O câncer também me trouxe amigos novos, mulheres fantásticas que lutam e lutaram como eu. O texto a seguir foi escrito por uma dessas mulheres ( e ela me permitiu reproduzir aqui), que nem tive a oportunidade de conhecer pessoalmente mas que descreve com incrível lucidez todo o percurso do tratamento.
“Editado: Gente, esse texto publiquei sem querer. Estava escrevendo para mim mesma, de madrugada, ia salvar no privado, só agora vi que deixei público 🫣Não está nem acabado… me perdoem. Mas já que foi, então fica aqui. Obrigada pelo carinho de todos.
A dor da alma é parte da doença e pode ser compartilhada, embora muitas vezes o que você mais almeje é não ter que relatar para ninguém seus martírios: seu maior desejo é ter resguardado o direito de estar doente sozinho. Há momentos em que um quarto vazio de pessoas e uma cama limpa são um oásis para um corpo esgotado. A dor corporal, ao contrário, é “prerrogativa” sua e só sua. Fica firme aí, corpitcho, porque vem chumbo grosso.
Olhar-se no espelho e encontrar uma pessoa lívida, careca, sem sobrancelhas nem cílios é meio como se sentir um extraterrestre bizarro. Um momento que se repete solitariamente ao longo do dia, afinal, o banheiro é seu segundo quarto. E você toma um susto com aquela imagem todas as vezes, pode crer. Para onde eu migrei, cadê minha identidade? Onde estava escondida essa lagartixa branca e anêmica?
Nada se compara, entretanto, ao momento em que você fica ofegante escovando os dentes ou às inúmeras tonturas que sente toda vez que se levanta (da cama, da poltrona ou do vaso sanitário, depois de lidar com mais uma prisão de ventre cortando suas entranhas, por exemplo). Ninguém pode, nem mereceria, passar por isso no seu lugar. É doloroso e humilhante. A batalha segue solitária e meio inglória. Quase sempre, o tumor ganha de você nas avaliações médicas.
Você recorre à fé, a Deus, à sua força interna, aos seus medicamentos psiquiátricos. Você briga contra seu próprio corpo, que quer se entregar, quer desistir de um tratamento que, pqp, castiga mais que o suportável. Com o correr do tempo, um tratamento longo pode drenar quase toda sua garra a ponto de você querer mandar um f*da-se para a quimioterapia. Quando olha para frente, vê que ainda tem cirurgia, radioterapia e mais químios e imunoterapia. E um futuro em forma de interrogação. Eu estou nesse ponto hoje.
Meu currículo de efeitos colaterais já tem fraqueza, fadiga, enjoo, náusea, aversão a cheiro de comida, dor de cabeça, insônia, sangramento nasal, diarreia, prisão de ventre, hemorroida, fogachos, feridas na boca, feridas na garganta, alergias de pele, tonturas - muitas tonturas! - dificuldade de subir três degraus sem perder o fôlego, sonolência excessiva e por aí vai. Na boa, sem autopiedade. Odeio isso, juro. Não estou aqui com peninha de mim nem quero que sintam qualquer grau de comiseração. Eu venho suportando até que muito bem esse caminho de pedras.
Atualizando e finalizando: esse texto não tem um objetivo claro. Como disse, estava escrevendo para mim mesma, em forma de desabafo e, inadvertidamente, acabei deixando público. Mas, para dar um arremate, gostaria de dizer que a lição que fica é sobre o cuidado e a delicadeza que se deve ofertar à pessoa que está doente.
Dê força, sim, mas respeite a demanda do doente. Não seja brusco nem invasivo. Você provavelmente não sabe da missa um terço. Pode ser que até falar seja literalmente dolorido - e é, quando as feridas estão ativas na boca e na goela.
Contenha sua vontade de falar com o mundo sobre as agruras da pessoa. Muita gente, mesmo inconscientemente, “vibra” com as derrotas alheias. Mande orações e boas vibrações, mas não alimente a fofoca sobre o sofrimento de ninguém.
Por último, seja solidário sem se mostrar condoído. Enxergar o compadecimento no outro faz com que nos percebamos dignos de pena. Um doente não é um coitadinho. É apenas alguém em trânsito para a cura. Pelo menos é o que ele espera. Guarde o seu pesar no bolso e prefira oferecer uma sopinha. Isso, sim, é alimento para a alma e o corpo. Só não fique aborrecido se a náusea do presenteado impedi-lo de degustar o alimento na hora. Saiba que, sim, a alma, pelo menos ela, está aconchegada.” - Suzana Dias