lençóis, sinto ganas de ser sua. tenho horas de ser só minha, ainda nelas você permanece, vezenquando afaga, cola o rosto nas minhas costas e adormece. esse silêncio é tão seu quanto meu, a calmaria da respiração contra a nuca enquanto o relógio corre a passos lentos. ora me aperta o quadril, ora me cobre as pernas. e me toma aos poucos, me cala a tristeza, me canta com a voz abafada aquela do Cícero. eu passo os dedos no seu braço e penso em dizer qualquer coisa que soe como os poemas que gostamos de recordar, algo que soe com aquele quente que irradia do peito e toma cada célula até tornar-se algo indizível. eu te amo como se soubesse, como quem transborda e marca o tempo, a pele, os dias. com você eu até esqueço dos remendos que vezenquando ainda causam desconforto. é preciso te cravar as unhas nos braços, é preciso te cravar os dentes nos ombros para você lembrar de voltar.
eu sem você sou saudade.
G.
Amor vem de amor. Vem de longe, vem no escuro, brota que nem mato que dispensa cuidado e cresce com a mais remota chuva. Vem de dentro e fundo e com urgência. Amor vem de amor. Que não cabe, mas assim mesmo a gente guarda. A gente empurra, dobra, faz força, deixa amassado num canto, no peito, no escuro, dentro, ou larga pegando sereno. Amor vem de amor. Vem do pedaço mais feio, do mais sem palavra, do triste, vem de mãos estendidas. É tecido desfeito pelo tempo, amarelecido pelo tempo, pelo cheiro da gaveta fechada, pelo riscado do sol na madeira. Amor vem de amor. Vem de coisa que arrebata, vira chão, terra, cisco, resto, rastro, coisa para sempre varrida. É delicadeza viva forte violenta. Que faz doer, partir, deixar caído. Amor vem de amor. E dói bonito.
Guimarães Rosa.
Quando escrevi meu primeiro poema eu estava sangrando, e quem sente o poder de um poema, sabe o que significa sangrar. No segundo poema, senti a complexidade, me assustei com a loucura, e entendi que a poesia é quase sempre um misto de coisas dotadas de vida: lágrimas e sangue, sofrimento e prazer, lucidez e loucura. Escrever é concentrar todo o sofrimento nos pulsos, e não estou dizendo que todo poeta sofre, apenas compartilho do pensamento de Schopenhauer: “Todo homem tem uma vontade insaciável, que quando não realizada, se constitui numa angústia”. Minha poesia é angústia. Meu escrever é angústia. Minha explosão versificada é angústia. Angústia porque quero ser livre e livre não sou. Angústia porque na busca por respostas, encontro mais perguntas, e o desassossego se apodera da criatura que sou. Nunca pensei que poderia achar na angústia uma ilusão bonita, mas a poesia, em toda sua magnificência, me fez sentir o poder subversivo que Platão tanto temia. Poema após poema eu sangro, grito, choro, me excito e sinto o prazer delirante das palavras se solidificar entre a rigidez atormentadora do silêncio que me encara. Sou um homem angustiado e a poesia é mão que me sustenta diante do abismo das coisas que nunca existirão. Eu gostaria de acreditar que dentro desse ciclo vicioso exista uma curva mais sinuosa que me leve a enxergar as faíscas da minha própria derrapagem. Escapar da angústia e ouvir o som da capotagem de todas as minhas inspirações num delírio suicida digno de um poeta iluminado. Eu queria assassinar com 300 megatons toda essa amargura desenfreada. Escreveria a poesia do século? Talvez uma explosão de sangue, vísceras e palavras saindo pelos poros e incendiando tudo ao redor. Daria adeus a minha mediocridade enquanto ser humano dotado de pernas e instrumentos orgânicos que pouco satisfazem a minha curiosidade de mundo, de conhecimento e de amor. Abriria o cárcere da alma dedilhando uma melodia suave enquanto provocasse um gozo cinematográfico cheio de versos e rimas ascendentes. E quem sabe, depois de tudo, eu finalmente teria a imensidão. Eu descansaria um mês inteiro, o riso solto, os amigos ao redor, o céu amplo e vivo, a água escorrendo pelos dedos, a liberdade. Talvez toda essa geografia permeada de caminhos estreitos e tortuosos possa parecer desastrosa, mas não é, acredite, eu me libertaria, eu seria a própria poesia.
Otávio L. Azevedo e Elisa Bartlett em “A Morte do Poeta”.
Todos que estavam lá disseram não, e eu me obriguei a ficar calado, pensando anonimamente enquanto voltava atrás da origem daquela minha ideia - um disparate repudiável, pelo visto - profusamente negada por aquelas gargantas quentes expelidoras de fumaça. a marca dos teus lábios ainda perfura o meu corpo, manchando minha pele ensaboada do nosso prazer juvenil. Em algum momento, no instante que me banhava, às pressas para não perder o ônibus das seis, um alerta formigou no meu cérebro, e eu o senti me rasgando igualmente uma epifania faria, simplesmente soube: veio até mim, do mesmo modo como aquela água gelada vinha pelos canos e desbocava naquele chuveiro velho e fraco, e a chegada foi uma torrente de certezas pré-estabelecidas e congruentes. Estava convicto e vesti minhas roupas rindo sozinho - entregue ao devaneio. tua língua ainda me circunda, movimentos ágeis e lisos, os rastros de saliva ainda sensíveis nos caminhos que traçaste Óbvio - depois da ideia insurgente de o amor ser uma escolha e não um simples acaso impregnar na minha consciência - que ainda não sei quando, de fato, passei a acreditar nisso e compartilhar com terceiros, ainda mais com um grupo de jovens tão cismados de fé, convencidos num destino cego a se movimentar pelo zodíaco. Freud entenderia a negação. o cheiro do nosso sexo te sufoca, mas me apraz como a cadência lenta de uma música triste repetida dezenas de vezes só para me sentir pior. Nossas escolhas estão fadadas às esperas. E, mesmo que não seja escolha, é tempo. Então, quanto tempo ainda nos resta? Temos tempo?
Júnior, alguns dias atrás quando senti que estava perdendo meu tempo naquela aula de teoria geral do processo e resolvi escrever.
Um rio nunca é o mesmo, suas águas sempre estão seguindo em direção ao mar, desaguando o doce no sal. Meus olhos nunca são os mesmos, estão sempre vendo coisas que os fazem mudar sua maneira de enxergar, vi você e o mundo tornou a ter cores. Antes era tudo cinza. Igual o céu naquele dia, você lembra? O céu anunciava em tons de cinza uma tempestade. Choveu tanto. No céu e em mim. Hoje também chove, uma chuva diferente daquele dia. Tudo muda, entende? Você não é o mesmo que eu conheci ano passado. Eu também não sou a mesma que você conheceu. A gente se reinventou tantas vezes, nos perdemos em tantos caminhos, em tantas pessoas, em tantas histórias. Sinto falta de quem éramos. Seu sorriso adoçava minha vida amarga. Seu beijo esquentava o meu coração solitário e frio. Seu abraço afastava o caos do mundo. Encontramos a paz no amor um do outro. Porém o adeus veio, as lágrimas rolaram e os sorrisos se desfizeram. Será que você ainda dança a nossa música? Será que você ainda pensa em mim? Será que você chora quando se lembra daquela noite? Eu me agarrei a você como uma criança agarra a mãe quando sente medo, e eu senti, ainda sinto. É difícil voltar a ser só. É difícil esquecer que um dia fui amada. Fui? Você me deixou tantas lacunas, tantas questões não resolvidas, tantas respostas sem questões. Eu sinto que você me amou. Só não teve coragem de viver isso. Porque você foi covarde, teve medo de se entregar, teve medo de pertencer. Seus sentimentos foram rasos. Você apenas molhou os pés, e eu pulei de cabeça no abismo. Você perdeu as maravilhas que se escondem nas profundezas. Eu ganhei. Hoje penso em nós, não choro, sorrio. Aprendi com você que sou um rio. Alguns mergulham em mim, outros, apenas molham os pés.
Enya Medeiros.