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“Uma coisa que tive que aprender ao morar em um apartamento foi a usar o elevador. Há certo quê de complicação quando você vem do interior e não consegue se acostumar à estranha necessidade de perguntar ou responder se o carro está descendo ou subindo - será que faz mesmo tanta diferença?”
O formigueiro
Como é engraçada a vida na cidade grande, principalmente naqueles lugares onde a gente mora, feito formiga, uma em cima da outra. Uma coisa que tive que aprender ao morar em um apartamento foi a usar o elevador. Há certo quê de complicação quando você vem do interior e não consegue se acostumar à estranha necessidade de perguntar ou responder se o carro está descendo ou subindo - será que faz mesmo tanta diferença? Outra coisa que aprendi foi que existem vários tipos de conversas de elevador, embora quase todas elas tratem do mesmo assunto de importância inquestionável: o clima.
O primeiro tipo geralmente ocorre no início, quando as formigas ainda não se conhecem, mas também pode acontecer em qualquer outro momento, principalmente se o formigueiro for composto só por rainhas. O elevador chega e você entra, encontrando uma pessoa que não o cumprimenta, mas cujos olhos, ao invés, parecem sim comprimentá-lo. O silêncio lhe perguntará se você deve dizer olá, e, se você for uma pessoa bem educada, duas situações podem passar: ou o bichinho lhe corresponde a saudação, e então vocês se dão por satisfeitos; ou não, e vocês se arrependerão violentamente da tensão que permanecerá até que alguém abandone o barco em qualquer andar. Mas se nenhum de vocês fizer questão das educações ou demorarem o suficiente para que fazê-las fique estranho demais, acabarão por maldizerem-se secretamente durante toda a viagem.
O segundo modelo é o mais comum para o recém-chegado. Você encontra, depois de esperá-lo ir e vir como se deliberadamente o ignorasse, o elevador cheio de insetos que já conversam como uma família em dia de churrasco, ou de um criador de cães com seus amados peludos babando todo o carpete, ou de crianças pulando só pra sentir o avião balançar, ou de um casal apaixonado que não pode simplesmente segurar a língua dentro da própria boca... Se você não fizer o estilo extrovertido, de fáceis amigos, sentir-se-á excluído e fortemente coibido a apertar um botão qualquer e sair dali o mais rápido possível, temendo por sua sanidade mental ou, no caso das crianças, sua própria vida – quem sabe a partir desse momento, você deixe de pesquisar sobre acidentes de elevador. De qualquer modo, a conversa existirá, ainda que não lhe inclua.
Há também um terceiro caso, sentido principalmente pelas mulheres: aquele receio ao encontrar-se sozinha com um homem no cubículo móvel. Se você não for tímida a ponto de esconder-se no canto e nem levantar o rosto, provavelmente se sentirá atacada pelo zangão de olhos famintos, cuja única conversa que desejaria manter com você é aquela que envolve as bocas, mas dispensa as palavras. Caso você seja das minhas, o desafiará tanto com o olhar que, mesmo que o faça recuar, o animal provavelmente entrará em casa com as asinhas quebradas.
Um quarto, cujo interlocutor parece muito a fim de prever-lhe a preguiça que tomará conta de seu corpo assim que você chegue ao antro de claustrofobia que, carinhosamente, chama de “apê”. Seu vizinho, possivelmente está pensando a mesma coisa e, se por um acaso do destino vocês iniciarem uma conversa, falarão sobre como o calor está insuportável ou como bem que poderia chover, pelo amor de Deus, olhando para a vitrine digital que os tortura com a velocidade baixa com que seus números passam. Se o tempo de espera juntos for muito longo, ainda haverá uma mudez que os deixará sem graça antes que possam se despedir e rezar para que nunca mais se encontrem.
E um quinto, muitíssimo raro, que só tive o prazer de experimentar após dois longos anos de conversas decepcionantes naqueles formigueiros urbanos. A esperança já se findava dentro de seu coraçãozinho humilde de formiga operária, tanto que nem no espelho você se narcisava mais. Mas então eis que surge a pessoa abençoada que lhe trará novamente a alegria do faticismo das conversas climáticas, não aquelas de olhos apáticos, mas aquelas que parecem querer aumentar o assunto. Você se pega de repente sorrindo com a maior das sinceridades para seu anjo salvador, cuja voz cálida e olhos atentos fazem brincar em seu interior uma sensação de empatia e um pedido mudo de amizade. A partir daí, será esforço pautado sair em horários semelhantes ao do feliz encontro e decepção garantida se ele não for repetido. O Ministério da Saúde adverte: os perigos de uma paixonite platônica incluem dependência psicológica e estranho parasitismo por borboletas.
Entretanto o melhor de todos os estilos de conversa de elevador é sem dúvida quando este se encontra vazio, lindo, com as portas escancaradas, somente a espera de sua prazerosa e solitária presença. O espelho é todo seu, e, quase melhor que o chuveiro ou o vaso sanitário, suas paredes metálicas são o refúgio perfeito para reencontrar o amigo imaginário que você tinha esquecido faz tempo e matar, assim, todos os assuntos fugitivos. A única preocupação que ronda alguma parte de sua cabeça é não ter sua justiça interrompida pelos estranhos dos tipos anteriores – principalmente o último – e, consequentemente, sua saúde mental questionada.
No fim, existe também a conversa que o porteiro, o síndico e o guarda estão tendo sobre seus comportamentos estranhos, sobre seus olhinhos brilhantes para o jesus do quinto caso, sobre o casal se pegando, sobre o assédio do tarado, sobre a madame do primeiro encontro, que eles estão vendo pelas câmeras com que você tanto se acostumou, em algum lugar dentro daquele edifício. Se você der sorte, não fará nenhuma estupidez inusitada o bastante para que eles se surpreendam e riam da sua cara pelo resto de sua estadia naquela terra estrangeira.
Como é engraçada a vida na cidade grande, como é engraçada a vida pública na cidade grande, como é engraçada a vida privada na cidade grande.
Eco.
Eco
- Não é como se você tivesse o direito de exigir isso de mim, sabe?
- E é como se eu não tivesse?
- O que quer dizer?
- Essas coisas não funcionam assim.
- Assim como?
- Assim, práticas, como se tivéssemos firmado um tratado ou promulgado uma constituição.
- Você e esses termos políticos.
- Que seja.
- Não entendo...
- Veja bem, se fosse assim, você também não teria o direito de me exigir paciência.
- Paciência é algo que se supõe que você deva ter, na verdade.
- Por quê?
- Você me fez esperar por dois anos muitas vezes, não pode esperar agora?
- Não, para os meus anseios isso é indiscutível... O que quero dizer é que estou cansado de tanto dar e nada receber.
- Fosse assim, de fato, não seria tão complicado... O que eu quero dizer é que estou cansada da instabilidade que é te devolver.
- Por isso não pode me prometer?
- É uma das razões. Não que seja simples prometer qualquer coisa.
- E que outras razões existem?
- Ainda não sei. Ou eu esqueci.
- Como pode esquecer uma coisa dessas?
- E a gente lá escolhe o que esquece?
- Eu bem que gostaria.
- É, eu também.
- Fim?
- Acho que sim.
- Então até daqui a dois anos.
- Até.
O Abraço
Eu acordo e, como de costume, a peimeira coisa que faço é olhar para minhas pernas amassadas pela longa noite de insônia, antes mesmo de esfregar os olhos, que é para ver se assim elas ficam mais bonitas, mas não adianta: não gosto nem um pouco de sua aparênica roliça e fraca. Levanto-me com o rosto vazio, acostumado e ando até o banheiro.
Desvisto-me preguiçosamente, com a cabeça ainda pesada de sono, evitando olhar para o espelho e entro no banho. A água cai gelada sobre minha cabeça porque a pressa acabou sendo grande demais, mas acaba por aquecer-se aos poucos. Começo a pensar em tudo que terei de fazer hoje, como uma revisão da rotina à qual estou acostumada há tanto tempo que nem me lembro e é quase como se fosse desde sempre - e talvez seja. Passar pela rua cheia de olhos, o metrô cheio de mãos, o trabalho cheio de bocas e então tudo de novo, ao voltar.
Estremeço quando o shampoo escorre pelos meus olhos numa ardência que os queima, no entanto não os fecho - ainda me é difícil fazê-lo a noite, quando o sono vem. A dor é insistente e, pela minha resistência, chega a ser agonizante, mas eu gosto de sentí-la, gosto de saber que está ali... Envolvo meu corpo ainda lutando, aperto, onde ele apertou demais e me lembro. Meu coração palpita assustado e meus pulmões estalam sem fôlego. Viro-me imediata e bruscamente, comprimindo minhas costas contra a parede molhada e... Ninguém.
Eu não quero me lembrar, eu não deveria me lembrar! Ou sim? Pisco fortemente e a dor nos olhos aumenta, minha mente fica em branco por alguns instantes e, então, esfrego os olhos, deixando sobre eles apenas o fantasma do fogo que os acendeu. Enxáguo depressa os cabelos e fecho a torneira. Ainda fico nessa posição pelo que parecem ser longos minutos, sentindo o vento frio da madrugada, que entra pela pequena janela do banheiro, a qual sempre me esqueço de fechar, arrepiar os pelos dos meus braços e costas, à medida que a água deles escorre e se seca. Não arrepio, porém, e fico triste; gostaria de ter arrepiado.
Saio do box lentamente, estalando, como sempre, os calcanhares ao pisar o tapete em frente. Pego a toalha do gancho e me seco com força, esfregando, arranhando a minha pele. Eu não quero aquele abraço, eu nunca quis! Por quê o banho nunca parece me limpar? Luto com algumas lágrimas teimosas que encheram meus olhos, de repente: elas não podem rolar! Eu não posso permitir! Ergo a cabeça rapidamente, a fim de não deixá-las cair, e percebo, pela pontada de dor nos músculos do meu pescoço, que não fazia isso há muito tempo.
A dor seca as lágrimas irritantes, de modo que volto devagar a cabeça para sua posição usual e então, quando me dou por conta, ela já está ali, me olhando com sua expressão dura e acusatória. É tarde demais, estou em frente ao espelho e aquilo que costumava ser um reflexo despreocupado de mim mesma hoje me encara com desprezo. Desvio meu olhar do seu, finalmente, no que penso ser uma boa estratégia, mas então vejo meu colo cansado e meus seios minúsculos, denunciando a disparidade do meu corpo a disparidade da minha mente.
Passeio pelo meu reflexo, que só começa acima do umbigo e deixa um espaço imenso no espelho acima da minha cabeça: meus braços são grossos como minhas pernas, mas, quando os levanto no ângulo corrteo, é possível ver mexerem minhas costelas e meu esterno, apontando sob a fina pele do meu peito. "Feia" é o primeiro rótulo que vem à cabeça, "gorda" é o segundo, apesar das costelas.
A menina do reflexo me olha, o nojo manifesto em seu rosto. A luz do sol nascente inunda o cubículo e, lá fora, os primeiros botões enfim desabrocham - eu sei porque sinto o cheiro das rosas. Um segundo e o desgosto se transforma em raiva e nós nos fuzilamos com o olhar e batemos nossos punhos um contra o outro e o sangue escorre dos nossos dedos e as làgrimas dos nossos olhos e o vidro quebrado nos torna muitas e eu suspiro... e eu respiro... e eu esqueço... e eu ergo a cabeça, a dor no pescoço não me incomodando mais, e lanço a todas um abraço invisível e morno. Ah, e eu sorrio! Por que é exatamente assim que eles me querem!
#ReduçãoNãoÉSolução!
Cédula Anarquista
Sou o que escrevo. E eu não tenho escrito muito.
Junior Lima (via passerbyartist)
tsc tsc tsc...
Todo amor é bonito, feio é não amar.
Eu me chamo Antônio. (via triste-escritora)