Taehyun gostaria de dizer que não se afetava com o passado. Que não sentia o ódio borbulhar em seu estômago por ocorrências datadas de décadas; que não desprezava seu pai por ser um cretino, seus colegas de escola por serem preconceituosos, e seu ex-namorado por ter lhe abandonado. Entretanto, se o dissesse, estaria sendo mentiroso. Cada pequena ofensa, e também cada grande decepção, acumulavam-se em suas costas a cada novo ano, e, a sua frente, com uma cara ridiculamente ainda tão bonita, e fedendo a álcool, estava uma de suas maiores dores. Se fosse apenas mais uma como todas as outras, talvez não a detestasse tanto, porém não. Seu âmago ainda havia de amá-lo, de alguma maneira. O que havia para amar em um covarde?, foi a pergunta que lançou a si mesmo, observando o estado deplorável no qual o outro se encontrava. O que haveria para não amar em um homem tão perdido quanto aquele?, seu coração, tendencioso a decisões estúpidas, respondia.
Segurou-o com firmeza e, apesar de Minwook ainda ser maior e mais forte do que si, Taehyun ao menos conseguia impedir que este não caísse no chão por tamanha embriaguez. Suspirou, olhos se desviando do rosto dele, em busca de qualquer mínimo auto-controle em suas veias. Por que ainda queria puxá-lo para mais perto? Por que ainda hipnotizava-se por suas íris escuras? Por que ainda havia de sentir falta de seu maldito perfume, reconhecível mesmo mesclado ao pesado cheiro de bebida? Filho de uma puta. Ainda assim, continuou a segurar o braço de Minwook com força, seu outro braço em torno da cintura dele, enquanto tentava levar ambos para seu apartamento. Taehyun tinha de ser o único louco a fazer tanto por um ex-namorado babaca. Estremeceu ao sentir o contato entre suas peles, afastando-se por instinto. Não cederia, embora suas pernas já fraquejassem devido ao mínimo encostar do rosto alheio contra sua nuca, ainda tão sensível quanto era a anos atrás. Continuava a seguir até sua casa, necessitando convencer-se de que seria inadequado largar alguém naquele estado no meio da rua, ainda que a ilha não fosse lá tão perigosa assim. Parou em frente ao imóvel recém-adquirido, tomando suas chaves em mãos. Entretanto, sentiu sua espinha congelar ao ouvir o apelido tão antigo quanto a felicidade que já havia compartilhado com aquele homem. Fechou seus olhos com força, controlando-se para não apenar enfiar um murro no rosto do mais velho. Como aquele cretino tinha coragem de fazer aquilo consigo?, pensou, bufando. Estava pronto para abrir a porta e distanciar-se de Minwook, mas este logo tomou seu rosto entre suas mãos.
Taehyun nunca se sentira tão frágil. Por segundos, permitiu-se ser tocado. E, por mais que tivesse contato com diversas pessoas, há muito não permitia-se aquele tipo de intimidade. Uma intimidade perigosa. Aquela que poderia por acabar o machucando mais uma vez. E, por mais que a proximidade fosse tentadora, o delinear dos lábios de Minwook quase o puxando para mais perto, Taehyun forçou-se a empurrá-lo minimamente, as duas mãos contra o peito alheio.— Para, Wook.— o apelido inevitavelmente escapou de sua língua, desenrolando-se como há anos nãos fazia. Taehyun encolheu-se, como se lhe doesse fisicamente pronunciar o nome alheio em tom carinhoso. De certa forma, doía. —Eu não estou para brincadeiras.— murmurou, puxando uma das mãos do outro para longe de seu rosto, enquanto finalmente adentrou em sua casa.— Vem, eu vou te dar um banho.— voltou a puxá-lo, desta vez o levando ao seu banheiro, mente sobrecarregada de pensamentos que pouco o ajudavam. Assim que entrou no cômodo, fechou a porta atrás de si, colocando o homem sentado sobre a privada. Encarou-o por longos segundos, como se absorvesse aquilo.
Minwook, bêbado, provavelmente ainda casado, em sua casa.
— Você realmente gosta de foder com a minha cabeça, não é?— perguntou, antes de começar a retirar a blusa do mais velho.
A realidade e a fantasia pareciam se mesclar em sua mente – havia bebido tanto assim?
Há muito desistira da ideia de, um dia, por ventura, ver aqueles lábios pronunciando seu nome novamente carregando algo além de desprezo. O latejar em sua cabeça até mesmo perdera a importância, assim como tudo ao redor. Tudo o que desejava era juntar seus lábios aos dele, relembrar o nunca esquecido gosto que estes possuíam, se entregar a cada textura, mas o universo não deixaria um desgraçado ser digno de tanta alegria de uma única vez.
Tudo parecia acontecer rápido demais, as palavras proferidas a seguir não foram propriamente registradas, assim como apenas teve tempo de franzir o cenho em estranhamento ao atravessar o apartamento desconhecido. Quase se desequilibrou durante o trajeto, tropeçando uma ou duas vezes nos próprios pés antes de se ver sentado em algo desconfortável.
Fechou os olhos quando uma pontada especialmente forte o atingiu. A cabeça tombou até encontrar a superfície dura e fria, assim como sua vida. O senso de realidade era minimamente retomado enquanto o maltrapilho recobrava seus sentidos, quase se esquecendo, por um segundo, dos delírios tidos há pouco. Poderia facilmente ter adormecido ali mesmo, como se estivesse em sua casa, se não fosse a mão que começou a despi-lo e a voz que voltou a atormentar – ou melhor, agraciar – seus ouvidos. O coração desenfreou mais uma vez aquela noite, e o homem ofegou, covardemente temendo tirar prova do que acontecia ali. Ao mesmo tempo em que esperava que fossem devaneios de uma mente saudosa havia uma pontada de esperança de que, ao abrir os olhos, iria se deparar com o alvo de todo o amor que se descobriu capaz de sentir.
Permitiu que as vestes lhe fossem tiradas, peça por peça, como se sua consciência estivesse longe dali. Seu corpo estremecia sempre que sua pele esbarrava na alheia, como se ondas de eletricidade o percorressem. Minwook não queria abrir os olhos; não queria, mas abriu.
Quando seus olhos encontraram os do ex-namorado sentiu como se não pudesse respirar. Tão perto. A destra foi atraída ao rosto bonito, depositando ali uma carícia discreta e receosa, somente para testar a realidade da imagem à sua frente. Os olhos escuros brilharam como há muito não faziam; desde que ele se fora.
Em um rompante o advogado se ergueu, e no minuto seguinte o corpo forte prendia o esbelto contra a parede. — Taehyun... Você... O cérebro não se via capaz de formar uma frase coerente, e tampouco queria perder tempo com isso. A respiração desregulada e quente batia contra a bochecha do mais jovem ao tempo em que as mãos trêmulas passeavam por seu corpo, conferindo a integridade do mesmo. — Me diz que é você... me diz que dessa vez é você... O álcool que corria por suas veias, em conjunto com a adrenalina, não permitia que o tão controlado homem de negócios filtrasse o que deveria ou não ser dito, o que ser feito.