⚠️ CONTÉM SPOILERS de [TFC (jogo/informações do AMA/ @freakcircusofhorrors )] (backstory, mortes, eventos de trama) (recomenda-se a leitura da Teoria sobre o controle e a natureza de Jester para melhor compreensão do texto; algumas ideias daqui partem diretamente dela)
Aviso rápido, o mesmo de antes: Presumam que tudo que nãoestiver confirmado por canon é leitura minha,salvo indicação contrária. As psicanálises a seguir foram formuladas por um entusiasta, não um profissional/especialista, além de não estarem atualizadas com as informações do AMA publicado no dia 04/07, estejam avisados.
Parte 1: Diferentes nas ações, semelhantes na
essência
O envolvimento de Jester, como já citado anteriormente, fica um tanto "evidente". Mas isso não é só sobre ele: abre espaço também para pensar numa possível "consciência", ou ao menos cumplicidade parcial, de Harlequin durante o evento. Parece que eles conversaram antes/durante o evento da noite sem lua, sobre se tomavam ou não alguma atitude drástica em relação à situação. Onde Harlequin, mesmo concordando até certo ponto, negou; Jester decidiu por ambos
algum tempo depois.
Harlequin parece se lembrar parcialmente do evento, ja que parece carregar um "ressentimento" por Jester ter tomado aquela atitude, não apenas usando-o contra sua vontade, mas usando informações e
teorias pessoais sobre ele. Ele observou que Harlequin almejava a atenção de Pierrot e que, consciente ou inconscientemente, mesmo "gostando" de Columbina, nutria sentimentos reprimidos de ciúme, ambivalência afetiva e ressentimento por abandono passivo: não sabia se a amava (pelo que teve com ela) ou a odiava (pelo que perdeu por causa dela). Jester o usou e, depois, ainda foi hipócrita: na própria
performance, Harlequin "é o veneno", mesmo sendo ele quem o controlou e traiu sua confiança.
Considerando que a cena secreta seja mais sobre MC do que sobre os dois especificamente, ela ainda pode servir para mostrar que, assim como Jester, Harlequin também é do tipo observador; consciente sobre meias-verdades/hipocrisia, ele também parece conhecer um pouco a natureza de cada um:
Foi quase como se ele dissesse:
"Foi você quem me usou pra não sujar as próprias mãos, e ainda tem a coragem de me chamar de traiçoeiro?. Hipócrita da sua parte. Não se iluda. Não somos tão... diferentes, afinal~."
Atualmente, ambos vivem um dilema mentiroso, uma relação de narcisismo das pequenas diferenças (Freud). Harlequin o enxerga com recusa (Verleugnung) e formação reativa, e Jester, com condescendência; são o espelho moral da sombra um do outro, mesmo que neguem. Considerando que ambos compartilham visões de mundo paralelas, acredito que, anteriormente, eles serviram como "os profetas do caos". Eles não romantizavam a imagem passiva e bondosa de Columbina, embora vissem valor em sua benevolência, sabiam exatamente o preço que tamanha passividade poderia custar.
As projeções sobre Columbina:
Pierrot: benevolente, terna, amiga/amante. O ideal do seu ego, a projeção de tudo que ele queria proteger e ser. Seu farol de pureza: o anjo, o guia moral em um mundo cruel, a antítese dos espinhos do mundo.
Doutor: afável, grácil, esperta (aparentemente trocavam conhecimentos de plantas medicinais; acho também que ele a achava adorável, já que mais de uma vez é reforçado que ele tem um fraco por coisas fofas/frágeis). A planta medicinal, aquela que cura o ambiente.
Bilheteiro: serena, inocente, sua pupila (teoria do pai enlutado, de @hexserath ). O porto seguro/fetiche de normalidade, quem
trazia "normalidade" ao grupo. Sua âncora de suavidade, quem quebrava sua rigidez. Seu escudo contra a barbaridade; quem o impedia de virar um "monstro".
Harlequin, a mascara e a origem do medo de abandono. O caótico ben vivant tramado.
Analisando a psique de Harlequin, fica claro seu medo de ser ignorado/esquecido, de se entregar genuinamente, e mostrar sua
contraparte vulnerável. Se eu tivesse que resumir tudo numa frase só, seria: "Freud explica isso". Breve paralelo com Pierrot: entre os dois, é ele quem mais oculta a verdade dos outros (de MC, por exemplo), mas é quem menos mente para si mesmo. Harlequin é o oposto: está
disposto a revelar sua aparência (quebrando as regras), mas é um mentiroso para si mesmo. Os dois ocultam a verdade; só que um
mais para os outros, e o outro mais para si.
Comentários de @freakcircusofhorrors evidenciam os prelúdios de seus anseios. Seus pais.
Por mais que não fosse a intenção, as ações negligentes e imaturas deles criaram um Harlequin inseguro e medroso(características centrais dele no momento da narrativa). Ao dizer "mantínhamos nossa
independência e raramente interferíamos na vida um do outro", insunua que mesmo que "tentassem", não conseguram lhe ensinar nem as coisas mais básicas de forma eficiente, como caçar, por exemplo, que poderia servir tanto como ensinamento de sobrevivência/independência quanto como atividade de conexão entre genitores e prole.
O primeiro pilar de Harlequin: Pierrot
Após se afastar de seus pais (ou se perder), foi Pierrot quem ele encontrou. Mesmo sem contato inicial, e com um afastamento momentâneo antes do reencontro, fica entendido que foi Pierrot quem tomou a iniciativa de aproximação. Ele não foi só um amigo para Harlequin: foi seu mentor de sobrevivência, uma figura fraterna acidental. Ele cumpriu esse papel ensinando/refinando certas coisas de forma inconsciente, derivadas da boa convivência que teve com os próprios pais, replicando, na brincadeira, o que lhe foi ensinado. Foi o primeiro pilar e porto segururo na vida de Harlequin.
Pierrot, Harlequin e Columbina
Narrativamente, há dúvidas sobre até que ponto o que vemos é confiável; então aqui vão minhas especulações: foi Columbina quem fez o primeiro contato com os dois, dado seu status de gentileza. Também imagino que, apesar de ser menos arredio que Harlequin, ele estranhou e temeu assustá- la/afastá-la. Intrigado por ver alguém tão frágil e gentil confiando nele, foi se encantando; Ela, como uma figura gentil e de doces palavras, despertou inconscientemente memórias que a associaram à mãe a qual ele perdeu prematuramente. Pierrot se apaixonou.
Como já pontuado, Harlequin começou a nutrir ciúmes: com a atenção de Pierrot voltada para Columbina, quem sobraria para olhar para ele? Com o passar do tempo e a convivência, Harlequin também caiu em seus encantos, mesmo sem sentir por ela o mesmo que senteu por Pierrot (ao menos, não com a mesma intensidade). Ela foi o segundo pilar emocional acidental de Harlequin.
Considerando a "maturidade" de ambos, é fácil entender por que pequenos confrontos começaram a aparecer, com os dois disputando
atenção: Pierrot, a dela; Harlequin, a (dele) dela
também.
O preço da passividade / inocência tóxica e o dilema de quadrilha de Drummond
Ambos gostarem de Columbina, e almejarem sua atenção, não foi o "problema", afinal, a dinâmica não havia mudado tão drasticamente; de certo modo, Harlequin ainda tinha a atenção que o mantinha "neutro" em relação a tudo. Isso, claro, até o momento em que Pierrot e Columbina passaram a ter uma dinâmica própria.
Nessa cena, surge a questão: os suspiros e o coração acelerado representam sua paixão somada ao medo, ou apenas o medo? Minha hipótese é a primeira: acredito que os dois sentimentos coexistem, com a paixão como resposta predominante e o medo como pano de fundo constante.
Mesmo parecendo preferir Harlequin, ela preferiu/escolheu Pierrot. A incerteza gerada por seu silêncio, causado por sua incapacidade de assumir/falar certas coisas, visando não magoar ninguém, foi o início de seu estopim. Essa dinâmica foi consumindo Harlequin pouco a pouco: ele perdeu a atenção não de um, mas de ambos. Por mais que
"gostasse" de Columbina, seu subconsciente voltou a enxergá-la como uma "ameaça"; ele passou a odiar o jogo de atenção formado entre os três. Isso talvez se explique pelo tipo de amor que ele valoriza: mais os sentimentos formados pelo tempo e companheirismo do que a paixão em si, diferente de um anjo ingênuo e de um Pierrot apaixonado.
O problema, ao falar de Columbina, é enxergá-la só como o delicado anjo inocente, mesmo que ela seja isso, e ignorar o que já apontei na outra teoria: o silêncio e o não agir podem trazer consequências futuras. Não acho que as coisas teriam sido tão diferentes, mas muita coisa poderia ter sido evitada se ela tivesse dito "não". Isso também vale em relação à trupe, que possivelmente abaixou a guarda, dando a ela a chance de provar seu ponto. E se ela, como "o anjo", fosse do tipo que insistia em ver mudança até nos mais desprezíveis? Que achava que qualquer um poderia mudar? E se ela não quisesse, além disso, que atacassem os humanos? Isso deu brecha para o Mestre de Cerimônias, pouco a pouco, diminuir a comida deles, deixando-os vulneráveis e levando a trupe à situação extrema em que se encontraram.
Um detalhe que eu tinha deixado passar antes, mas que acho que se encaixa bem aqui: os "tolos" são um paralelo a Columbina. Vulneráveis, vítimas, obedientes, submissos, tolos. Ainda mais considerando que eles são um tipo de "sacrifício" para a trupe: são, além de ajudantes, bonecos de teste que morrem ou servem de comida quando necessário. Algo que não seria estranho, considerando que Jester e Bilheteiro são responsáveis pelos figurinos.
Continuação/Parte 02: Sob a pele (uma leitura neuropsicanalítica)
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