Ninguém é amigo de ninguém
temos um problema de calamidade pública! explico. era tarde da noite, daquelas noites calorentas, sabe? sentei-me à mesa branca para baixar no corpo algo que me saciasse a fome depois daquele longo dia de leituras e análises de artigos científicos. onde eu estava? no galego's, claro! me atendeu um rapaz sorridente, naquela euforia de sempre. conferiu se eu queria gelo no meu suco. claro! capriche gelo! nesse calor, né, mermão? dois minutos enquanto esperava dei conta de um burburinho que crescia entre os outros funcionários. é que a única mulher que tava trabalhando ali estava pistola. entre os chiados de carne de hamburguer na chapa e as reclamações dela, eles riam. ela era a única mulher. e gritou mais de uma vez o que daria uma manchete no jornal de meio dia "aqui no galego's ninguém é amigo de ninguém!" exausta a bixinha. não sei se seu nome era gracy, ou luiza, ou maria das dores… sei que a tristeza dessa moça tava apertando ela naquela noite. fiquei angustiado. afinal, eu fui ali preencher meus vazios, me lambuzar de prazer com um lanche gostoso, entupir de molho meu hamburguer… NÃO! MELHOR NÃO COMER O MOLHO! o molho do galegos está cheio de tristeza! nenhum dos homens tranquilizou a pobre coitada. ninguém deve nem ter oferecido uma carona pra casa, ou um pouco de paciência. eu reivindico nessa assembleia uma solução pra isso: deve ter alguém que possa fazer algo! eu acho que tem alguém que já estudou sobre empreendedorismo, gestão de pessoas, qualidade de vida no trabalho (ou a falta dela), pequenos negócios… e se estudou escreveu, publicou, se formou, e disse ao mundo da importância de resolver os problemas da sociedade. certo? cadê esse povo, minha gente? pra dizer ao dono do galego's que assim não dá pra vender lanche? porque senão a cidade acorda infeliz e o trânsito fica uma merda, porque alguém tá constipado e a porra do ônibus ainda quebra na tancredo neves… como que a gente fica? como que a gente fica se as mãos que fazem o pão estão tristes e ninguém lhes dá um colo? a gente fica vazio. a gente fica mais vazio ainda porque tem uma grana da porra indo pra polícia. pra ela fazer o quê? matar preto, prender maconheiro e soltar playboy que bate na mulher em casa. mulher que sai pra trabalhar no turno da noite fazendo hamburguer pra ver se tem um pouco de paz. é, talvez ninguém seja amigo de ninguém no galego's mesmo.
mas eu tenho amigos na madrugada. e o que a rua pode oferecer é muito mais do que a fome. meu projeto de não-lei é pra que a gente dê alguma vida aos muros, com lambes e tinta de spray, que eles possam falar cada vez mais alto. que as bikes possam circular em paz e que a lua revele a verdadeira face dos que temem nossa felicidade! meu verso é para que a gente adentre a noite com samba no pé e que os sons das cuícas e os gritos de gozo corram pela rua anunciando que a gente insiste em ser feliz. meu rezo é pra que nas encruzas da vida, num dia difícil, alguém apareça oferecendo uma mão amiga. que a gente lembre que uma boa palavra já é magia, que um amigo é talvez a coisa mais valiosa que se pode ter. meu artigo é pra que o papel que branco tanto adora ler conte de nossas histórias, que as letras atravessem como flecha a carne morta de seus olhos que de tão pouco estimulados só conseguem ler as mesmas coisas. as mesmas letras mortas, de gente morta em vida, que escreveu uma receita de como matar uma sociedade. que meu pixo afete o cérebro de quem passa trancado num carro e ajude fazer outras conexões, que não as mesmas sinapses de sempre, enquanto ouve a merda da jovem pan e se aliena ainda mais. que as rádios piratas interfiram nas frequências e buzinem nos seus ouvidos:
vocês têm um problema de calamidade pública! o povo tá com fome e exú é amigo do povo. 🌶️🚬🍺⚰️🗝️















