Eu estou deitada na sua cama de solteiro, que na verdade Ă© tĂŁo nossa, porque estou com a pressĂŁo baixa e vocĂȘ estĂĄ o dia todo me trazendo azeitonas. Eu te amo um pouquinho mais por isso. Eu sei que daqui a pouco eu vou melhorar e nĂłs vamos pedir uma comida gostosa, assistir Dynasty e depois dormir abraçados - pelo menos por quinze minutos. Nossos finais de semana aqui sĂŁo assim: a gente passa o dia junto, assistindo algo e comendo besteira tambĂ©m. Sua avĂł sempre faz strogonoff (de frango!) para o almoço e pĂŁo de queijo ou cachorro quente de forno para o lanche. Mas Ă s vezes seu avĂŽ compra pĂŁo nĂŁo sĂł de manhĂŁ, mas a tarde tambĂ©m.
Daqui eu consigo ver seus dois violĂ”es, que sĂł te vi tocando uma vez, mas sempre vou lembrar de como Arctic Monkeys passou a fazer mais sentido desde entĂŁo, e tambĂ©m sua sapateira que sĂł estĂĄ aqui depois de muita briga, porque tudo com vocĂȘ e seu avĂŽ Ă© assim, vocĂȘ nĂŁo dĂĄ o braço a torcer, mesmo que seja a coisa certa e Ăłbvia a ser feita. A sapateira Ă© bagunçada como seu cabelo, que vocĂȘ sĂł penteia quando estĂĄ molhado, com a sua escova raquete laranja, sempre pro lado e depois vocĂȘ alisa o cabelo com as mĂŁos, e todo o ambiente fica cheirando a Aussie porque Ă© sua hidratação favorita. Eu consigo te ver entrando pelo quarto - que nĂŁo tem porta - sĂł com a sua regata azul claro e de cueca, com sua havaianas do Harry Potter (after all this time? always), que nĂŁo sai do seu pĂ© porque vocĂȘ quase nunca estĂĄ descalço. VocĂȘ traz ĂĄgua no copo roxo do Habibs e coloca bem perto do seu videogame, na mesa do computador, que fica bem ao lado da cama, entĂŁo tem tudo em cima dela. De longe eu jĂĄ consigo ver vocĂȘ sorrir.
Isso, Gustavo, foi um feeling. Eu estou te escrevendo agora porque Ă s vezes as memĂłrias voltam sem muito padrĂŁo. SĂŁo dias sem pensar em vocĂȘ e aĂ, do nada, vocĂȘ estĂĄ no meu dia.
âNĂŁo acredito nissoâ, o RĂŽ disse, apĂłs eu contar que vocĂȘ tinha me bloqueado no WhatsApp, e eu tambĂ©m nĂŁo, quis dizer, mas a verdade Ă© que eu sĂł estava ali na cozinha do trabalho para tomar um iogurte e jĂĄ tinha que descer porque caramba, Ă© sĂł o inĂcio do semestre mas eu jĂĄ tenho muita coisa para fazer e tudo gira em torno de nĂșmeros e mais nĂșmeros, entĂŁo o dia passou e nĂłs nĂŁo falamos mais nisso, porque tambĂ©m nem tĂnhamos tempo para pensar nisso.
Eu trabalhei o dia todo e depois peguei o metrĂŽ naquele sentido, sim, o que eu sempre pegava para te ver me esperando no seu carro, escutando uma mĂșsica que a gente gostava. Eu sĂł fui por uma saĂda diferente, mas caramba, Ă© incrĂvel como Ă© um territĂłrio complicado, mesmo. O que eu fiz depois tambĂ©m sĂł me lembrou vocĂȘ: eu fui pro Barra Shopping e assisti ViĂșva Negra. Me senti estranha indo para a sessĂŁo porque eu era a Ășnica pessoa de blaser e salto ato. âCadĂȘ minha blusa da CapitĂŁ Marvel e meu vans?â, eu pensei, mas eu sĂł saĂ do trabalho e fui.
Acho que nunca vou conseguir voltar lĂĄ e nĂŁo sentir sua presença, tĂŁo marcante, mesmo que invisĂvel.
Eu poderia colocar aqui meu clĂĄssico âfaz tempo que nĂŁo te escrevoâ porque Ă© verdade, a vida aconteceu de outra forma e um dia foi sendo engolido por uma semana, que foi engolida por um mĂȘs, que foi engolido por um ano.
Jå faz um ano, sabe-se lå quantos dias, ou segundos, que eu não ouço sua voz, e eu não lembro mais de como ela é. No começo, a escutava na minha cabeça, mas hoje é só um vazio porque não sei como preenche-lo. Minha memória não sabe mais desenhar seu rosto com a perfeição que soube um dia e isso não me deixa mais triste. Conformada, eu pensei um dia desses, finalmente estou conformada.
Claro que Ă s vezes sua ausĂȘncia ainda Ă© gritante, como foi nesse dia do cinema (porque nĂłs combinamos de assistir juntos a esse filme, achando que terĂamos tempo), e dias depois, quando fui assistir O EsquadrĂŁo Suicida.
Eu sei que estou fazendo novas memĂłrias com novas pessoas. Mas as que criamos juntos aparecem no meu caminho. NĂŁo me sinto mais triste ou com vontade de chorar. SĂł fico grata por ter acontecido.
Por um momento, tivemos tudo. E isso compensa todo o resto.
Eu sei que foi uma história como qualquer outra história de amor que acaba. Foi bonita. Com altos e baixos. Com coração partido, vontade de voltar, negação e coisa e tal. E, caramba, foram quase 4 anos dividindo a vida a dois, fora os 3 anos em que fomos só amigos. Uma vida, de fato.
Eu sei que esses momentos que me moldaram, por isso em algum momento vou conseguir acessĂĄ-los dentro de mim, mas hoje eu percebo que eles nĂŁo me definem mais.
Hoje eu vejo diferente daquela Ă©poca de sofrimento. Eu sei que eu nĂŁo podia mudar nada, porque eu sempre soube que nosso fim chegaria. Um dia, ou outro. Mais cedo, ou mais tarde. E quando ele veio, cristalino na minha frente, foi difĂcil de entender. Mas agora jĂĄ estĂĄ tudo limpo e resolvido.
Hoje nĂŁo tem desculpa para esse texto tĂŁo bagunçado e sem sentido. Nem posso falar que Ă© saudade, porque nĂŁo Ă©. Mas eu gosto de te escrever, vocĂȘ sabe.
Eu me sinto melhor. Em todos os sentidos.
âE vou lembrar os contornos do seu quarto
Os contornos do seu corpo
Seus discos
Suas paredes
Suas xĂcaras de cafĂ©
Suas manhĂŁs e seus meios-dias e suas noitesâ















