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@p-mizzo
São tantos talvez.
Você é aquelas dez músicas que eu não me canso de escutar.
Ontem eu lembrei de você. Deu uma saudades!
Não quero de maneira alguma, enfeitar a tristeza, fazer dela um doce lar. Falo com a voz calma, baixa e porosa. Os lábios se encontrando levemente, "não escolhi estar, só aceitei ficar". Torna-se crucial esse entendimento.
Te banhei com lágrimas e rosas. Todo o meu corpo era dor de saudades. Em um canto, em mim, me recolhi rejeitando todas as cores alegres que o mundo me esfregava na cara. Não na tentativa de mostrar a minha vida infeliz, fazia pior, mostrava o quão feliz eu poderia ser, me atrelando a culpa de não querer.
Usaram o sol contra mim.
Saudades de quando eu nadava, mergulhava com os olhos abertos na água com cloro que atacava a minha alergia. Talvez seja isso que me faz amar o mar. Sua beleza é do seu tamanho. Guarda seus segredos em suas profundezas; as sutilezas e a delicadeza são guardadas em suas cavernas, tão profundas que nem o sol ousa iluminar. O mar, tão singular que tem suas próprias estrelas, mitos, sistemas, vida. Mas é na superfície que o homem descobriu o que é espetáculo: é a brutalidade que toca a sutil nuvem.
Pois como amo o mar. Silenciar-me, escutar o barulho surdo e abafado das ondas, ouvir os movimentos vivos de si mesmo sobre si mesmo. O invejo. Por isso que o amo. Tento imitá-lo: enfio a cabeça por entre as mãos e tento reproduzir o silêncio, prendo a respiração, me desespero, mas em vão. Pois, mesmo com a pressão da pele sobre a pele, não consigo me abafar, não espanto os ruídos de um cotidiano falho. Me venderam ilusões; pensando bem, nem sei quando comprei, e tão pouco sei para onde ligar, reclamar, a vida não tem um endereço para devolver a si mesmo.
Me revolto, não como as ondas; me quebro, não com a beleza das ondas contra a costa rochosa do continente, não faço o espetáculo de luzes. Oh mar, ele reflete as luzes, seja do sol ou das estrelas. Eu? Me implodo, e dentro é interno. Tento, juro, me esforço, me arrasto aos poucos por entre os sentimentos, as experiências, não consigo me desvencilhar de mim. Não floreio, não tenho um jardim de corais. Quando alguém se banha em mim, mesmo que na pele, produzo o sal, não deixo a maresia. O cheiro forte do suor, sangue, saem das minhas células e não banham aquele que quer se banhar em mim.
Tenho para mim a certeza das minhas limitações: a pele que assegura a vida é a mesma que me limita. E não sou presenteado com a total ignorância, me sinto em um ponto medíocre. Nas relações não invado, nem crio tsunamis para afogar e destruir aquilo que nem me importo; não tenho a audácia de destruir aquilo que nem sei, aquele algo que deve ser e é insignificante. Seja em mim mesmo, quem dirá o outro ou no outro.
Saudades do mar; se um dia eu morrer, lancem meu corpo ao mar. Não que ele ou qualquer santidade daquele universo precise dos meus ossos como forma de homenagem ou sacrifício, não sou iludido em relação à minha importância quando se tem o mar. Mas me lancem, homenagem ao meu corpo, para que, quem sabe, após a morte, eu encontre no mar o silêncio, não do mundo ruidoso que os demasiados humanos produzem, e aquele silêncio falho que mecanicamente tento com meu corpo. Mas o silêncio do mar.
Lutar contra é como chutar o vento e esperar que ele sinta dor.
Não quero de maneira alguma, enfeitar a tristeza, fazer dela um doce lar. Falo com a voz calma, baixa e porosa. Os lábios se encontrando levemente, "não escolhi estar, só aceitei ficar". Torna-se crucial esse entendimento.
Te banhei com lágrimas e rosas. Todo o meu corpo era dor de saudades. Em um canto, em mim, me recolhi rejeitando todas as cores alegres que o mundo me esfregava na cara. Não na tentativa de mostrar a minha vida infeliz, fazia pior, mostrava o quão feliz eu poderia ser, me atrelando a culpa de não querer.
Usaram o sol contra mim.
O problema de estar no inferno não são os demônios, nem o calor, nem os tridentes, tudo isso até que é de boa. O problema mesmo, é que vai estar cheio de pessoas. Pessoas com boas intenções.
Dia a dia.
Tenho familiaridade com a dor. Passo horas ansiando ser sozinho e me transformar em um cachorro que lambe as próprias feridas. Faço o tempo correr, me ocupando com os olhares dos outros que nem sequer me olham, mas me levo tanto a sério. Fico nesta batalha incansavelmente, me fazendo e refazendo; danço em cima de um oleiro. E enquanto o tempo passa, durante o meu tango solitário, vou carregando os conceitos de mim através do outro que nem sabe sobre mim, como eu. E, em ciranda, vou rodando, com o toque bilateral da minha pele dos dedos longos e finos na palma da minha mão quente.
Até chegar no silêncio da minha casa. Me abraço na dor, respiro autopiedade, a névoa da melancolia que sai da vela ou do cigarro em forma de fumaça... Enfim sozinho, ninguém me vê... ninguém me ouve ou me quer. Mas eu cheguei onde queria.
Bem casado.
Sua felicidade me incomoda. Não desejo ser alguém que nutre o ódio, mas você depositou em outra pessoa a sua felicidade, e este nem é o que impulsiona o sentimento. O que mais me atravessa é a falta de oportunidade que você nunca me ofertou. Queria que você fosse a nota de cem que eu encontrei na rua esses dias: em um mundo em que ninguém mais usa o dinheiro físico, eu a encontrei; você, porém, não. O físico que se esconde através dos quilômetros.
Por um tempo, você foi o motivo pelo qual eu errei conscientemente, aceitando caminhar através do seu prisma; isso para satisfazer o meu ideal de um amor que nunca aconteceu. Talvez o ódio que sinto deva ser compartilhado: primeiro para mim, pois fui acertado por este sentimento que tanto veneram — e, claro, existem motivos para isso. Depois, para a sociedade em geral: os olhos virando de prazer em todas as telas, as pessoas enlouquecidas em busca dessa 'tampa'.
Quem teve a ideia de se fragmentar e sair em uma busca incessante atrás de alguém que está completo? Quem foi que inventou que, para a felicidade de uma vida plena, é necessário estar neste amor que me obriga a performar frente ao outro, para satisfazê-lo e para o autoprazer? Um casal pode ser dois quaisquer fingindo ser, um, o herói do outro. Estático e plastificado em uma foto que nem é aquela nota de cem física que achei. Um recorte de momento pensado para se passar por inédito. Todos sabem que foi nos filmes e nos livros que estavam pintando essa arte.
E, por último, você — principalmente você — que plantou essa semente de esperança de eu viver este amor invejável. Fomos alimentando-o por anos e, na hora do 'vamos ser medíocres', você fugiu, me culpou e se libertou do vínculo de alguém que tanto amou. Agora se vê no direito de sair gritando o seu amor? Com outro? Nem as ranhuras das minhas paredes brancas e sujas são tão sujas como você. Desculpe por não guardar o meu ódio, pois penso que, se você se lambuzou do meu amor, irei te oferecer o meu ódio. Nada de água para diluir o gosto ruim. Não praguejo, mas saiba que o ódio é o próximo sentimento após o amor.
Quando eu morrer, quero encontrar este Deus normativo. E, em toda a minha arrogância herdada, irei tentar fazer com que o paraíso experiencie o inferno por um segundo. Não levarei as verdades como ele faz; irei questioná-lo sobre como pode colocar os seus ideais em seres 'tão inferiores' e cobrá-los através da sua própria métrica.
Perguntarei quais foram os parâmetros que ele utilizou para se considerar o 'mais mais', e se ele nos perguntou se queríamos chegar a essa 'evolução'. E que evolução? Podemos entender que ele só queria fazer um experimento de baixo orçamento? Perguntarei se ele também via a sua vida em dois paradigmas — o bem e o mal — e se ele seguia aquilo em que ele acreditava.
Se somos a sua semelhança, a guerra é mais válida do que o amor? E, se não for, por que ele nos permitia matar as pessoas em seu nome? Confrontá-lo-ia se ele esperaria o amor; por que o escondeu tanto em nossa humanidade? E por que nos deixou nadar neste fel por tanto tempo? Queria saber como ele se sente quando é reduzido às mesquinharias humanas. E por que ele deixou que a morte fosse vista como algo tão cruel e doloroso, sendo que ela seria para encontrá-lo? Como ele se sente com isso — que, para vê-lo, seja tão sofrido para os que ficaram? E por que ele se esconde tanto?
Perguntaria se ele achava que seríamos tão inteligentes a ponto de compreender a dádiva da natureza; e, se sim, por que ela era tão efêmera e tão destrutiva? Ou se a beleza natural — vinda do caos, do choque, dos vulcões, dos terremotos e dos furacões — era uma justificativa falha para nos pedir desculpas? Ou seria um presente que a gente não soube desfrutar?
Mesmo com toda a prepotência e a arrogância herdadas, iria, sim, pedir perdão pelos meus pecados; mas queria que a responsabilidade fosse dividida, para dar a oportunidade de ele se desculpar pelo seu método de criação. E, de verdade, espero que esse Deus não exista, pois seria tão frustrante que o meu silêncio e o meu desprezo transferido — aquele pela humanidade, só que reverso ao criador — far-me-iam recusar a entrar em seu paraíso; e preferiria ir ao inferno que, com certeza, seria mais fácil, pois é o mais próximo da vida na Terra.
Desenterro
Ultimamente, os mortos estão sendo desenterrados. Todos estão batendo em minha porta para que eu possa olhar em seus olhos e dizer o quanto eu os amo. Meu corpo seria etéreo como a morte, que, em sua sutileza de sumir com a vida, levou o caos (que eu tanto amo) para o meu mundo. Enfrentaria meus pesadelos mais infames ao abraçar o que me deixa semelhante aos viajantes que me olham em vida.
Na morte do outro, encontrei a facilidade de acabar com o que sobrou na caixa de Pandora, mas agora terei a chance de lutar por aquilo de quando você estava respirando. Seriam tantas palavras que resumiriam o que eu não sei sentir. O paradoxo é que estar vivo em morte — vivo em mim e morto nas minhas vistas — é estar morto em mim quando o ar ainda saía de sua garganta.
Seria o momento de perguntar sobre as sutilezas da terra: o sentir ao ver a superfície de uma folha, a cor que exala o perfume das flores. Te interrogaria sobre como foi amar em silêncio. Iria colocar todas as dúvidas em um liquidificador para ter todas as suas certezas dentro de mim.
Ando perdido sobre o que o mundo considera certo ou errado. Tenho apenas as sensações, que me atravessam como uma voz falhando, um último suspiro. Sinto que não está certo quando todos fingem um mundo de felicidade. Nem isso fui capaz... Não te encontrei, nem mostrei para os outros os nossos sonhos tão genéricos: caminhar entre as árvores de mãos dadas e, no fim da trilha, em frente ao mar, dar um beijo que seria eternizado em uma foto, causando inveja aos outros. De tão semelhante e tão perfeito para um quadro de militância. Mesmo que eu ache que o certo seria se jogar do precipício em direção ao sal e pedras. Eu te juro que a queda para a morte seriam os segundos mais vivos que passaríamos juntos. Mas o retrato seria horrível em jornais.
A morte, simbólica ou física, por mais doída que seja, é sempre generosa, pois nos convida a refletir sobre a vida e principalmente a viver.
Eu não vou mais morrer de amor, infelizmente ou não, a maturidade é uma assassina morna e lenta, vai aniquilando as intensidades dos sentimentos em banho-maria.