victorcrist:
O destino realmente conseguia ser filha da puta sempre que queria. Não havia mais nada que pudesse justificar a situação em que se encontrava: os poucos segundos em que ficou em silêncio, mentalizando as mais perversas peças que poderia pregar em Ophelia e apenas lembrando de sua existência fizeram com que a garota praticamente caísse em seu colo. Se Victor tivesse planejado aquele momento, ele não teria ocorrido de maneira tão perfeita quanto a realidade, mas ele bem sabia que jamais teria feito tal coisa. Ou, pelo menos, era naquilo que gostava de acreditar. De qualquer forma, dali em diante, precisaria lidar com uma das maiores dores de cabeça de seus dias: uma que se fazia presente sem que sequer notasse, sempre se infiltrando em sua mente de forma sorrateira, tomando quaisquer linhas de raciocínios um dia decentes e transformando-as em uma bagunça absurda. Aquela era Ophelia Wood.
A pior parte de todo aquele problema era o fato de que a irmãzinha dos melhores amigos provavelmente sequer imaginava a situação que estava causando. De certa forma, Victor podia admitir que aquilo não era culpa dela. Afinal, o responsável por enlouquecer ao relembrar todos os embates constantes dos dois era ele. Ophelia era alguém muito mais racional: na maioria das vezes, quem se deixava levar pela emoção e fazia questão de apertar os botões da lufana era Crist, sempre obcecado com arrancar qualquer que fosse a reação dela. Por algum motivo inexplicável, gostava de tirar a garota do sério, de deixá-la bufando e longe da aura costumeira de paz e placidez que a envolvia. Contudo, Vic sabia que brincava com fogo em um tempo milimetricamente contado. O dia da vingança suprema da Ophelia está cada vez mais próximo, suspirava Oliver, sempre que ouvia da última das peripécias do grifino.
Naquela noite, o mais velho não estava por perto para ser sua voz da razão. Crist julgava aquela a ocasião perfeita para fazer o que bem entendesse, sem que um ser muito mais coerente e evoluído o impedisse de arranjar confusão. Ao ter Ophelia em sua frente, porém, perfeitamente decente para a formalidade requerida pelo clube do professor, sentia que qualquer comentário maldoso ou peça bem arquitetada evaporasse em sua mente, como se naquele instante existisse algo de importância muito maior. Por bons segundos, Victor permaneceu estático, encarando a garota como se nunca tivesse a visto em sua vida, as sobrancelhas franzidas e os lábios entreabertos, prontos para deixar rolar solto alguma ofensa. Nada realmente saía: sua mão permaneceu no ombro da lufana até ela se afastar por si só, um rastro de perfume anuviando seus pensamentos e atrasando ainda mais a resposta costumeira da presença de Vic.
Balançando a cabeça violentamente, se esforçou para prestar atenção no que Ophelia lhe dizia, enfim soltando outra gargalhada cínica assim que seu organismo pareceu voltar a funcionar. “Eu sou um stalker ou você que arquitetou esse esbarrão, justamente nesse lugar?” Arqueando uma das sobrancelhas, Victor inclinou-se na direção da lufana, fazendo com que outra lufada de perfume subisse ao olfato e deixando, ao seu ver, toda aquela situação muito mais agradável. Mas ele jamais seria pego admitindo tal realidade. “Pode ser que eu estivesse mesmo. Se eu estava pensando bem ou mal, você nunca vai saber.”
O grifino ignorou o questionamento irritado da garota, entornando o que restava de whisky de fogo em seu copo, a queimação que se seguiu em sua garganta auxiliando em sua missão de manter a calma perante a pestinha que sempre fazia sua cabeça girar. Mais tarde, Vic poderia refletir sobre como ele não odiava a companhia de Ophelia, nem mesmo um pouco. Naquele momento, porém, ele precisava manter as aparências. “Desde quando o Slug convida gente que nem você pra cá? Eu vejo que o nível desse lugar anda decaindo e muito.”
O queixo se ergueu levemente para sustentar a postura enquanto aguardava a resposta do outro, apesar do coração acelerado com o esbarrão. Não tardou até que o silêncio se tornasse incômodo e Ophelia se desse conta de que Victor parecia estranhamente perdido e quieto, o que não fazia parte de costume. Um finco se formou entre as sobrancelhas, que se desfez poucos segundos depois ao respirar mais profundamente, incomodada com o olhar do outro para si daquela forma. Wood sentiu um pequeno arrepio subir pela nuca, além de se perceber estando prestando mais atenção nos detalhes que emolduravam as feições de Victor, mas desconfiava ser apenas o efeito do álcool em seu corpo e mente, acabando por fazer uma nota mental de evitar beber quando Crist puder se fazer presente.
“Eu?!” Questionou com o tom de voz elevado, quase ofendida pela sugestão de Victor em relação à possibilidade absurda de planejar aquela situação, logo percebendo que alguns bruxos mais próximos chegaram a virar na direção dos dois, fazendo com que Ophelia desviasse rapidamente o olhar e retraísse um pouco mais a postura antes firme. “Se fosse um plano meu eu certamente escolheria alguém diferente para esbarrar em uma festa” completou em seguida, pressionando os lábios e o encarando com o semblante fechado, como de costume. A frase seguinte de Victor fez com que Ophelia sentisse o rosto queimar, torcendo para que não estivesse de fato corando e fosse só mais um efeito do whisky de fogo “Você fala como se algum pensamento bom pudesse existir aí dentro” retrucou erguendo uma das mãos para indicar a cabeça do grifino, com um sorrisinho displicente no canto dos lábios.
As feições de Ophelia mudaram nitidamente com o comentário acerca do “nível” do clube e retrucar e tentar irritá-lo na mesma moeda não estava parecendo mais vantajoso ou interessante. A lufana revirou os olhos levemente e soltou um suspiro pesado. “Gente como eu?! O que você quer dizer com isso?” questionou séria, mas sem encará-lo. Apesar de seus pensamentos estarem disparados com diversas formas de ofendê-lo - afinal Victor poderia ser um desastre ambulante na maioria das vezes - não pareceu nada com o que ela faria, mesmo ao ser provocada daquela forma.














