Acordei, escovei os dentes, pensava comigo mesmo: “como vai ser meu dia?”. Nada muda, faculdade, trabalho, festa, vida normal de um jovem adulto. Algo extraordinário iria me acontecer novamente? Corto o fluxo: “Provavelmente não”. Empolgação para a cervejada universitária, prazeres momentâneos, vou ficar com alguém? Não sei se quero. Difícil essa liquidez jovial. Amigos, curtição padrão, nada fora da curva, nem mesmo imaginei que algo estava pra me acontecer, alguém me chama, queria conversar comigo, me elogia, raras as ocasiões, não? 15 minutos de papo, o que ela queria dizer com aquilo? Estranho, intrigante, álcool sobe, esqueço disso. Dia seguinte acordei, pensei, o que infernos aquilo significava? “Provavelmente nada demais”, continuo curioso, será que pergunto? Dia passa, semana começa novamente, lembro do fato, por que não chamar? Pergunta respondida, dúvidas continuavam, pensava que havia um acordo de silêncio sobre o assunto. Continuo intrigado, insisto, começava aí uma mudança na rotina, como aconteceu exatamente? Não consigo explicar. No começo as trocas de mensagens eram normais, aparentemente nada demais. Personalidades, assunto incrível. Eu: ENTP, dito como advogado do diabo. Ela ENFP, espírito livre. E se? Sim, para minha surpresa as duas se encaixam perfeitamente de maneira romântica, excitante. Os sentimentos começavam a entrar num terreno obscuro: a dúvida. A rotina muda, tenho um motivo a mais pra acordar, sim, estou ansioso pelo momento que vou começar sorrir novamente pra tela de um celular. Como pode as horas passarem como se fossem minutos quando conversava com ela? Era como uma droga, tão viciante, no momento impossível de parar, estava entorpecido. Um detalhe sempre passava despercebido. Chegou o momento de encontrar-se pessoalmente, no meu bar de rock preferido, o Bola 7. Um frio na barriga começa me consumir, agora era diferente mas não era um encontro, os amigos estavam juntos. Quando a vi fiquei intimidado, havia um prometido: fotografá-la, nunca fiquei tão perdido em algo que sei fazer tão bem, o que estava acontecendo? Eu fugi, posteriormente ela fugiu, corri atrás, não poderia ficar por aquilo. Ela volta. Que lugar bom, me sinto à vontade, som tocando, queria conversar, olhava e não conseguia, o que representa esse olhar? Tão incisivo, será que estou enlouquecendo? Nunca tinha experienciado uma troca de olhares tão sincera e intensa. Cantávamos juntos. Continuo esquecendo do principal detalhe. Chegou a hora dela ir, insisti pra ficar mas sei que não tinha como, pela primeira vez fico triste pensando nela. Sua companhia era tão incrível. A rotina, agora extraordinária, continua. Lembro de uma música, conheci por outra garota, garota estranha mas de bom gosto. Começo ouvi-la novamente, aos poucos ela vai adquirindo significado, tem uma frase, a primeira da canção, “Ela gosta muito de brincar na minha mente”, longos e prazerosos arrepios surgiam quando eu a ouvia. Por que isso começou a fazer tanto sentido? O detalhe permanecia esquecido. Em cima da hora combinamos de ir no lugar que sentiremos falta, e que dá faltas, o bar da universidade, esse eu frequentei mais do que deveria. Ela desce o morro sozinha, estranho, eu esperava que mais pessoas viessem juntos. A conversa começou de forma natural, pago uma cerveja, afinal eu que convidei. Álcool, tão bom, pensei, “essa é boa”. Nada anormal acontecendo exceto aquele maldito olhar, dessa vez tenho certeza do que estava acontecendo. Na mesma hora outra música me vem na cabeça, maldito Pethit quando parafraseou “O teu olhar é um caminho sem saída”, sorrio sozinho, ela não entendia, acreditava que eu estava vivendo a música. Ironicamente o assunto sobre olhos começou, ela reparou em algo que ninguém nunca sequer citou para mim: meus olhos. “Na parte de baixo da pra ver o branco dos seus olhos”, olhos Sanpaku, a lenda diz que olhos assim são amaldiçoados, a pessoa terá uma morte trágica, já passei muito perto de uma morte assim, miserável e catastrófica porém achei bobagem na hora, não acredito em lendas, são falhas. Continua…