“Apertou os lábios em uma linha fina, encarando um ponto qualquer no piso abaixo de seus pés. Para ela aquelas coisas soavam claramente como uma ordem, lembrava-se de outras vezes que haviam tentado lhe “ajudar”, e muito mais tarde havia descoberto que não era ajuda alguma. Talvez, tarde demais. Suspirou, os dedos gelados percorrendo as mechas de cabelos castanhos, enquanto ela cerrava os olhos por um período mais longo, em uma tentativa de controlar uma possível crise de choro. Sentia-se ridícula daquela forma.
-Você não entende!-protestou em seguida, encarando-o.-Não é tão simples assim como você diz. Certas coisas precisam ser feitas sozinhas.-franziu o cenho, sentindo-se entre a irritação, a mágoa e a raiva de toda aquela situação.
Mas parecia estar claro que de nada adiantaria, jogou, sem muitas cerimônias, a peça de roupa em direção ao mais velho, tomando caminho pelo corredor assim que as lágrimas ameaçaram escorrer-lhe pelo rosto.-Você não se importa! Ninguém se importa! Você só quer saber o que está acontecendo, porque isso parece ser da natureza de todos aqui!-o tom de voz mais alto o acusava daquelas coisas, e provavelmente se arrependeria de cada palavra depois.-Eu sei me cuidar sozinha. Ou como você acha que cheguei até aqui, uhn?-deu-lhe as costas novamente, os dedos gelados recolhendo as lágrimas que escorriam pelas bochechas.
A sensação era de que estava abrindo, rachando, dentro de si, como uma grande ferida, que poderia fazê-la desabar ali mesmo. Mas sabia que tinha que ser mais forte que aquilo, que toda a dor e toda a culpa, as pernas a sustentando naquele caminho, que já lhe parecia interminável. Talvez seu castigo fosse mesmo jamais viver em paz, ou era aquilo em que ela acreditava.”
Manteve-se estático, quieto, apenas observando-a, enquanto falava todas aquelas coisas. Na verdade, existia uma pequena vontade de deixar que um riso debochado tomasse conta de seus lábios, mas o conteve, não queria acabar irritando mais ainda aquela jovem, que já parecia incrivelmente exaltada... e não era de agora. --- Se isso é o que você pensa. --- se limitou a isso, continuando parado no lugar, deixando que a peça de roupa caísse no chão, não expressou nada com tal grosseria.
Aliviou o corpo, revirando os olhos, assim que a viu começar a caminhar pelo corretor, em meio ao choro que tinha retornado. Nefarian bem que tentou começar a ignorá-la, aceitar que ela só era uma garota revoltada, mas aquilo já estava passando dos limites, principalmente com as acusações que foram jogadas contra si.
Ouviu, em silêncio, as várias reclamações da morena. Ponderou por, apenas, pegar sua blusa no chão e fazer igual ela, dar as costas e sair andando. Ele poderia ter um dia como todos os outros, se desejasse, nada o incomodaria pelo resto do dia. Mas ele não era assim, ainda que o mais normal fosse deixá-la sozinha, o elfo não conseguiu fazer isso, logo colocando-se a caminhar, em passos largos atrás dela.
--- Se eu desejasse, apenas, saber o que está acontecendo, eu poderia muito bem fazê-lo de outra forma, não precisaria ficar quase que implorando pela oportunidade de ajudá-la. --- respondeu, em alto e bom som, antes de segurá-la pelo braço, impedindo que voltasse a se afastar. --- Você chegou até aqui porque é forte e guerreira, isso parece óbvio pra mim. --- falou, tentando olhar em seus olhos. --- Como você disse, certas coisas devem ser feitas sozinhas... mas nem todas são assim. É uma escolha sua fazê-las sozinhas. E uma péssima escolha, se tem pessoas que se colocam à disposição para o que for preciso. Entenda, o mundo pode não ser perfeito, as pessoas podem não ser nada perfeitas, mas isso não significa que uma ou duas experiências ruins que você teve, as ideias que você tem sobre alguém, devem ser generalizadas. Assim como eu estou me importando, muitos outros devem se importar. Mas você os afasta, como se quisesse sofrer sozinha.