As figuras de Zélio que reluzem como o ouro
Tassia Moretz-Sohn Fernandes. Colaborou Mônica Rodrigues da Costa.
São Paulo, 23/7/2025
Com bom ânimo a nuvem recebe e repassa a notícia da exposição “ZÉLIO. Imagens e figuras imaginadas”, na Galeria MaPa, Consolação, São Paulo, em exibição até o dia 15 de agosto. À mostra estão pinturas, gravuras, fotografias, catálogos e instrumentos que dão pistas sobre o perfil e sobre as várias fases do artista Zélio Alves Pinto, 87 anos – pintor, jornalista, escritor, artista gráfico, caricaturista, ilustrador, ex-diretor de museu, pensador brasileiro e irmão do Ziraldo também.
Imagem: “Ameríndios II, B” (2000). Reprodução/Enciclopédia Itaú Cultural. Disponível em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/25461-zelio.
Importantíssimo ressaltar que Zélio pesquisou os ameríndios – indígenas do continente americano pré-colombiano e pré-cabralino – por mais de 40 anos. Não só pesquisou como também materializou em tela um tipo de alquimia, misturando formas geométricas com figuras curvilíneas e o produto da equação vem na abstração que remete ao encontro de civilizações na espiral do tempo.
“Zélio opera uma fusão entre tradições distintas – ocidental e pré-colombiana-azteca e maia – , demonstrando a fertilidade de se avançar a partir do passado.”, comenta o professor, pesquisador e curador Agnaldo Farias.
Na série “Ameríndios II”, por exemplo, com pinturas feitas nos anos 1998 e 2000, quadros se parecem com mapas e planos cartesianos georreferenciáveis que trazem novas perspectivas sobre as relações culturais e territoriais entre europeus e indígenas das Américas.
Acima: “Ameríndios II, C” (2000). Abaixo: “Ameríndios II, J”. Reprodução/Enciclopédia Itaú Cultural. Disponível em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/25461-zelio.
“Aplicados sobre fundos sobriamente coloridos, uma ou duas cores predominantes arranjadas em campos articulados aos limites quadrangulares das telas, esses grafismos lhes estilhaçam, avançam de dentro para fora e vice-versa, em ritmos desencontrados.”, diz Agnaldo.
Abstração
Interessada em adquirir outras perspectivas sobre a obra de Zélio e a história das civilizações, a nuvem decidiu ascender até transcender. Branca e fofinha, ela saiu do centro de São Paulo e subiu, subiu, subiu, subiu – até quase o final da troposfera –, onde se dividiu em duas e circulou, circulou, circulou e circulou – até chegar num tempo e espaço onde observou dois povos vivendo no mesmo globo e no mesmo século 16, porém distintivamente.
De um lado a nuvem via os hispânicos, “cartesianos” e “ladrilhadores”, nas palavras de Sérgio Buarque de Holanda, com suas coordenadas e abscissas, sua geometria, suas bússolas e seus outros instrumentos de metal. Do outro lado a nuvem via os ameríndios, nômades, caçadores e pescadores, com sua geometria também, organizados em tabas circulares, abrigados por malocas, construídas com madeira e palha, dotados de utensílios de barro, de algodão, de pele e de ossos – orgânicos.
Ilustrações do belga Theodore de Bry (1528-1598), gravurista que retratou algumas das grandes navegações ao Novo Mundo, na Era das Descobertas, séculos 15 e 16. Na foto acima: parte do mapa detalhado da América, de Bry, com a América no centro e os exploradores Cristóvão Colombo (1451–1506), Américo Vespúcio (1454–1512), Magellanus (1480–1521) e Francisco Pizarro (1476–1541), página 124. Disponível em: https://archive.org/details/discoveringnewwo00bryt/page/128/mode/2up.
Theodore de Bry ilustrou a expedição de Girolamo Benzoni ao novo mundo, na foto acima (p. 136). O gravurista também ilustrou uma espécie de tocaia noturna de ameríndios da Flórida, com arcos e flechas, e musgo seco nas pontas, ateadas em fogo (p. 48), na foto abaixo. Disponível em: https://archive.org/details/discoveringnewwo00bryt/page/128/mode/2up.
A nuvem viu os exploradores espanhois deslumbrados, deixando sua pátria mercantil e feudal, típica da Modernidade, rumo ao Novo Mundo, calculando a rota para El Dorado. “O caminho do ouro! Seria a fonte de riquezas sem fim? A terra da liberdade, da beleza e da fartura? O paraíso exuberante de Eva e Adão?”, especulavam aventureiros e expedicionários.
“Mas afinal, do que é que esses espanhois estão falando?” – questionava a nuvem que, do alto, via com clareza que a novidade, para os exploradores, não passava de ancestralidade para os nativos da região. “E assim a roda gira”, pensou a nuvem. “Curvas e ângulos vão se configurando até gerar coisa fecunda; nova”, refletiu.
Imagem: “Brasiliana em Vermelho e Amarelo”. Reprodução/Blog Zélio Alves Pinto. Disponível em: https://zelioalvespinto.blogspot.com/.
Diante de seu computador, a nuvem pensa nas pedras, nos metais, nas letras, nos números e nos algoritmos da Inteligência Artificial. Pensa também na natureza, na proporção áurea ou número de ouro, em Fibonacci (1170-1250) e no tanto que a roda girou e a espiral progrediu. Tantas mentes. Tanta gente. Traçando rotas em busca de caminhos e sentidos. Tentando descobrir ou revelar um paraíso perdido. Uma pedra filosofal. Um elixir da vida eterna. Deus. O Sol. O sonho da "Teoria de Tudo", local e global. No Planeta azul, na placa-mãe, ou sobre algo do tipo. O que buscamos e o que iremos encontrar? Onde estará El Dorado?
Serviço:
Zélio – Imagens e figuras imaginadas
Curadoria de Agnaldo Farias
Onde: Galeria MaPa. Rua Costa, 31 (travessa da rua bela Cintra, sentido Higienópolis).
Quando: De segunda a sexta, das 10h às 18h; sábados sob agendamento. Até 15 de agosto de 2025.








