sgmilo·:
Era impossível não começar a se perguntar se estava mesmo vivendo aquele tipo de situação. Literalmente, era algo que só fazia sentido em filmes. Mesmo tendo dito várias e várias vezes que era absolutamente capaz de se interessar e se apaixonar por alguém sem conhecer mais que sua voz e alguns aspectos de sua personalidade e vivência, a surpresa diante da percepção de que podia mesmo ser real era genuína. A maneira como seu corpo estava reagindo naquele momento, ao receber a confirmação de que a animação era recíproca, era estranha. Mas ele estava feliz que o outro não pudesse ver a maneira como suas bochechas e as pontas das orelhas coravam violentamente naquele momento. ━━ Acho que faço, porque é exatamente o que estou sentindo agora. ━━ Devolveu enquanto tinha ambas as mãos sobre o peito. ━━ O meu também está. É vergonhoso até, estou me sentindo com quinze anos de novo. ━━ Disse, junto a uma risada. ━━ Mas não é ruim, não é? É um bom sinal. ━━ Quanto aquilo, Milo estava positivo, pelo menos.
A resposta do outro o fizera sorrir automaticamente. Milo também achava, mas era suspeito para falar, considerando a importância que algo tão pequeno tinha em sua vida. Mas a certeza de que ele já estava com a insígnia em mãos o deixava ainda mais ansioso. Havia muita explicação ainda e esperava que fizesse sentido para o mais velho tanto quanto fazia para si. Mesmo que não pudesse ser visto, assentiu em resposta sobre falar um pouco mais sobre a situação. ━━ Senta que lá vem história. ━━ Avisou, por entre uma risada baixa, carregada de nervosismo. ━━ Eu cresci em uma fazenda e é um lugar que oferece mais do que sustento, sabe? É literalmente toda a nossa vida e a gente ama o que faz. Mas é difícil, é uma vida dura. E meus pais não queriam isso para meus irmãos e eu, porque as coisas mudaram e a gente tinha uma chance verdadeira de ser mais do que um caipira para o resto da vida, né? Só que meu irmão mais velho engravidou uma colega de escola, casou cedo e foi viver a vida dele. Meu outro irmão largou a escola para ajudar a cuidar das terras, porque as coisas ficaram pesadas com um a menos. Então, meio que sobrou para mim a tarefa de mudar as coisas lá em casa. Minha família toda sempre teve muita expectativa de que eu iria para cidade, que faria faculdade e teria uma vida mais fácil. Mas não consegui. ━━ Falar tudo de uma vez parecia um bom método, em sua cabeça. Contudo, a realidade era diferente. Conforme avançava em seu relato, sua voz falhava aqui e ali, quando o nó na garganta apertava um pouco. Não iria chorar, sabia disso, mas não podia evitar o aperto no peito. ━━ Não consegui uma bolsa de estudos e meus pais não tinham a menor condição de arcar com educação superior. Eles nunca apontaram nenhum dedo para mim, mas tem coisa que não precisa falar… Eu estava tão frustrado, tão chateado com tudo, que fui cumprir o serviço militar obrigatório. É a saída mais fácil para quem não sabe o que quer da vida, segundo meu pai. Fui para a Marinha porque a base era em uma ilha bem longe de onde eu morava. ━━ Admitiu, por entre uma risada curta, sem tanto humor. ━━ Foi um tiro no escuro, mas foi a coisa mais certa que fiz na vida. Foi literalmente onde eu me achei e quando tive certeza de que era o que eu queria.
Por conta do nervosismo, Milo acabou colocando-se de pé. Enterrou as mãos nos bolsos frontais da calça e passou a andar de um lado para o outro ao redor do sofá, em passos lentos enquanto continuava: ━━ Mas também não foi fácil. Só Deus sabe o quanto eu ralei e ainda ralo em convés o dia todo, debaixo de chuva ou de sol, de noite ou de dia. Exige muito esforço, dedicação, comprometimento e amor, né? Acredito muito na força do ódio, mas amor é importante também… E sinto como se tivesse feito de novo, sabe? Dado outro tiro no escuro por ter vindo aqui. Dizem que um raio não cai duas vezes na mesma árvore, então teoricamente eu não teria chances de me achar aqui também, romanticamente falando, mas com raio é questão de sorte. Ou azar, na verdade… Minha carreira não foi. E com relacionamento é quase a mesma coisa. Não é tanto uma questão de sorte, mas de dedicação, amor, esforço e tudo isso. Consegui uma vez e acho que consigo de novo, sabe? Eu tô aqui, de peito, braço e mente aberta para o que der e vier. Por isso que essa insígnia é o que melhor me reprenta hoje.
Ouviu o relato do rapaz em silencio, apenas concordando com a cabeça em algumas das partes com as quais se identificou, compartilhado uma risadinha quando o outro ria e absorvendo aquela historia tão pessoal e incrível. Podia dizer que conhecia o rapaz muito mais agora do que a instantes atrás, e entendia muito bem sobre tudo o que ela estava falando, o desejo de orgulhar os pais, de suceder nos estudos, de ser alguém... Aquilo definitivamente era algo com o qual podia se relacionar, e não entendeu o sentimento de orgulho crescente em seu peito pela conquista do outro. A todo momento enquanto Milo falava, suas mãos acariciam a insígnia como se de alguma forma aquelas caricias pudessem atingir o rapaz desconhecido a sua frente, queria que ele soubesse de alguma forma que estava ali pra ele, e que estava muito feliz por compartilhar com Milo aquele momento tão intimo. Sua cabeça dava voltas, seus pensamentos misturavam-se entre as possibilidades e realidades, seu coração estava tão apertado naquele momento quanto feliz. “Milo...” Começou, mas notou que sua voz estava mais rouca que o normal, precisando limpa-la antes de continuar. “Uau, eu... Eu estou sem palavras, só... Obrigado por compartilhar isso comigo.” Colocou a insígnia de volta na caixa e a deixou sobre a mesa, levantando em seguida e caminhando até a parede que os separavam. “Eu aposto que você é motivo de muito orgulho pro seus pais e que a vida se encaminhou para onde tinha de ir, e eu não sei se isso vale de alguma coisa, mas eu estou tão... Orgulhoso de você agora.” Riu baixinho, colocando a mão sobre a parede. “E sei lá, talvez... Bom, a gente nunca sabe, né? Mas talvez um raio caia mesmo duas vezes no mesmo lugar.” Ficou em silencio por um tempo antes de respirar fundo, soltando todo o ar dos pulmões em seguida e voltando para o seu lugar no sofá. “Bom, acho que agora é minha vez.” Riu, sentando-se em posição de índio. “Eu queria te mostrar tantas coisas, mas...” Murmurou mais para si mesmo que para o outro. Quando Davi soube que precisaria levar algo seu que fosse significativo e falar sobre aquilo não pensou duas vezes, era o que tinha de mais precioso e estava pronto para compartilhar com alguém tão importante quanto Milo. “Bom, tem uma caixinha ai do seu lado, dentro dela você vai achar um pequeno globo.” Suspirou. “É meio simples, mas muito significativo pra mim, veio da minha terra, e é algo que me lembra todos os dias quanto eu acordo de onde eu vim e pra onde eu quero ir.”













