Algumas coisas precisam morrer
Enquanto outras renascem
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tannertan36
KIROKAZE
DEAR READER
Sade Olutola

❣ Chile in a Photography ❣
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Origami Around
One Nice Bug Per Day
trying on a metaphor
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Kiana Khansmith
Jules of Nature

⁂

if i look back, i am lost

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@ninanes
Algumas coisas precisam morrer
Enquanto outras renascem
Amarro-me à lua Pela serpente que me enlaça Na dança sem fim De tudo o que morre E renasce E me abraça
Dois Lado a lado Na sacada De nossas vidas No carro alado Do destino Pouco a pouco Se despedindo
Ah, faça-me o favor Por mais que eu abra todas as janelas E tudo se renove por aqui Digamos que Eu esqueça Algo essencial Quem virá me salvar? Provavelmente ninguém, a não ser que eu grite Faça uma selfie com uma legenda bem triste Tipo somebody saves me porque não tá dando mesmo Aí talvez uma amiga cheia de amor e de tempo Decida olhar nos meus olhos Ou simplesmente deitar na rede da varanda e reclamar junto comigo Ao fim de tudo, rimos Mesmo assim é bem provável que meu dia se resuma a um reloginho frenético Dançando enquanto a vida fode sem ky É ou não é? Também não é tão mal assim Tô sempre de cima E ouço Nina Enquanto a água cai abundantemente de um chuveiro sensacional Eu amo a vida É por amor a ela todo o meu drama Por amar esse sol escaldante fritando o juízo Amar o cheiro azedo da feira E o engarrafamento A televisão, as propagandas, a merda toda Eu amo tudo isso também porque enfim Estamos aí E tudo será implodido em 10 segundos talvez Ou não A impermanência eu amo mais
Arianne Pirajá
Eu liguei pra você Você estava no Mar Negro A ligação ficava ruim, falhava, caía Quando consegui finalmente ligar de novo Você estava na Croácia E eu aqui Você tentou falar comigo Depois eu soube que você se atirou do oitavo andar Minha mãe também morreu nesse dia Meu pai abraçava o corpo dela, sentindo um perfume frio Eu nada podia dizer, com um broche preso entre os dentes Num brechó moderninho da cidade um rádio toca o orgasmo de um provável homem Logo ao lado Duas mulheres se amam sobre todos os móveis de um apartamento Arianne Pirajá
Se eu não morrer de um choque ou de outro, eu vou morrer de outra sorte, mesmo que aos poucos. Sentir a vida diminuindo, catarata, memória fraca, osso podre, surdez. Como minha tia que depois de ter uma doença, já com oito décadas na pele, ficava com o olhar parado num horizonte distante, depois de mim, depois do armário, depois da parede. Tinha alguma coisa olhando pra ela e eu quis saber o que era, mas eu não entendia, era um silêncio, uma ausência. Ela morreu algumas semanas depois. Antes da morte houve um riso, um dia em que tudo pareceu leve e muitas pessoas apareceram para visitá-la e eu estava lá e todos estavam felizes e ela não estava ausente, ela olhava para as pessoas com um sorriso bobo e quase ininterrupto. Elogiou o café. Todo mundo sabia que ela nunca morreria, mas ela morreu e logo depois de um dia tão leve e fácil. Foi difícil acreditar. Todos os rituais de morte foram vividos, telefonemas, problemas, velório, enterro, lágrimas, encontros. E no dia seguinte eu estava fazendo tudo, como se nada houvesse acontecido, como se ela nem houvesse existido algum dia, afinal, essa é a vida, corremos, esquecemos, o relógio, o trânsito, tudo isso vai nos engolindo e quando eu finalmente parei e me sentei na cadeira da minha casa pra tomar um café, me lembrei dela e de como ela apertava os lábios enquanto tomava o café. E virou um buraco no meio da parede essa ausência dela, que já não era uma suspensão dentro do olhar, era real, eu não a veria novamente. Pelo menos não nessa vida. E então pensei, quando vi esse buraco na parede, que talvez ela estivesse olhando a morte e tentando pedir pelo menos um pouco tempo de vida, um acordo, uma despedida de tudo o que ela sempre amou, essa coisa de família, porque era assim que ela tinha vivido. Eu vi que a morte não me olhava ainda, mas que não iria me largar tão cedo. O tempo vai passando e eu já não lembro mais da voz, nem do rosto, nem do que minha tia dizia. Eu só sei que ela existiu, e eu consigo guardar comigo qualquer coisa do que ela era, sem nitidez alguma, distante, suspenso. Quando eu a esquecer completamente, ela terá morrido de novo? Quantas vezes ela vai morrer depois de morta? Vai abrir buracos na parede eternamente, dentro das camadas da memória de quem ficou? E quando nenhum desses que pegaram um pouco dela para si estiverem no planeta? Nesse dia ela vai ter morrido de vez? A morte é um enigma. Eu não quero nem vou tentar decifrá-lo.
Arianne Pirajá
Nesse silêncio que deixamos derramar Molhamos todas as ruas da vizinhança Com nossas lágrimas E os sonhos deixaram de fazer sentido Nunca mais vi O Mago ou A Grande Mãe Voando como naquela noite em que recebi o seu abraço Era uma praia paradisíaca mesmo Eu, tua sereia E o sol em cima da gente Fervor, suor Mas tudo se transforma E se transborda De novo De outra cor Com outro cheiro E um barulhinho diferente Meus pés não sabem de nada Apenas caminho Vou chegando por aí
- Uma tampa linda mas não encaixa no vidro.
Aqui guardamos nossos planos No coração de um selvagem Que adora ver o mundo abrindo Flor vermelha dolorida
tudo vai bem ou quase exceto o grito da poeira por trás dos móveis te chamando tuas plantas com saudade das tuas águas minhas águas inundando a cama eu mudo tudo de lugar porque, você sabe eu tenho que ocupar o tempo tenho que ocupar esses buracos no meu corpo alongar o quadril e os ombros treinar leveza devagar e sempre esquecer que entreguei em tuas mãos o coturno e era noite eu vou viver, eu sei ou quase pelo menos por um tempo vamos nesse hiato prático emprestando nossos sorrisos ao acaso
God must be a painter - parte 2
photo: Arianne Pirajá
photo: Arianne Pirajá